domingo, 4 de agosto de 2013

O amor de Dália (Carlos Eduardo F. M.)


Dália caminhava por entre as gôndolas do supermercado absorta em seus pensamentos. Como em transe, jogou uma caixa de bombons no carrinho. Ela odiava doces. Ela não estava realmente ali, não queria estar ali, encontrava-se em outro lugar, em um espaço atemporal, que tornava tudo suspenso, impreciso e moroso. Sua respiração era pesada. Seus movimentos, letárgicos.

Há uma semana, ela conhecera Paulo enquanto fazia o horário do almoço em um restaurante perto do trabalho.

– Posso me juntar a você? – Arguiu o então desconhecido.

Ela estava de cabeça baixa, já comendo. Ergueu os olhos, assustada. Não esperava ninguém. Olhou em volta, não havia mais lugares realmente.

– Sem problemas, fique à vontade – fez simplesmente.

Fora Paulo que puxara conversa. Ele era gentil, calmo e calculista. No começo, Dália estava indiferente, só queria comer e sair logo dali. Mesmo sentindo a resistência de sua interlocutora, Paulo avançava e recuava com uma oratória eficiente. Os assuntos iniciais foram pragmáticos e rasos. Dália não soube explicar, mas sentiu-se confortável com toda a fluidez do diálogo estabelecido.

Quando os pratos esvaziaram-se nenhum dos dois levantou. Logo a conversa tomou novos rumos.

– Eu gostaria muito de vê-la outra vez – soltou Paulo, encarando-a com olhos famintos.

– Eu não posso... – hesitou – Sou casada – asseverou por fim.

– Todos nós somos nesta época da vida. Eu mesmo, por exemplo, sou casado com algumas ideias imorais... Eu sempre tento me divorciar delas, mas elas não me deixam... ­ – disse, sorrindo, sem mover o olhar daquela linda mulher.

E não houve mais resistência. Com a guarda totalmente aberta, ela retribuiu o sorriso. Naquele instante, ela ainda nem desconfiava, mas havia lhe entregado a alma.

Dália era uma bela mulher. Na altura de seus quarenta e seis anos, ela desbancava muitas jovens. Seu sorriso e seu olhar, ilusoriamente, transmitiam ingenuidade de moça pura. Seu corpo de pele alva era delicado e exuberante. Seu cabelo negro era sedoso e esvoaçante. O efeito estético do todo era encantador. Não ao contrário, havia o mesmo efeito quando ela se expressava, apesar da taciturnidade (ela preferia, sabiamente, ouvir mais). Sua perspicácia era visivelmente arrebatadora e contagiante. Tudo nela funcionava como uma engrenagem metódica e perfeita, que agia com eficiência e graça, de modo que a sua simples presença causava tremor no mais forte dos seres.

Paulo, desde o primeiro momento, atinou para tais encantamentos e qualidades e, vendo uma oportunidade, sem nem ponderar se era mesmo possível, quis tê-la de qualquer forma. Quando saiu do restaurante naquele dia, ele não parava de pensar em sua frase final, que concluía todo aquele primeiro encontro:

– Vemo-nos em dois dias então, no local e hora que marcamos. Mal posso esperar...

Depois disso, tomaram lados opostos.

Já em casa, após retornar do supermercado, Dália olhava para o relógio. O tempo passava de maneira estranha e não do modo como conhecia. Com mais duas horas, encontraria aquele homem que havia mexido com a sua racionalidade, com o seu cerne, com a sua vida. Tentava guardar as mercadorias na dispensa, mas seu corpo tremulava. Ficou parada por um tempo no corredor que dava para a cozinha. Então se lembrou de que era pior ficar sem fazer nada, pois a ansiedade era inquietante e até por essa razão é que fora ao supermercado ocupar seu tempo.  Além do mais, logo o marido chegaria e ela teria que disfarçar toda aquela agitação angustiante.

