Em 1990, Tim Burton, diretor de
tantos filmes excelentes (A Noiva-Cadáver, O Estranho Mundo de Jack, Peixe
Grande e Suas Histórias Maravilhosas, Os Fantasmas Se Divertem, Ed Wood, Sweeney
Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, A Fantástica Fábrica de Chocolates, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, entre outros), fez, sob minha visão,
a sua obra-prima – "Edward Mãos de Tesoura". Naquela época, eu já havia ficado
abismado com a película, mas era ainda muito imaturo e ingênuo para alcançar a
sua grandeza.
O longa narra a fábula de Edward,
um ser solitário que, ao invés de mãos, possui grandes tesouras no local. Criado por um inventor que morreu pouco antes
de adaptar-lhe as mãos, ele vive sozinho em um castelo no topo de um monte. Um
dia, ele é encontrado, acidentalmente, por uma vendedora da Avon, que o ajuda a
adaptar-se à vida na cidadezinha que fica aos pés do monte.
No filme, encontram-se todas as
características peculiares do diretor Tim Burton – a riqueza de elementos góticos;
o contraste do preto e branco de um lado; do outro, o colorido onírico; a
obscuridade dos ambientes e seres; à exaltação do diferente, do pária social,
do excêntrico, contrastando com a censura do igual, do adaptado, do normal; o
tom fantasioso da narrativa; a valorização do surreal em oposição ao real; originalidade,
identidade própria versus repetição de comportamento e por aí vai.
É fantástico notar que a cada vez
que se vê esse tour de force,
percebe-se algo novo, algo revelador, subjetivo, às vezes, até mesmo abstrato,
como em um belo quadro. Esses dias, assistindo ao filme novamente, eu prestei
atenção a uma de suas muitas cenas panorâmicas e interessantes – os maridos saíram
para trabalhar exatamente no mesmo instante, com seus carros parecidos, um
atrás do outro, enfileirados. Como listei no parágrafo acima, uma das
características mais marcantes de Burton é a crítica ao comportamento de gado
que insistimos em ter. Ele indiretamente está sempre nos questionando – por que
temos que fazer tudo igual? Por que temos que ser iguais?
Muitas vezes o Eu é
negligenciado, o objetivo é valorizado em detrimento do subjetivo. A identidade
própria é dilacerada para que haja adaptação à “normalidade”. Mas que
normalidade é essa que nos torna clones um do outro? As pessoas vão deixando de
ser elas mesmas para que sejam aceitas pela sociedade e, o pior, ainda assim,
não deixam de ser menos infelizes. Só é permitido que eu goste do que os outros
gostam; o meu querer, a minha escolha não pode ser reconhecida, pois é ruim, é
feia, não está de acordo com os padrões sociais vigentes. Mas não se pode
perder as esperanças, tudo pode mudar caso a maioria queira, caso vire moda. Lamento
muito que na esperança de o sujeito ficar cada vez mais parecido com outros, fique cada
vez menos parecido consigo mesmo.
O diferente, o original, como
Edward Mãos de Tesoura, deveria ser celebrado. No entanto, ele, pressionado
pela sociedade à sua volta, e sentindo-se infeliz pelas diferenças e, até por isso, querendo
ser igual, é massacrado, discriminado, humilhado. Sua palidez cadavérica, suas
mãos de tesouras, sua indumentária negra, suas cicatrizes, seus cabelos desgrenhados, seu
comportamento tímido, sua quietude e paciência, a sua excentricidade, no
começo, são até “aceitos” pelos outros, mediante aos favores ofertados por ele,
mas, ao final, quando sua utilidade cessa, todas essas suas características
oriundas acabam por ser rejeitadas; afinal, conforme se tinha ciência, já eram
fadadas, desde que fora concebido, ao repúdio, de uma forma ou de outra.
Para finalizar, gostaria de citar apenas a última estrofe do célebre poema de Robert Frost, já traduzido por mim, livremente, neste blog - “The road not taken” (A estrada não
escolhida):
“Devo contar isto com
um suspiro.
