sábado, 15 de dezembro de 2012

Todos os pecados do mundo (Carlos Eduardo F. M.)





Gideão, sem saber o porquê, acordou naquele dia de verão com uma frase na cabeça, que tomara conhecimento anos atrás, após assistir, em 1974, para ser mais preciso, ao renomado filme de Roman Polanski, “Chinatown”. A sentença fora dita pelo personagem Noah Cross a outro personagem, o detetive particular Jake Gittes: “I don't blame myself. You see, Mr. Gittes, most people never have to face the fact that, at the right time and the right place, they're capable of ANYTHING” – em tradução livre – “Eu não me culpo. Veja, Sr. Gittes, a maioria das pessoas não consegue encarar o fato de que, no momento certo e lugar certo, elas são capazes de QUALQUER COISA”...
Paulo dirigiu-se para a Rua Rosa dos Ventos em grande velocidade. Para que sua corrida fosse ainda mais eficiente, ele deixara os chinelos para trás na Rua José Bonifácio. Suas solas dos pés, ainda que ásperas, sentiam o asfalto em brasa assar-lhes; seu coração batia em ritmo frenético, quase descontrolado; já lhe faltava ar nos pulmões; seu corpo suado cintilava devido ao sol escaldante daquela manhã. Esse pobre vigia de carros não aguentava mais correr e daria tudo para parar, mas não podia, pois cerca de dez pessoas estavam em seu encalço, também em alta velocidade. Seu pecado havia ficado a uns oitocentos metros atrás – uma bolsa que havia recém-furtado de uma senhora. Ele ponderou que sem o objeto abstraído, o bando, sedento por “justiça”, deixar-no-ia empreender fuga, mas não foi isso que ocorreu...
O arrependimento assentou-se sobre Paulo à medida que seguia fugindo, mas àquela altura, já era tarde demais. Aliás, em sua vida, “para tudo já era tarde demais”, dizia para si mesmo. Vigiar carros, cheirar cola, beber cachaça, roubar quando fosse oportuno e viver na rua era tudo o que fazia. “Desapegue-se desta sua vida vazia”, disse um pastor que fazia trabalho campal certa feita. “Eu não consigo”, fez resposta na época. E jamais conseguiu.
Agora lá estava Paulo fugindo do bando de “juízes” furiosos e nada racionais que o condenariam. Sua aceleração foi diminuindo cada vez mais. Seus músculos não davam mais retorno. Faltava-lhe oxigênio. Para piorar não havia comido até aquele momento. Sua energia estava reduzida. “Não aguento mais!”, pensou; contudo, apenas por uma questão de sobrevivência, continuou a sua maratona maquinalmente. Quando atingiu a Avenida Joaquim Gomes Lira e dobrou à direita, desacelerou de vez e finalmente foi alcançado e jogado ao chão como novilho.
Os dez ofegantes cercaram-no e não perderam tempo em trazer a “justiça” até o infeliz. Paulo sentia as costas queimando no chão que fervia. Em vão, tentava se proteger dos socos e chutes que eram desvencilhados sem dó. Com extrema dificuldade, puxava o ar para alimentar os pulmões – ainda estava exausto devido à corrida. Ele tentou dizer algo, mas não conseguiu. Um golpe potente de cima para baixo acertou-lhe um dos olhos, que foi inchando e logo estava inoperante. Ainda no mesmo instante, uma botada certeira partiu-lhe uma das costelas. A respiração, que estava complicada, piorou de vez. 
Ironicamente, lá no fundo, para ser completamente sincero, nenhum dos dez “justiceiros” puniam o rapaz pelo roubo da bolsa; não, a verdade era que não ligavam quase nada para isso, o que tornava a situação um pouco mais complexa.
Ricardo aplicava chutes no desgraçado por ter sido despedido minutos atrás; Romeu também tinha o seu motivo, golpeava-lhe com o punho esquerdo, mirando essencialmente a cabeça daquele pária social, com toda indignação deste mundo, pois tivera uma briga feia com a esposa; Anselmo, de cócoras, dentro da roda, e não menos furioso, usava a mão direita de martelo e acertava o estômago do ladrão incessantemente, pois não conseguia pagar as suas dívidas, os seus muitos débitos. Josué, completamente exaltado, como não conseguia entrar na roda, bradava todos os tipos de impropérios conhecidos e, vez ou outra, cuspia, por entre os espaços que se formavam, no pobre diabo, porque havia perdido a mãe recentemente e não aceitava... E cada um, por sua vez, foi liberando a sua raiva contida, extravasando o ódio reprimido, soltando seus problemas sobre o condenado. O bode expiatório foi pagando o preço aos poucos. Desemprego, violência, sistema de saúde precário, poluição, educação ineficiente, corrupção, impostos excessivos, desejos reprimidos, insatisfações, desilusões amorosas e outras tantas razões, tudo era motivo para surrar-lhe. Os problemas sociais e pessoais de cada um, assim como todos os pecados do mundo pareciam ter um único culpado naquele momento – Paulo.
Logo, já não eram mais dez, mas vinte justiceiros. Gideão, que havia ido comprar pães, chegou perto do círculo de horrores. Informou-se sobre o que ocorria. Um dos agressores, aumentando um pouco a história, contou-lhe que o meliante dera uma surra em uma pobre senhora e levara a sua bolsa. Gideão, no alto de seus quarenta e cinco anos de sabedoria, indignado, não hesitou. Estava no momento e lugar certos. Tomou um pedaço de madeira nas mãos, que estava assentado no chão perto da padaria recém-reformada, deu um grito assustador, abriu caminho entre os linchadores e bateu com toda a força na cabeça de Paulo, que já então começava a fazer movimentos involuntários, soltando seus últimos suspiros. O bando, agora atônito, diluiu-se rapidamente.
Quando a polícia chegou, cerca de cinco minutos depois, só havia o corpo triturado de Paulo sobre uma grande poça de sangue. Gideão assistiu à cena enquanto saia da padaria com a sua sacola de pães quentes e fumegantes. Em sua cabeça só havia um pensamento – se o café que a esposa estava fazendo estaria pronto quando chegasse ao lar. Mal poderia esperar pelo desjejum.
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650 X 400 - Cameron Tiede, When it Snows in Hell, 2008, oil on canvas 40" × 20".