À medida que fazia o trabalho maquinal de organizar as compras, ela lembrou-se do sonho que tivera com Paulo na noite anterior. Se fechasse os olhos poderia senti-lo ali mesmo, beijando-a naquele ambiente onírico e fantasioso. E assim o fez. No sonho, ela e Paulo encaravam-se com um desejo ardente e febril em algum lugar indefinido e irreal. Paulo não resistiu e puxou-a para si, e antes que pudesse ser dito qualquer coisa, entre narizes e lábios colados um no outro, ele adentrou em sua boca com sua língua de serpente e de vez enquanto mordiscava a parte de baixo do lábio úmido dela. Em meio aquele resvalar de línguas e respirações descompassadas, ela sentiu que ele a empurrava lentamente para trás até uma espécie de parede translúcida, como guiando seus passos. Encurralou-a e ia pressionando-a, aos poucos, em um movimento sincronizado, seu corpo contra o dela. Ela gemeu de prazer, sem pudor. Ele queria mais. Ela pedia por mais. A respiração ofegante dela descontrolava-o. Uma energia frenética brotava do ventre de Dália, seus olhos começaram a revirar e uma irracionalidade animal a fez esquecer-se de todas e quaisquer regras que tolhiam o seu ser...

Não tardou para que em poucos minutos, deveras, o marido retornasse do trabalho, conforme o previsto. Ela já havia terminado de organizar os produtos recém-comprados, agora finalizava o jantar.   

– Como vai, meu amor? – perguntou o esposo.

E antes que ela pudesse responder, ele emendou, atropelando a sua própria pergunta:

– Nossa, que dia cansativo! Muito quente, eu trabalhei muito. Vou tomar um banho frio, estou exausto... Diga-me, não é hoje que disse que irá ao shopping com suas amigas? – quis saber, já se dirigindo para o banheiro.

– Sim, daqui a pouco – respondeu simplesmente. A sua resposta deu de cara com a porta fechada do banheiro.

O coração dela disparou. O marido havia acreditado na história. Logo sairia e encontraria Paulo. O desconhecido, o prazer, a fantasia, tudo a aguardava e culminava para um final feliz e prazeroso. Ela soltou um sorriso desesperado e depois mordeu os lábios. Ela já havia planejado como seria este dia. Pensara em tudo. Preencheria a manhã e a parte da tarde com afazeres, para que pudesse controlar a mente e acalmar os ânimos. Esperaria o marido chegar ao lar, após o trabalho, deixaria que ele tomasse banho enquanto o jantar era esquentado e depois tomaria o seu banho e sairia, finalmente, rumo ao seu encontro. Carla e Bruna, suas amigas, seriam o álibi perfeito, mesmo que elas mesmas não soubessem de nenhuma história de encontro em shopping. Isso era um detalhe a ser consertado depois. O marido era desligado e muito ingênuo. O que importava, para que seu objetivo fosse alcançado, era o desenrolar de métodos práticos em sequência, exatamente o que já vinha acontecendo até ali.

Quando o marido saiu do banho, ela correu para tomar o seu lugar e informou-lhe:

– Seu jantar está sobre o fogão. Tomarei banho agora e sairei correndo, porque estou atrasada.

– Espere – e aproximou-se dela.

Ela congelou.

Ele emendou:

– Não lhe digo isto faz tempo, eu sei, mas saiba que você é a mulher da minha vida, sempre foi, eu te amo – havia veracidade e emoção em sua voz. Aplicou um beijo fraterno nela e deu meia volta.

Ele seguiu para a cozinha. Suas palavras ficaram.

Naquele mesmo dia à noite, após o banho, depois de fingir um telefonema ou dois, dissera ao marido que as amigas haviam desmarcado tudo e ela não teria mais o encontro.

“Era o amor, tudo culpa do amor”, pensou ela, de madrugada, deitada na cama, mirando o teto escuro, ao lado do marido que roncava.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Todos os pecados do mundo (Carlos Eduardo F. M.)





