Dona Isaura reinava feliz em sua cozinha silente, na aurora
daquela manhã de primavera. Logo os primeiros raios do sol penetrariam pela
janela. Ela tinha o venturoso costume de acordar sorridente e satisfeita.
Entendia que cada novo despertar era uma dádiva divina e que, portanto, nada
mais justo que uma demonstração de gratidão.
A chaleira já estava sobre as chamas do fogão, aquecendo a
água aos poucos. Dona Isaura bocejava enquanto contava as colheres do pó de
café no coador. Depois, abriu o armário, puxou uma toalha e forrou a mesa
redonda de cedro. Escorreu a mão sobre todo o tecido para que ficasse bem
esticado. Puxou um vasinho cor de esmeralda, com flores rosa dentro, do mármore
ao lado do fogão, colou debaixo da torneira, deixou cair um fio d’água e
centralizou-o sobre a mesa. Da prateleira, pegou uma xícara e pires de
porcelanas, ajustado-os também na mesa. Também retirou dois lenços da gaveta debaixo
do armário e jogou-os, com técnica, de modo arquitetônico, um de cada lado do
vaso. Virou-se de costas e coou o café no bule. Uma fumaça trêmula ergue-se no
ar e um aroma inebriante rompeu-se, espalhando-se por todo o ambiente. Postou o
bule logo atrás da xícara. As suas papilas gustativas ansiavam por tudo que
ainda estava por vir. Correu do outro lado da cozinha, abriu a geladeira e
pegou um prato de frutas com uma das mãos e, com a outra, recolheu o recipiente
do queijo de cabra. Levou tudo para a mesa, acertando as suas posições. Olhou
para o relógio de parede – vinte para as seis; o pão quentinho estava por sair.
A padaria ficava a uma quadra de casa. Apressou-se para ir buscar.
Em poucos minutos, já estava de volta. Preencheu a cesta de
vime, que estava sobre o pequeno armário, com os pães de sal fumegantes,
recolheu um deles, colocou sobre o prato e pôs sobre a mesa, ao lado da xícara.
Puxou uma faca, fez um corte na borda do pão, aplicou-lhe uma quantia generosa
de manteiga caseira, que também se encontrava sobre o armarinho, e assentou
novamente o pão sobre o prato. Serviu o café na xícara.
Depois, Dona Isaura ficou a contemplar, em pé, ainda que por
alguns segundos, a sua obra de arte. Tudo estava do jeito que mais a agradava.
A toalha amarela desbotada, limpa, sem dobras e sem máculas. O colorido
harmonioso das frutas: a maçã verde, a pera, os morangos e meio mamão. Os
lenços rosa caídos, semelhantes a algodões-doces, em torno do vaso cujas flores,
também rosadas, pendiam com charme. O queijo liso e compacto, como um iceberg.
A xícara e pires muito alvos e brilhantes, contrastando com o liquido fumeante,
marrom enegrecido. O pão francês quentinho, meio torrado, meio pálido, na
medida, dilacerado, minando manteiga derretida pelo corte. A refeição
convidativa implorava para ser devorada. Um ronco cavernoso das profundezas de
seu estômago fez Dona Isaura perceber que estava faminta.
A porta da cozinha abriu-se exatamente às seis. Dona Isaura
assustou-se e saiu de seu transe hipnótico, dando dois passos para trás.
Valquíria Albuquerque de Bragança adentrou-se, imponente, com ares de
arrogância. O seu mau humor matutino era costumeiro. A pomposa dama sentou-se
na cadeira exatamente em frente à ceia. Deu um belo gole no café e uma mordida
no pão crocante.
A velha Isaura de guerra continuou em pé, imóvel, com os
braços para trás, aguardando, pacientemente, a patroa terminar seu desjejum
para que só então fizesse o seu.
“Concedei-nos, Senhor, o esquecimento do eu, para que
a importância do todo nos una no trabalho fraterno” – Irmão Miguel, 02-08-1980.

Excelente twist ending! Eu imaginava, até antes de me deparar com o final, é claro, que a dona Isaura era a “dona” da situação, a dona de casa que preparava o desjejum para o seu deleite, em sua casa confortável; mas, não, senhor! O café da manhã era para a patroa. Aliás, o título “Do jeito que mais a agrada”, na verdade, é propositalmente ambíguo, mas só se enxerga isso ao final, porque, do primeiro até ao antepenúltimo parágrafos, o leitor é levado a realmente acreditar que era do jeito que mais agradava a dona Isaura, até porque também ela era a única personagem apresentada. Ao final, podemos abstrair que era do jeito que mais agradava a patroa e não necessariamente a empregada também. Mas muito além desse recurso argumentativo do enredo, Carlos Eduardo brinda-nos com uma narrativa poderosa sobre unidade, humildade, sensibilidade, fraternidade, amorosidade (como aponta também o epílogo), que tanto faltam aos seres humanos. Maravilha!
ResponderExcluirAndré A. M.
O texto descreve a dedicacao ao proximo independente da recompensa que essa dedicacao poderia trazer.
ResponderExcluirAs pessoas doadoras cedem a outrem com contentamento, oferecendo o que elas sabem fazer de melhor, apesar de correr o risco de nem sempre agradar a todos.
Na maioria das vezes elas cedem mais do que os outros, e nem por isto deixam de brilhar.
Talvez seja esta a verdadeira recompensa dos doadores: o prazer de doar e fazer o bem ao outro sem nada esperar em troca.
O ato de saber esperar para “contemplar” o que ha’ de melhor e’ um dom maior dos que sabem ceder.
ES
Dar sempre o melhor de si nem sempre é garantia de se obter o reconhecimento. Fazer, seja o que for, sem criar expectativas, sem almejar "aplausos", é trabalhar pelo próprio crescimento espiritual.
ResponderExcluirSer reconhecido e valorizado é trabalho dos outros. O "outro" tem o direito de escolher o que pensar sobre nós.
Devemos trabalhar por nossa satisfação, segundo nossos conceitos. O mérito do reconhecimento foge daquilo que pensamos controlar.
Venha o que vier estejamos aptos e receptivos. A humildade é uma preciosa virtude.
Paula Freitas