3 comentários:

  1. É preciso esclarecer o fato de que nunca agimos ou nos indignamos pelos outros....na verdade o fazemos por nós mesmos.

    O senso de justiça e de moral que nos são incutidos são meramente convenções impostas e que para termos aceitação social sentimo-nos obrigados a cumprir.

    O pedinte não nos incomoda...o que causa incômodo é o fato de sermos obrigados a vê-lo com fome enquanto temos o que comer.

    O moribundo não nos causa pena...o que pesa é o fato de nos depararmos com a doença que um dia poderá nos acometer.

    As injustiças, os crimes, as doenças...tudo isso nos atinge na medida em que nos reconhecemos passíveis de sofrê-los...

    Colocamo-nos a frente de tudo e de todos....agimos assumindo, por vezes inconscientemente, nossa natureza egoísta.

    Sempre foi e sempre será assim... tudo o que nos comove, nos mobiliza é sempre aquilo que nos desperta o interesse....é sempre aquilo que de algum modo pode vir a nos atingir...

    Não possuímos a sincera capacidade de sequer tentar mensurar a dor do outro, as suas fragilidades, os seus incômodos...somos limitados demais para isto.

    Paula Freitas

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  2. Para muitos, e’ mais pratico colocar os problemas nas costas dos outros, ao inves de resolve-los.
    Condenar os erros dos outros e’ facil , pois ameniza e camufla a falta de satisfacao e irritacao propria, diminuindo temporariamente as frustracoes, os desapontamentos e as desilusoes vivenciadas.
    Descontar e culpar os outros pelos “descontentamentos” e’ pura vaidade, ilusao, pois muda o foco de reflexao, prolonga o sofrimento, e previne a solucao do problema.

    ES

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  3. O texto e esses dois comentários são maravilhosos, cada qual em sua linha de pensamento. O ser humano é isso aí e mais... Mas nunca irei perder as esperanças, disso eu tenho certeza!

    Maria Augusta L. Macedo.

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