Gideão, sem saber o porquê, acordou naquele dia de verão com uma frase na cabeça, que tomara conhecimento anos atrás, após assistir, em 1974, para ser mais preciso, ao renomado filme de Roman Polanski, “Chinatown”. A sentença fora dita pelo personagem Noah Cross a outro personagem, o detetive particular Jake Gittes: “I don't blame myself. You see, Mr. Gittes, most people never have to face the fact that, at the right time and the right place, they're capable of ANYTHING” – em tradução livre – “Eu não me culpo. Veja, Sr. Gittes, a maioria das pessoas não consegue encarar o fato de que, no momento certo e lugar certo, elas são capazes de QUALQUER COISA”...
Paulo dirigiu-se para a Rua Rosa dos Ventos em grande velocidade. Para que sua corrida fosse ainda mais eficiente, ele deixara os chinelos para trás na Rua José Bonifácio. Suas solas dos pés, ainda que ásperas, sentiam o asfalto em brasa assar-lhes; seu coração batia em ritmo frenético, quase descontrolado; já lhe faltava ar nos pulmões; seu corpo suado cintilava devido ao sol escaldante daquela manhã. Esse pobre vigia de carros não aguentava mais correr e daria tudo para parar, mas não podia, pois cerca de dez pessoas estavam em seu encalço, também em alta velocidade. Seu pecado havia ficado a uns oitocentos metros atrás – uma bolsa que havia recém-furtado de uma senhora. Ele ponderou que sem o objeto abstraído, o bando, sedento por “justiça”, deixar-no-ia empreender fuga, mas não foi isso que ocorreu...
O arrependimento assentou-se sobre Paulo à medida que seguia fugindo, mas àquela altura, já era tarde demais. Aliás, em sua vida, “para tudo já era tarde demais”, dizia para si mesmo. Vigiar carros, cheirar cola, beber cachaça, roubar quando fosse oportuno e viver na rua era tudo o que fazia. “Desapegue-se desta sua vida vazia”, disse um pastor que fazia trabalho campal certa feita. “Eu não consigo”, fez resposta na época. E jamais conseguiu.
Agora lá estava Paulo fugindo do bando de “juízes” furiosos e nada racionais que o condenariam. Sua aceleração foi diminuindo cada vez mais. Seus músculos não davam mais retorno. Faltava-lhe oxigênio. Para piorar não havia comido até aquele momento. Sua energia estava reduzida. “Não aguento mais!”, pensou; contudo, apenas por uma questão de sobrevivência, continuou a sua maratona maquinalmente. Quando atingiu a Avenida Joaquim Gomes Lira e dobrou à direita, desacelerou de vez e finalmente foi alcançado e jogado ao chão como novilho.
Os dez ofegantes cercaram-no e não perderam tempo em trazer a “justiça” até o infeliz. Paulo sentia as costas queimando no chão que fervia. Em vão, tentava se proteger dos socos e chutes que eram desvencilhados sem dó. Com extrema dificuldade, puxava o ar para alimentar os pulmões – ainda estava exausto devido à corrida. Ele tentou dizer algo, mas não conseguiu. Um golpe potente de cima para baixo acertou-lhe um dos olhos, que foi inchando e logo estava inoperante. Ainda no mesmo instante, uma botada certeira partiu-lhe uma das costelas. A respiração, que estava complicada, piorou de vez. 
Ironicamente, lá no fundo, para ser completamente sincero, nenhum dos dez “justiceiros” puniam o rapaz pelo roubo da bolsa; não, a verdade era que não ligavam quase nada para isso, o que tornava a situação um pouco mais complexa.
Ricardo aplicava chutes no desgraçado por ter sido despedido minutos atrás; Romeu também tinha o seu motivo, golpeava-lhe com o punho esquerdo, mirando essencialmente a cabeça daquele pária social, com toda indignação deste mundo, pois tivera uma briga feia com a esposa; Anselmo, de cócoras, dentro da roda, e não menos furioso, usava a mão direita de martelo e acertava o estômago do ladrão incessantemente, pois não conseguia pagar as suas dívidas, os seus muitos débitos. Josué, completamente exaltado, como não conseguia entrar na roda, bradava todos os tipos de impropérios conhecidos e, vez ou outra, cuspia, por entre os espaços que se formavam, no pobre diabo, porque havia perdido a mãe recentemente e não aceitava... E cada um, por sua vez, foi liberando a sua raiva contida, extravasando o ódio reprimido, soltando seus problemas sobre o condenado. O bode expiatório foi pagando o preço aos poucos. Desemprego, violência, sistema de saúde precário, poluição, educação ineficiente, corrupção, impostos excessivos, desejos reprimidos, insatisfações, desilusões amorosas e outras tantas razões, tudo era motivo para surrar-lhe. Os problemas sociais e pessoais de cada um, assim como todos os pecados do mundo pareciam ter um único culpado naquele momento – Paulo.
Logo, já não eram mais dez, mas vinte justiceiros. Gideão, que havia ido comprar pães, chegou perto do círculo de horrores. Informou-se sobre o que ocorria. Um dos agressores, aumentando um pouco a história, contou-lhe que o meliante dera uma surra em uma pobre senhora e levara a sua bolsa. Gideão, no alto de seus quarenta e cinco anos de sabedoria, indignado, não hesitou. Estava no momento e lugar certos. Tomou um pedaço de madeira nas mãos, que estava assentado no chão perto da padaria recém-reformada, deu um grito assustador, abriu caminho entre os linchadores e bateu com toda a força na cabeça de Paulo, que já então começava a fazer movimentos involuntários, soltando seus últimos suspiros. O bando, agora atônito, diluiu-se rapidamente.
Quando a polícia chegou, cerca de cinco minutos depois, só havia o corpo triturado de Paulo sobre uma grande poça de sangue. Gideão assistiu à cena enquanto saia da padaria com a sua sacola de pães quentes e fumegantes. Em sua cabeça só havia um pensamento – se o café que a esposa estava fazendo estaria pronto quando chegasse ao lar. Mal poderia esperar pelo desjejum.
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650 X 400 - Cameron Tiede, When it Snows in Hell, 2008, oil on canvas 40" × 20".

