domingo, 4 de agosto de 2013

O amor de Dália (Carlos Eduardo F. M.)


Dália caminhava por entre as gôndolas do supermercado absorta em seus pensamentos. Como em transe, jogou uma caixa de bombons no carrinho. Ela odiava doces. Ela não estava realmente ali, não queria estar ali, encontrava-se em outro lugar, em um espaço atemporal, que tornava tudo suspenso, impreciso e moroso. Sua respiração era pesada. Seus movimentos, letárgicos.

Há uma semana, ela conhecera Paulo enquanto fazia o horário do almoço em um restaurante perto do trabalho.

– Posso me juntar a você? – Arguiu o então desconhecido.

Ela estava de cabeça baixa, já comendo. Ergueu os olhos, assustada. Não esperava ninguém. Olhou em volta, não havia mais lugares realmente.

– Sem problemas, fique à vontade – fez simplesmente.

Fora Paulo que puxara conversa. Ele era gentil, calmo e calculista. No começo, Dália estava indiferente, só queria comer e sair logo dali. Mesmo sentindo a resistência de sua interlocutora, Paulo avançava e recuava com uma oratória eficiente. Os assuntos iniciais foram pragmáticos e rasos. Dália não soube explicar, mas sentiu-se confortável com toda a fluidez do diálogo estabelecido.

Quando os pratos esvaziaram-se nenhum dos dois levantou. Logo a conversa tomou novos rumos.

– Eu gostaria muito de vê-la outra vez – soltou Paulo, encarando-a com olhos famintos.

– Eu não posso... – hesitou – Sou casada – asseverou por fim.

– Todos nós somos nesta época da vida. Eu mesmo, por exemplo, sou casado com algumas ideias imorais... Eu sempre tento me divorciar delas, mas elas não me deixam... ­ – disse, sorrindo, sem mover o olhar daquela linda mulher.

E não houve mais resistência. Com a guarda totalmente aberta, ela retribuiu o sorriso. Naquele instante, ela ainda nem desconfiava, mas havia lhe entregado a alma.

Dália era uma bela mulher. Na altura de seus quarenta e seis anos, ela desbancava muitas jovens. Seu sorriso e seu olhar, ilusoriamente, transmitiam ingenuidade de moça pura. Seu corpo de pele alva era delicado e exuberante. Seu cabelo negro era sedoso e esvoaçante. O efeito estético do todo era encantador. Não ao contrário, havia o mesmo efeito quando ela se expressava, apesar da taciturnidade (ela preferia, sabiamente, ouvir mais). Sua perspicácia era visivelmente arrebatadora e contagiante. Tudo nela funcionava como uma engrenagem metódica e perfeita, que agia com eficiência e graça, de modo que a sua simples presença causava tremor no mais forte dos seres.

Paulo, desde o primeiro momento, atinou para tais encantamentos e qualidades e, vendo uma oportunidade, sem nem ponderar se era mesmo possível, quis tê-la de qualquer forma. Quando saiu do restaurante naquele dia, ele não parava de pensar em sua frase final, que concluía todo aquele primeiro encontro:

– Vemo-nos em dois dias então, no local e hora que marcamos. Mal posso esperar...

Depois disso, tomaram lados opostos.

Já em casa, após retornar do supermercado, Dália olhava para o relógio. O tempo passava de maneira estranha e não do modo como conhecia. Com mais duas horas, encontraria aquele homem que havia mexido com a sua racionalidade, com o seu cerne, com a sua vida. Tentava guardar as mercadorias na dispensa, mas seu corpo tremulava. Ficou parada por um tempo no corredor que dava para a cozinha. Então se lembrou de que era pior ficar sem fazer nada, pois a ansiedade era inquietante e até por essa razão é que fora ao supermercado ocupar seu tempo.  Além do mais, logo o marido chegaria e ela teria que disfarçar toda aquela agitação angustiante.

