segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Um passeio ao Shopping Vitória (Carlos Eduardo F. M.)



Eu não sei bem por que, com exatidão, eu tenho certa fascinação por shoppings. Eu não deveria, sabendo de algumas de suas armadilhas, mas tenho que ser honesto comigo mesmo. Talvez uma das razões seja porque esse monte de concreto imponente e atraente, cheio de luzes e cores cause ilusões.

Um desses engodos é o fato de os shoppings, geralmente, possuírem pisos com aspecto lustroso-ensebado, de modo que passam a mensagem subliminar de escorregadios, com o intuito de que as pessoas, temerosas em levar uma queda, ainda que inconscientemente, realmente andem devagar para olhar as vitrines e fiquem mais atentas às mercadorias ofertadas por trás dos vidros. Outra provável razão seja a ilusão cativante pra mim de que normalmente se pensa que esses grandes centros comerciais são lugares que “arejam a cabeça”, que limam o estresse, o que, na verdade, pode ser exatamente o contrário, o shopping torna-o, de maneira proposital, mentalmente confuso e exaurido, de modo a deixá-lo parecido com uma isca impotente pronto para ser fisgado! É fatídico estarmos sempre sendo desviados das coisas que realmente importam...

Mas, ironicamente, foi exatamente nesse grande centro de futilidades e enganos que tive uma das lições mais importantes da minha vida.

Cinco anos após a inauguração de um dos shoppings mais importantes de Vitória, o Shopping Vitória, em 1998, estava eu lá, fazendo um tour pelo mall. Sempre odiei andar sozinho, muito porque nutro um pensamento insano de que as pessoas ficam à espreita, encarando-me e apontando-me seus dedos acusadores por eu estar saindo solitariamente (mesmo que fosse descompromissado) para procurar alguém ou para fazer qualquer coisa errada que seja. Na verdade, apenas uma de minhas muitas idiossincrasias. Mas, naquele dia, daquele ano, meu pai havia me emprestado seu velho Apollo para eu “dar um rolé” e, então, eu abri uma exceção e dirigi-me pra capital sozinho.

Àquela época, eu havia recém-completado 18 anos, não possuía emprego, era apenas um jovem estudante do primeiro período de Letras empolgado com carro, mulher, liberdade e independência. Não é preciso admitir que além do veículo, meu pai teve que me prover com as notas que movem o mundo. Aqueles conglomerados de lojas costumam cobrar caro para recebê-lo, de uma forma ou de outra...

Após certo tempo de caminhada circular no térreo e primeiro andar, e olhadelas para as vitrines, a fome veio e então procurei aplacá-la na “praça de alimentação”. A carteira com o emblema do São Paulo Futebol Clube (que me foi roubada anos depois na Praia do Suá) foi aberta pela primeira vez. Depois de empanturrar-me com junk food, fui assolado por uma vontade incontrolável de comer açúcar (aqui jaz mais um truque), então fui para a fila do sundae. Carteira aberta novamente. Com a barriga estufada, saí arrastando o corpo pesado para dar mais algumas voltas, afinal ainda era cedo. Engraçado como os shoppings têm o poder de esgotar as nossas energias, de minar as nossas mentes. Muitas pessoas aglomeradas, fila para isso, para aquilo, sons de todos os tipos, luzes, toda sorte de cores chamativas e estrategicamente combinadas, cartazes com descontos etc., tudo isso contribui, deveras. Em um desses momentos de esgotamento mental, eu me encantei com algo que achava que precisava e que já nem me lembro mais, pois estava “com desconto” (outro truque cruel!). Carteira aberta pela terceira vez.

Àquela altura, eu decidira que já tinha tido o bastante daquele lugar perturbador e fui pagar a conta do estacionamento. Entrei na fila e fiquei esperando. Só queria chegar a minha casa. Enfim era a minha vez, abri a carteira pela última vez. Qual foi a surpresa quando me deparei com a mesma quase vazia. Havia apenas uma nota de um real, hoje extinta. O dinheiro havia se esvaído. Eu comecei a pensar que eu perdera dinheiro ou que fora roubado ou que alguém me dera o troco errado em dado momento, contudo, o certo era que nada disso importava, o que realmente possuía relevância era que o funcionário do guichê esperava o dinheiro do estacionamento, as pessoas atrás de mim aguardavam também. E não seria só com um real que eu sairia de lá com o carro do meu pai. Eu olhava atônito para o funcionário, que por sua vez não tinha nada a ver com o dinheiro que eu consumira e encarava-me de volta com indiferença. “E agora, José?”, eu pensei.

Uma batida de mão em meu ombro tirou-me do transe daquela situação constrangedora. Eu olhei para trás assustado. Um senhor olhava-me com piedade. Ele soltou um sorriso ameno e disse:

- Não se preocupe, eu pago pra você.

Um alívio percorreu o meu corpo, mas, mais por orgulho do que por educação, eu respondi que não precisava, mesmo sabendo que não haveria outra solução. E dessa vez ele asseverou:

- Eu faço questão!

E, dizendo isso, ele pulou na minha frente e pagou pelos nossos estacionamentos. Deu um sorriso, entregou-me o comprovante e despediu-se com um olhar terno e amoroso:

- Fique tranquilo, isso é normal! Vá com Deus!