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Um passeio ao Shopping Vitória (Carlos Eduardo F. M.)



Eu não sei bem por que, com exatidão, eu tenho certa fascinação por shoppings. Eu não deveria, sabendo de algumas de suas armadilhas, mas tenho que ser honesto comigo mesmo. Talvez uma das razões seja porque esse monte de concreto imponente e atraente, cheio de luzes e cores cause ilusões.

Um desses engodos é o fato de os shoppings, geralmente, possuírem pisos com aspecto lustroso-ensebado, de modo que passam a mensagem subliminar de escorregadios, com o intuito de que as pessoas, temerosas em levar uma queda, ainda que inconscientemente, realmente andem devagar para olhar as vitrines e fiquem mais atentas às mercadorias ofertadas por trás dos vidros. Outra provável razão seja a ilusão cativante pra mim de que normalmente se pensa que esses grandes centros comerciais são lugares que “arejam a cabeça”, que limam o estresse, o que, na verdade, pode ser exatamente o contrário, o shopping torna-o, de maneira proposital, mentalmente confuso e exaurido, de modo a deixá-lo parecido com uma isca impotente pronto para ser fisgado! É fatídico estarmos sempre sendo desviados das coisas que realmente importam...

Mas, ironicamente, foi exatamente nesse grande centro de futilidades e enganos que tive uma das lições mais importantes da minha vida.

Cinco anos após a inauguração de um dos shoppings mais importantes de Vitória, o Shopping Vitória, em 1998, estava eu lá, fazendo um tour pelo mall. Sempre odiei andar sozinho, muito porque nutro um pensamento insano de que as pessoas ficam à espreita, encarando-me e apontando-me seus dedos acusadores por eu estar saindo solitariamente (mesmo que fosse descompromissado) para procurar alguém ou para fazer qualquer coisa errada que seja. Na verdade, apenas uma de minhas muitas idiossincrasias. Mas, naquele dia, daquele ano, meu pai havia me emprestado seu velho Apollo para eu “dar um rolé” e, então, eu abri uma exceção e dirigi-me pra capital sozinho.

Àquela época, eu havia recém-completado 18 anos, não possuía emprego, era apenas um jovem estudante do primeiro período de Letras empolgado com carro, mulher, liberdade e independência. Não é preciso admitir que além do veículo, meu pai teve que me prover com as notas que movem o mundo. Aqueles conglomerados de lojas costumam cobrar caro para recebê-lo, de uma forma ou de outra...

Após certo tempo de caminhada circular no térreo e primeiro andar, e olhadelas para as vitrines, a fome veio e então procurei aplacá-la na “praça de alimentação”. A carteira com o emblema do São Paulo Futebol Clube (que me foi roubada anos depois na Praia do Suá) foi aberta pela primeira vez. Depois de empanturrar-me com junk food, fui assolado por uma vontade incontrolável de comer açúcar (aqui jaz mais um truque), então fui para a fila do sundae. Carteira aberta novamente. Com a barriga estufada, saí arrastando o corpo pesado para dar mais algumas voltas, afinal ainda era cedo. Engraçado como os shoppings têm o poder de esgotar as nossas energias, de minar as nossas mentes. Muitas pessoas aglomeradas, fila para isso, para aquilo, sons de todos os tipos, luzes, toda sorte de cores chamativas e estrategicamente combinadas, cartazes com descontos etc., tudo isso contribui, deveras. Em um desses momentos de esgotamento mental, eu me encantei com algo que achava que precisava e que já nem me lembro mais, pois estava “com desconto” (outro truque cruel!). Carteira aberta pela terceira vez.