À medida que fazia o trabalho maquinal de organizar as compras, ela lembrou-se do sonho que tivera com Paulo na noite anterior. Se fechasse os olhos poderia senti-lo ali mesmo, beijando-a naquele ambiente onírico e fantasioso. E assim o fez. No sonho, ela e Paulo encaravam-se com um desejo ardente e febril em algum lugar indefinido e irreal. Paulo não resistiu e puxou-a para si, e antes que pudesse ser dito qualquer coisa, entre narizes e lábios colados um no outro, ele adentrou em sua boca com sua língua de serpente e de vez enquanto mordiscava a parte de baixo do lábio úmido dela. Em meio aquele resvalar de línguas e respirações descompassadas, ela sentiu que ele a empurrava lentamente para trás até uma espécie de parede translúcida, como guiando seus passos. Encurralou-a e ia pressionando-a, aos poucos, em um movimento sincronizado, seu corpo contra o dela. Ela gemeu de prazer, sem pudor. Ele queria mais. Ela pedia por mais. A respiração ofegante dela descontrolava-o. Uma energia frenética brotava do ventre de Dália, seus olhos começaram a revirar e uma irracionalidade animal a fez esquecer-se de todas e quaisquer regras que tolhiam o seu ser...

Não tardou para que em poucos minutos, deveras, o marido retornasse do trabalho, conforme o previsto. Ela já havia terminado de organizar os produtos recém-comprados, agora finalizava o jantar.   

– Como vai, meu amor? – perguntou o esposo.

E antes que ela pudesse responder, ele emendou, atropelando a sua própria pergunta:

– Nossa, que dia cansativo! Muito quente, eu trabalhei muito. Vou tomar um banho frio, estou exausto... Diga-me, não é hoje que disse que irá ao shopping com suas amigas? – quis saber, já se dirigindo para o banheiro.

– Sim, daqui a pouco – respondeu simplesmente. A sua resposta deu de cara com a porta fechada do banheiro.

O coração dela disparou. O marido havia acreditado na história. Logo sairia e encontraria Paulo. O desconhecido, o prazer, a fantasia, tudo a aguardava e culminava para um final feliz e prazeroso. Ela soltou um sorriso desesperado e depois mordeu os lábios. Ela já havia planejado como seria este dia. Pensara em tudo. Preencheria a manhã e a parte da tarde com afazeres, para que pudesse controlar a mente e acalmar os ânimos. Esperaria o marido chegar ao lar, após o trabalho, deixaria que ele tomasse banho enquanto o jantar era esquentado e depois tomaria o seu banho e sairia, finalmente, rumo ao seu encontro. Carla e Bruna, suas amigas, seriam o álibi perfeito, mesmo que elas mesmas não soubessem de nenhuma história de encontro em shopping. Isso era um detalhe a ser consertado depois. O marido era desligado e muito ingênuo. O que importava, para que seu objetivo fosse alcançado, era o desenrolar de métodos práticos em sequência, exatamente o que já vinha acontecendo até ali.

Quando o marido saiu do banho, ela correu para tomar o seu lugar e informou-lhe:

– Seu jantar está sobre o fogão. Tomarei banho agora e sairei correndo, porque estou atrasada.

– Espere – e aproximou-se dela.

Ela congelou.

Ele emendou:

– Não lhe digo isto faz tempo, eu sei, mas saiba que você é a mulher da minha vida, sempre foi, eu te amo – havia veracidade e emoção em sua voz. Aplicou um beijo fraterno nela e deu meia volta.

Ele seguiu para a cozinha. Suas palavras ficaram.

Naquele mesmo dia à noite, após o banho, depois de fingir um telefonema ou dois, dissera ao marido que as amigas haviam desmarcado tudo e ela não teria mais o encontro.

“Era o amor, tudo culpa do amor”, pensou ela, de madrugada, deitada na cama, mirando o teto escuro, ao lado do marido que roncava.