Em algum lugar,
tempos e tempos atrás:
Duas estradas
bifurcavam-se num bosque, e eu –
Eu escolhi a menos
viajada,
E isso fez toda a
diferença.”
Obs.: E devo afirmar que continuo,
com orgulho, seguindo na estrada menos viajada... E isso fez toda a diferença!

Ser aceito e garantir a aprovação dos outros é um exercício de alto custo. Custa a liberdade, a expressividade, a consumação do desejo.
ResponderExcluirFingir o que não se sente, desacreditar na própria crença, estar ao invés de ser..... Realmente é oneroso, talvez um preço incompatível com a vazia sensação de obter a todo custo a aprovação alheia.
Mas, sejamos sinceros...pagamos esse preço diariamente e por vezes nem nos damos conta desta fatura. Estamos adaptados a uma sociedade que cobra, exige e normatiza...o tempo todo.
Optar pela liberdade, pela autenticidade e pela satisfação pessoal pode traduzir-se na intimidação, no preconceito, na marginalização....também um preço alto a se pagar.
Enfim...a vida é feita de escolhas. Saber escolher e sobretudo permitir-se escolher é o grande diferencial. Resta saber o quanto estamos dispostos a pagar.
Ode ao investimento!!!!!
Paula Freitas.
O importante nao e’ ser diferente, e nem o caminho a tomar, mas e’ fazer a diferenca no caminho tomado, e usar a diferenca como potencial de transformacao.
ResponderExcluirTodos somos diferentes, ninguem e’ igual a ninguem; mesmo querendo copiar os outros, isto seria insustentavel por muito tempo.
Mas podemos usar o nosso diferencial para fazer a diferenca em nossas vidas e na vida dos outros.
O “Edward scissors hands” e’ um artista, como muitos outros sao: que fazem a diferenca, por transformar o que supostamente seria um problema em solucao e arte.
Ele transformava os jardins em paisagens harmoniosas que transportavam todos para um mundo imaginario, harmonioso, e menos pesado por tantas obrigacoes a cumprir.
Ele usava as suas tesouras como um potencial transformador na vida infeliz e intediante que tinha, assim como todos usamos um artificio de escape na hora do tedio.
A’s tesouras so’ foram ferramentas de tranformacoes imaginarias. Porque para fazer a diferenca tem que ter pensamento transformador.
Quando a inspiracao bate, o problema vira solucao e contentamento.
Foi assim com ele e com todos os sabios.
ES
Belo texto! Num mundo de clones, onde a maioria quer possuir as mesmas coisas, ter os mesmos corpos esculpidos, dizer as mesmas coisas e ter os mesmos pensamentos, ser diferente é, portanto, fazer a diferença! Adorei você ter usado o nome do protagonista do filme (Edward) e o seu (Eduardo) como se fosse um só. E, sim, vocês são diferentes e isso faz toda a diferença!
ResponderExcluirAna Carolina A.
As pessoas são diferentes, sim, e a infelicidade consiste exatamente nisso. A decepção vem quando se descobre que não se pode, verdadeiramente, ser o outro ou ter o que eu outro tem. O texto nos diz que o Eu Lírico é diferente, tem orgulho de ser diferente e faz questão de ser diferente, indo, obviamente, na contramão, pois a grande maioria quer ser igual! Parabéns pelo texto.
ResponderExcluirDJ.
Eu acho que a questão é bem o que o texto nos diz: muito mais que aceitar nossas diferenças, temos que ter orgulho dela, temos que celebrá-la! A sociedade cobra um preço muito grande para nos entregar o ticket da aceitação. Abaixo a igualdade e amém pelas diferenças!
ResponderExcluirRicardo Araújo.
uau... na (pró)cura do diferente, do não visto e sentido pela maioria, pelos desvios que são mais provocativos, e que nos afastam da mesmice do cotidiano repetitivo... Gostei da análise do filme e do posicionamento tal qual o protagonista do filme de Tim.
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