Àquela altura, eu decidira que já tinha tido o bastante daquele lugar perturbador e fui pagar a conta do estacionamento. Entrei na fila e fiquei esperando. Só queria chegar a minha casa. Enfim era a minha vez, abri a carteira pela última vez. Qual foi a surpresa quando me deparei com a mesma quase vazia. Havia apenas uma nota de um real, hoje extinta. O dinheiro havia se esvaído. Eu comecei a pensar que eu perdera dinheiro ou que fora roubado ou que alguém me dera o troco errado em dado momento, contudo, o certo era que nada disso importava, o que realmente possuía relevância era que o funcionário do guichê esperava o dinheiro do estacionamento, as pessoas atrás de mim aguardavam também. E não seria só com um real que eu sairia de lá com o carro do meu pai. Eu olhava atônito para o funcionário, que por sua vez não tinha nada a ver com o dinheiro que eu consumira e encarava-me de volta com indiferença. “E agora, José?”, eu pensei.

Uma batida de mão em meu ombro tirou-me do transe daquela situação constrangedora. Eu olhei para trás assustado. Um senhor olhava-me com piedade. Ele soltou um sorriso ameno e disse:

- Não se preocupe, eu pago pra você.

Um alívio percorreu o meu corpo, mas, mais por orgulho do que por educação, eu respondi que não precisava, mesmo sabendo que não haveria outra solução. E dessa vez ele asseverou:

- Eu faço questão!

E, dizendo isso, ele pulou na minha frente e pagou pelos nossos estacionamentos. Deu um sorriso, entregou-me o comprovante e despediu-se com um olhar terno e amoroso:

- Fique tranquilo, isso é normal! Vá com Deus!

Aquilo era tudo, menos “normal” para mim. Eu agradeci, acho que agradeci ou pelo menos deveria ter agradecido muito, muito mesmo. Uma vergonha sem tamanho tomou o meu ser e eu fui para o carro quase correndo. Eu fiquei pensando tanto na situação, que quando eu dei por mim, eu já estava a uns três quilômetros de casa. Algumas indagações insistiam em rodopiar em minha mente: “Como eu havia conseguido gastar todo o dinheiro sem perceber? Que espécie de idiota eu era?”; “Por que aquele senhor fizera isso por mim sem nem ao menos me conhecer?”; “O que ele ganhou com isso?”. Logo, a adrenalina baixou e eu fiquei feliz e grato por aquele gesto. Depois de ter contado o fato para algumas pessoas nos dias que se seguiram, eu dei o assunto por encerrado.

A vida continuou e passaram-se alguns anos. Eu havia ido a um “Pague Fácil” desses da vida para acertar algumas contas. Já estava formado, casado, até com filho, e havia atingido estabilidade financeira em um emprego público. A fila seguia vagarosamente. Um moço de indumentária singela e chinelos de dedo estava logo a minha frente e havia chegado a sua vez. Ele entregou a conta para a moça do caixa. Ela somou e disse a quantia. O rapaz mexeu nos dois bolsos da calça, deparou-se com muitos papéis amassados, poucas notas e algumas moedas e descobriu que possuía um montante um pouco menor do que lhe era devidamente cobrado. Ele ficou sem graça e disse que depois voltaria para pagar, alegando ter se enganado com o valor total da fatura. Eu não hesitei nem por um segundo, toquei em seu ombro, tomei a sua frente e acertei o que faltava para fechar o valor final da conta. “Eu faço questão”, disse-lhe. Aquele desconhecido, ainda que assustado e surpreso, agradeceu-me sem parar. Seguimos nossos caminhos.

Naquele momento, na volta para casa, uma grande emoção tomou a minha alma, um contentamento repleto assentou-se em mim e eu, finalmente, entendi que, anos atrás, o senhor do Shopping Vitória não havia feito um bem apenas para mim, eu não era o centro do universo, como havia imaginado egoisticamente; a verdade era que ele havia sido solidário, sobretudo, com o mundo inteiro...
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700 × 439 - Chris Hagerty, Atlantic Center Mall & Baghdad,2008, oil on canvas 48" x 30".

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Eduardo, o diferente! (Carlos Eduardo F. M.)




Em 1990, Tim Burton, diretor de tantos filmes excelentes (A Noiva-Cadáver, O Estranho Mundo de Jack, Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, Os Fantasmas Se Divertem, Ed Wood, Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, A Fantástica Fábrica de Chocolates, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, entre outros), fez, sob minha visão, a sua obra-prima – "Edward Mãos de Tesoura". Naquela época, eu já havia ficado abismado com a película, mas era ainda muito imaturo e ingênuo para alcançar a sua grandeza.