8 comentários:

  1. Olá, Cadu!

    Nossa, muito bom o texto! Acredito que muitas mulheres conseguem se ver nele. Muitos, erroneamente, podem pensar que este conto é uma apologia a traições ou a qualquer coisa do gênero; não, não é! Mas, sim, uma crítica ao moralismo, à hipocrisia, à rotina, aos costumes... E por aí vai! Infelizmente a sociedade quer uma mulher sem desejos, castiça, púdica, obediente... E este texto maravilho trilha esse contra-senso. Senti falta da sua escrita. Não pare, não desista. Você continua bem afiado e sagaz. Beijos!

    Adriana A. B.

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  2. Considero bem difícil mensurar a linha tênue que separa o amor do comodismo.
    Permanecer numa relação por sentir-se pleno, por sentir-se realizado e convicto de que isto basta, como diria Renato Russo... "Estar-se preso por vontade", creio ser o ideal de todo relacionamento.
    Permanecer num relacionamento por estar adaptado, acomodado e desmotivado a se propor um recomeço, talvez seja uma realidade mais frequente do que se imagine.
    A sensação de proteção e segurança nos coloca numa zona de conforto que prezamos e tendemos manter.
    Aproveitando uma outra citação...."Como as pedras imóveis na praia eu fico ao teu lado...Sem saber dos amores que a vida me trouxe e eu não pude viver..." Até que ponto vale a pena manter-se na zona de conforto? A vida, algum dia, cobrará o fato de ignorarmos tal reflexão?
    Sei que são questionamentos de difícil conclusão e, por verdade, a maioria de nós não pretende sequer cogitar.
    Seja pelo motivo que for, o importante é estar num relacionamento por vontade. Não importa se por comodismo, por convenções religiosas ou sociais ou por sentimento...Cada um tem o direito de escolher o que quer para si.
    Cabe a cada um avaliar suas escolhas. Novamente outra citação para encerrar o comentário: "Somos Prisioneiros de nossas próprias vontades".

    Paula Freitas

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  3. Muito legal o conto, Cadu! Me fez pensar... Talvez a vida seja muito mais que convenções sociais... Talvez a vida seja sobre ser feliz a qualquer preço, ainda que essa felicidade seja efêmera... Melhor ter momentos sublimes que uma vida toda de expectativas e arrependimentos! Viva, Cadu voltou!

    Ricardo S.

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  4. Amei seu texto, Edu! Apesar de curto, ele é profundo e toca as nossas almas... Ele nos entretém o tempo todo, como você, que sabe de tudo um pouco e nos traz tranqüilidade quando estamos down. Por quer ficou tanto tempo sem escrever? Acabou a inspiração? Rs

    Ana Júlia.

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  5. Arte fina, hein, Cadu! Fica a escolha: a rotina de um casamento desgastado ou o risco refrescante de uma nova relação? Nada é fácil... É a vida...

    Rony.

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  6. Nossa, mais uma produção excelente! Você brinca conosco o tempo todo! Texto encharcado de ironia. Você consegue transformar a palavra amor em um poço de angústias e retidão! Maravilhoso, lindo! Você escreve muito bem, parabéns!

    Jhennifer S. S.

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  7. Eduardo, welcome back!

    Que amor e’ esse? Muito anbiguo para decifrar! Ahahaha...

    O texto relata os dois tipos comportamentais humano: o lado etico e o imoral.
    Paulo disse que “e’ casado com algumas ideias imorais, e que sempre tenta divorciar delas mas elas nao o deixam.” Ele e’ escravo de suas ideias e sempre sera’ um conquistador barato.

    Ja’ Dalia e’ racional e etica, ela e’prisioneira convicta de que uma aventura sem alicerce e’ ilusao, e prefere deixar as ilusoes para as noites de sonhos , enquando estiver no mundo inconsciente.

    Cada doido com as suas manias e conviccoes… E viva as diferencas!

    Best Regards!

    ES

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