Aquilo era tudo, menos “normal” para mim. Eu agradeci, acho que agradeci ou pelo menos deveria ter agradecido muito, muito mesmo. Uma vergonha sem tamanho tomou o meu ser e eu fui para o carro quase correndo. Eu fiquei pensando tanto na situação, que quando eu dei por mim, eu já estava a uns três quilômetros de casa. Algumas indagações insistiam em rodopiar em minha mente: “Como eu havia conseguido gastar todo o dinheiro sem perceber? Que espécie de idiota eu era?”; “Por que aquele senhor fizera isso por mim sem nem ao menos me conhecer?”; “O que ele ganhou com isso?”. Logo, a adrenalina baixou e eu fiquei feliz e grato por aquele gesto. Depois de ter contado o fato para algumas pessoas nos dias que se seguiram, eu dei o assunto por encerrado.

A vida continuou e passaram-se alguns anos. Eu havia ido a um “Pague Fácil” desses da vida para acertar algumas contas. Já estava formado, casado, até com filho, e havia atingido estabilidade financeira em um emprego público. A fila seguia vagarosamente. Um moço de indumentária singela e chinelos de dedo estava logo a minha frente e havia chegado a sua vez. Ele entregou a conta para a moça do caixa. Ela somou e disse a quantia. O rapaz mexeu nos dois bolsos da calça, deparou-se com muitos papéis amassados, poucas notas e algumas moedas e descobriu que possuía um montante um pouco menor do que lhe era devidamente cobrado. Ele ficou sem graça e disse que depois voltaria para pagar, alegando ter se enganado com o valor total da fatura. Eu não hesitei nem por um segundo, toquei em seu ombro, tomei a sua frente e acertei o que faltava para fechar o valor final da conta. “Eu faço questão”, disse-lhe. Aquele desconhecido, ainda que assustado e surpreso, agradeceu-me sem parar. Seguimos nossos caminhos.

Naquele momento, na volta para casa, uma grande emoção tomou a minha alma, um contentamento repleto assentou-se em mim e eu, finalmente, entendi que, anos atrás, o senhor do Shopping Vitória não havia feito um bem apenas para mim, eu não era o centro do universo, como havia imaginado egoisticamente; a verdade era que ele havia sido solidário, sobretudo, com o mundo inteiro...
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700 × 439 - Chris Hagerty, Atlantic Center Mall & Baghdad,2008, oil on canvas 48" x 30".

5 comentários:

  1. Fazer pelo outro aquilo que gostaríamos que fizessem por nós... Quem dera o mundo fosse repleto de pessoas com este ideal.
    Reconhecer as bênçãos que recebemos e sentir obrigação de retribuir fazendo o bem de algum modo é uma forma de mostrar-se grato e, ao mesmo tempo, oferecer ao outro as oportunidades que nos foram dadas.
    Não quero com tal colocação parecer mercenária. Não quero deixar subentendido que "é dando que se recebe". Afinal, fazer o bem com a mínima esperança de recompensa ou reconhecimento não tem valor algum.
    Trata-se simplesmente de sentir o desejo de por em prática a solidariedade. E sentir-se pleno e satisfeito por isso. Sem expectativas, sem esperar qualquer tipo de mérito.
    Que bela teoria!
    Somos vaidosos e egoístas demais para isto. Buscamos a todo custo o reconhecimento e as glórias de nossas "caridades".
    A própria religião nos instrui desta forma...seja agora ou na eternidade. Somos sempre impelidos a agir buscando a gratificação.
    Somos humamos e com tais estamos aqui para nos lapidarmos, para crescermos espiritualmente e, nesse longo caminho, a solidariedade é um exercício fundamental.

    Paula Freitas

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  2. Mais um belo texto, meu amigo. Um daqueles que acrescenta, que nos torna pensativos. Novamente você me sai com um título inteligente, dando ideia de futilidade, propositalmente, para ao final realmente estabelecer a ironia. "Um passeio ao shopping", mas sabemos, afinal, que foi muito mais que isso, muito mais que o mero objetivo de um shopping realmente existir, que seria atrair consumidores para que estes comprem os produtos ofertados ou, se preferir, a obtenção do lucro pelo lucro. Apenas isso. E foi nesse "centro de futilidades", conforme as suas palavras, que nos apresentou uma lição útil; belo contraste, belo paradoxo... E eis, pelo que sei, que foi real... O que mostra que ainda posso acreditar no ser humano, não?

    Ricardo Teixeira

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  3. O passeio no shopping serviu-lhe nao somente para gastos surperfluos, mas tambem um lugar de proporcionar-lhe oportunidades para tornar-se um cidadadao melhor.
    Tambem sabemos que o shopping e’ um lugar apropriado para encontrar os amigos e de diversao.
    Nunca duvidemos que e’ mais compensador dar do que receber e que o retorno e’ incondicional e incomensuravel.

    ES

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  4. Se continuamos nos enganando com as ilusões do consumismo e dando mais valor ao lado exterior que o interior, por que, ainda, hora ou outra, aparecem anjos que nos tocam e nos ajudam? Talvez a resposta seja - porque o amor divino é incondicional.

    Alana Baptista C.

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  5. ei professor linduu!!!
    lembrado de mim?
    quanto tempo..... A cada dia q passa vc está evoluindo mais e mais!!!
    Parabéns!


    Maria cecília Campagnani (sua ex-aluna da 7ªC)

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