O longa narra a fábula de Edward, um ser solitário que, ao invés de mãos, possui grandes tesouras no local.  Criado por um inventor que morreu pouco antes de adaptar-lhe as mãos, ele vive sozinho em um castelo no topo de um monte. Um dia, ele é encontrado, acidentalmente, por uma vendedora da Avon, que o ajuda a adaptar-se à vida na cidadezinha que fica aos pés do monte.

No filme, encontram-se todas as características peculiares do diretor Tim Burton – a riqueza de elementos góticos; o contraste do preto e branco de um lado; do outro, o colorido onírico; a obscuridade dos ambientes e seres; à exaltação do diferente, do pária social, do excêntrico, contrastando com a censura do igual, do adaptado, do normal; o tom fantasioso da narrativa; a valorização do surreal em oposição ao real; originalidade, identidade própria versus repetição de comportamento e por aí vai.

É fantástico notar que a cada vez que se vê esse tour de force, percebe-se algo novo, algo revelador, subjetivo, às vezes, até mesmo abstrato, como em um belo quadro. Esses dias, assistindo ao filme novamente, eu prestei atenção a uma de suas muitas cenas panorâmicas e interessantes – os maridos saíram para trabalhar exatamente no mesmo instante, com seus carros parecidos, um atrás do outro, enfileirados. Como listei no parágrafo acima, uma das características mais marcantes de Burton é a crítica ao comportamento de gado que insistimos em ter. Ele indiretamente está sempre nos questionando – por que temos que fazer tudo igual? Por que temos que ser iguais?

Muitas vezes o Eu é negligenciado, o objetivo é valorizado em detrimento do subjetivo. A identidade própria é dilacerada para que haja adaptação à “normalidade”. Mas que normalidade é essa que nos torna clones um do outro? As pessoas vão deixando de ser elas mesmas para que sejam aceitas pela sociedade e, o pior, ainda assim, não deixam de ser menos infelizes. Só é permitido que eu goste do que os outros gostam; o meu querer, a minha escolha não pode ser reconhecida, pois é ruim, é feia, não está de acordo com os padrões sociais vigentes. Mas não se pode perder as esperanças, tudo pode mudar caso a maioria queira, caso vire moda. Lamento muito que na esperança de o sujeito ficar cada vez mais parecido com outros, fique cada vez menos parecido consigo mesmo.

O diferente, o original, como Edward Mãos de Tesoura, deveria ser celebrado. No entanto, ele, pressionado pela sociedade à sua volta, e sentindo-se infeliz pelas diferenças e, até por isso, querendo ser igual, é massacrado, discriminado, humilhado. Sua palidez cadavérica, suas mãos de tesouras, sua indumentária negra, suas cicatrizes, seus cabelos desgrenhados, seu comportamento tímido, sua quietude e paciência, a sua excentricidade, no começo, são até “aceitos” pelos outros, mediante aos favores ofertados por ele, mas, ao final, quando sua utilidade cessa, todas essas suas características oriundas acabam por ser rejeitadas; afinal, conforme se tinha ciência, já eram fadadas, desde que fora concebido, ao repúdio, de uma forma ou de outra.

Para finalizar, gostaria de citar apenas a última estrofe do célebre poema de Robert Frost, já traduzido por mim, livremente, neste blog - “The road not taken” (A estrada não escolhida):

“Devo contar isto com um suspiro.
Em algum lugar, tempos e tempos atrás:
Duas estradas bifurcavam-se num bosque, e eu –
Eu escolhi a menos viajada,
E isso fez toda a diferença.”

Obs.: E devo afirmar que continuo, com orgulho, seguindo na estrada menos viajada... E isso fez toda a diferença!

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Do jeito que mais a agradava (Carlos Eduardo F. M.)




Dona Isaura reinava feliz em sua cozinha silente, na aurora daquela manhã de primavera. Logo os primeiros raios do sol penetrariam pela janela. Ela tinha o venturoso costume de acordar sorridente e satisfeita. Entendia que cada novo despertar era uma dádiva divina e que, portanto, nada mais justo que uma demonstração de gratidão.

A chaleira já estava sobre as chamas do fogão, aquecendo a água aos poucos. Dona Isaura bocejava enquanto contava as colheres do pó de café no coador. Depois, abriu o armário, puxou uma toalha e forrou a mesa redonda de cedro. Escorreu a mão sobre todo o tecido para que ficasse bem esticado. Puxou um vasinho cor de esmeralda, com flores rosa dentro, do mármore ao lado do fogão, colou debaixo da torneira, deixou cair um fio d’água e centralizou-o sobre a mesa. Da prateleira, pegou uma xícara e pires de porcelanas, ajustado-os também na mesa. Também retirou dois lenços da gaveta debaixo do armário e jogou-os, com técnica, de modo arquitetônico, um de cada lado do vaso. Virou-se de costas e coou o café no bule. Uma fumaça trêmula ergue-se no ar e um aroma inebriante rompeu-se, espalhando-se por todo o ambiente. Postou o bule logo atrás da xícara. As suas papilas gustativas ansiavam por tudo que ainda estava por vir. Correu do outro lado da cozinha, abriu a geladeira e pegou um prato de frutas com uma das mãos e, com a outra, recolheu o recipiente do queijo de cabra. Levou tudo para a mesa, acertando as suas posições. Olhou para o relógio de parede – vinte para as seis; o pão quentinho estava por sair. A padaria ficava a uma quadra de casa. Apressou-se para ir buscar.

Em poucos minutos, já estava de volta. Preencheu a cesta de vime, que estava sobre o pequeno armário, com os pães de sal fumegantes, recolheu um deles, colocou sobre o prato e pôs sobre a mesa, ao lado da xícara. Puxou uma faca, fez um corte na borda do pão, aplicou-lhe uma quantia generosa de manteiga caseira, que também se encontrava sobre o armarinho, e assentou novamente o pão sobre o prato. Serviu o café na xícara.  

Depois, Dona Isaura ficou a contemplar, em pé, ainda que por alguns segundos, a sua obra de arte. Tudo estava do jeito que mais a agradava. A toalha amarela desbotada, limpa, sem dobras e sem máculas. O colorido harmonioso das frutas: a maçã verde, a pera, os morangos e meio mamão. Os lenços rosa caídos, semelhantes a algodões-doces, em torno do vaso cujas flores, também rosadas, pendiam com charme. O queijo liso e compacto, como um iceberg. A xícara e pires muito alvos e brilhantes, contrastando com o liquido fumeante, marrom enegrecido. O pão francês quentinho, meio torrado, meio pálido, na medida, dilacerado, minando manteiga derretida pelo corte. A refeição convidativa implorava para ser devorada. Um ronco cavernoso das profundezas de seu estômago fez Dona Isaura perceber que estava faminta.  

A porta da cozinha abriu-se exatamente às seis. Dona Isaura assustou-se e saiu de seu transe hipnótico, dando dois passos para trás. Valquíria Albuquerque de Bragança adentrou-se, imponente, com ares de arrogância. O seu mau humor matutino era costumeiro. A pomposa dama sentou-se na cadeira exatamente em frente à ceia. Deu um belo gole no café e uma mordida no pão crocante.

A velha Isaura de guerra continuou em pé, imóvel, com os braços para trás, aguardando, pacientemente, a patroa terminar seu desjejum para que só então fizesse o seu.

“Concedei-nos, Senhor, o esquecimento do eu, para que a importância do todo nos una no trabalho fraterno” – Irmão Miguel, 02-08-1980.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A mulher mais gorda da face da Terra (Carlos Eduardo F. M.)


Sentada, contemplando, da janela de seu casebre, o frondoso e robusto carvalho-das-canárias, com sua copa densa e entendida, e seu tronco imponente, dona Augusta, no auge de seus oitenta e cinco anos, via-se a si mesma. Aquela mulher macilenta, que se movia, na grande maioria das vezes, como um bicho-preguiça, estava em repouso, ociosa, chafurdada em uma crise existencial.

A senhora opulenta lembrou-se dos tempos remotos que trabalhava em um circo itinerante. Nascera e crescera ali. Os grilhões da conveniência e resignação retinham-na naquele lugar. Aquele era o seu mundo. Não conhecia e não entendia nada mais. Filha dos, então, finados “homem que cuspia fogo” e a “mulher barbada”, ela era uma das atrações do espetáculo – “a mulher mais gorda da face da Terra”. O interlocutor apresentava-a como uma aberração concebida em um país longínquo, um lugar esquecido, que não era nem encontrado no mapa. Dizia também que a gorda falava uma língua estranha que não fora catalogada e era ininteligível mesmo para os poliglotas e eruditos e que a pobre ainda não havia aprendido a falar o português, apesar de entender certas palavras.

“Esta mulher, senhoras e senhores, chega a fazer até dez refeições por dia! Para vocês terem uma ideia, seu café da manhã é composto por dez ovos, sete broas de milho, meio quilo de queijo e presunto, um pote grande de goiabada e quatro copos grandes de leite com café! Certa feita, meus amigos, eu mesmo testemunhei a fome descomunal desta criatura – ela comeu um boi inteiro!” – disse o apresentador, entretendo a plateia atônita. À medida que o narrador ia costurando sua teia de farsa burlesca para os presentes, a gorda ia se empanturrando de guloseimas postadas sob uma mesa à sua frente, a uma velocidade assustadora. Devido a essa agilidade de capturar os quitutes, levar até a boca, triturar e engolir, para depois repetir o ciclo de comilança, “a mulher mais gorda da face da Terra” também possuía o apodo de “pá mecânica”.

Dona Augusta, ao relembrar de suas apresentações, quase deixou sair um sorriso frouxo, mas retrocedeu a tempo. Às vezes, quando havia bastante público e os ingressos tinham vazão, eram feitas até três apresentações por dia. Lembrou-se de como o seu estômago empanzinado doía após o espetáculo. Um enjoo perturbador vestia o seu ser. Não era raro expelir, atrás da lona do picadeiro, tudo o que havia ingerido e mais um pouco. Calada, por ser tímida e muito também pela obrigação subsidiada pela pantomima de “não saber falar o português”, seguia aquela rotina sem fim em seu casulo. Verdade seja dita, a pobre rechonchuda não era uma glutona – não comia muito, aliás, alimentava-se até pouco, mas era acometida por tireoidismo.

Uma vida nômade, indo daqui para ali, de lá para cá, nunca parando em lugar algum, nunca criando laços, sempre apressados, os artistas errantes seguiam semeando alegria e gargalhadas para as populações locais. “Mas e quanto a minha felicidade?”, indagava-se ela constantemente. Tal pergunta assombrava-a sempre. Quantas noites mal dormidas e desconfortáveis, com mosquitos ao redor da cabeça, passando calor, frio, sofrendo um eterno mal-estar. A sua timidez, mesmo após anos e anos fazendo a mesma coisa, sendo rompida, dilacerada à força, sob a sua passividade, a cada apresentação. A exposição de seu corpo deformado pelo excesso de gordura, os risos de escárnio do povo e até ofensas muitas vezes – “Vá fazer um regime, gorda!”, “Volte para sua terra, balofa!”, “Vai explodir de tanto comer, baleia!”... Tudo isso a troco de um ordenado medíocre, a troco de uma vida morna. E a tal pergunta inquietante voltava à sua cachola – “Mas e quanto a minha felicidade?”.

Em grande verdade, dona Augusta não diferia de tantas outras obesas nos dias de hoje. Naquela época, porém, nos idos de 1930, a senhora era considerada imensa, já que a maioria das pessoas possuía a silhueta fina. Era apenas uma questão de comparação. O número de obesos era reduzido. Raro era deparar-se com pessoas tão acima do peso. Por isso, ela destacava-se. Além do mais, sempre fora baixinha e de pescoço curto, o que dava a impressão de a gordura ser toda socada e expandida mais ainda, não tendo para onde se espalhar. Junte-se a isso, o fato de sempre vestirem-na com roupas claras e apertadas e com grandes listras horizontais, o que causavam uma ilusão de um corpanzil ainda maior.  E por anos, em que se pese apenas a questão de que havia encolhido um pouco com o passar do tempo, o que é normal, o seu peso permanecia o mesmo – com um metro e cinquenta e três, pesava cento e quatorze quilos.

Agora, avaliando toda a sua vida, dona Augusta comparava o destaque artístico, ainda que vexatório e humilhante, que possuía no passado com o ostracismo enraizado no presente, e insistia em cobrar o seu quinhão de felicidade. Em um tempo recheado de obesos, era só mais uma. O estranho era que mesmo assim, ainda sentia-se proscrita e solitária neste mundo adiposo. Lá de fora, o imponente carvalho-das-canárias olhava de volta para mulher mais gorda da face da Terra. Ela, agora, estava com um olhar perdido, parecia perdida. Não percebeu. Os galhos da grande árvore robusta balançavam ao sabor do vento, reverenciando, de alguma forma, aquela que, anos a fio, subia nos palcos da vida para levar um pouco de alegria aos espectadores vorazes. Ela não percebeu, jamais percebeu. A árvore continuou lá, prestando as suas eternas homenagens.