quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A tempestade passageira


O barquinho de papel singrava pela lagoa imunda lentamente. A brisa maviosa empurrava-lhe para longe da margem. A criança, macambúzia, de olhar tétrico, contemplava a sua criação. Em sua mente povoava apenas uma ideia – ele a bordo daquela pequena embarcação rumo a uma terra distante.

Alheio à natureza, o pequeno não havia reparado que o céu, de repente, fora preenchido com nuvens plúmbeas. Não tardou para que a brisa branda fosse metamorfoseada em uma ventania alucinante e impiedosa. Ato contínuo, o barquinho tombou de lado, foi arrastado e se empapou da água pútrida; logo, não passava de mais um pedaço retorcido de lixo flutuante. Mais um sonho naufragado.

Pingos grossos desciam um a um, explodindo no solo, como bólidos. O menino estendeu a mão e encarou o firmamento cor de chumbo e toda sua onipotência. Uma gota grossa e gelada atingiu-lhe a testa, não a palma de sua mão. Um clarão iluminou todo o ambiente e então veio um enorme estrondo que ecoou durante alguns segundos. O circuncisfláutico Cirilo da Silva, assustado com todo aquele espetáculo de luzes e som, pôs-se a correr como um louco.

A bátega celeste encharcou a terra e o menino. Quanto mais ele acelerava, mais ensopado ficava. Seus pés imundos afundavam nas poças que se formavam no chão de terra batida. Seu corpo enlameado cortava a cortina de água. Logo, em meio àquela corrida frenética, sobre a lama já formada no terreno levemente íngreme, as solas dos pés de Cirilo resvalaram à revelia, sem qualquer equilíbrio e tração, causando uma decolagem precipitada, um voo curto de barriga para cima e uma aterrissagem forçada de bunda. O corpo pueril deslizou por alguns metros. Àqueles de imaginação mais úbere, a cena de um menino sobre o seu trenó, escorregando pela neve assentada viria à cabeça. Um lindo espetáculo lúdico de inverno na primavera capixaba. O garoto ergueu-se com um pulo só. A vida havia lhe instruído a não permanecer prostrado diante das intempéries, ainda que fosse por curto espaço de tempo, com a penalidade de ser trucidado.

A sua moradia estava logo ali. Ele andava vagarosamente agora. Não havia por que se apressar mais, uma vez que se encontrava encharcado e sujo de lama. Com um pequeno salto, ele atravessou habilmente uma vala de esgoto fétida que cortava a fachada de seu casebre de madeira. Anos de prática. Um trovão arrebentou com forte estrondo em algum lugar por trás de si. Ele se virou de costas e avistou o morro vizinho sob seu véu esbranquiçado. Com um gesto indiferente, Cirilo empurrou a porta carcomida pelos cupins e deu dois passos para dentro do barraco.

O ambiente de um cômodo só fedia a podridão. Era mal iluminado. Os poucos feixes de luz que invadiam o local vinham de pequenos buracos de todos os lados. Fosse o lar amarelo desbotado, muitos lembrariam um enorme queijo suíço, mas não Cirilo. O moleque procurava não pensar em queijos ou quaisquer outros alimentos. Doía-lhe no fundo d’alma desejar coisas que não teria; ademais, o estômago queixoso agradecia-lhe por sua mente não ser tomada por tal pensamento. No chão, forrado com papelão, a matriarca jazia inerte. Três pedrinhas de crack estavam ao lado de seu corpo incrustado de sujeira. Um frasco contendo cola de sapateiro, uma lata de tíner e meia garrafa de pinga completavam o seu “kit de primeiros socorros”.

De súbito, o infante deitou uma lágrima, uma única gota salgada que lhe escorreu pela face empedernida. Consolou-se, imaginando que o céu também lacrimejava por ele lá fora. Saiu do ambiente de sombras e foi para a chuva novamente. Aquela tempestade oferecida pela natureza parecia-lhe mais justa e logo cessaria. Cirilo da Silva ficou imóvel sob a corrente de água que limpava a sua tez de ébano e abrandava seu coração de criança...

8 comentários:

  1. "Não havia por que se apressar mais, uma vez que se encontrava encharcado e sujo de lama." Às vezes é isso mesmo que sentimos, deixamos que os acontecimentos nos levem, já que já estamos 'sujos'. Mas as escolhas sempre são nossas e há sempre a chance de começar tudo de novo.
    E nada como a chuva para nos trazer alívio imediato, lavar a alma e o coração. Cirilo fez bem, pois se permitiu sentir, viver. Estar ou não sujo não foi escolha dele, mas como viver aquele momento foi. E ele viveu da melhor forma, sem se lamentar, sem se afastar do presente que a chuva pode ser.

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  2. A chuva que interdita, atrapalha, incomoda; pode ser também um magnífico espetáculo a ser contemplado. Para tanto, basta uma mudança do olhar. Basta permitir-se ver além do óbvio, além do que os olhos podem meramente absorver.
    Quando a vida está repleta de insatisfação, olhar o mundo e enxergar nele poesia torna-se uma tarefa quase impossível.
    Miremo-nos no exemplo desta criança que encontrou na chuva um lenitivo para a sua dor.
    "Olhar o mundo com olhos de criança"..... em meio a tantas coisas.... merecemos essa dádiva.

    Paula Freitas.

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  3. Belo texto! Todos nós passamos por tempestades passageiras, não é mesmo? Talvez a de Cirilo dure mais um pouco, mas há de passar... Muita Paciência é necessária nessa hora!

    Die Ana.

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  4. Um belíssimo cenário de um resquício de vida que se passa em qualquer morro com falta de urbanização no Brasil, mais precisamente em um morro capixaba, terra do escritor... A vida vai nos massacrando de forma lenta e dolorosa. Até quando podemos ser realmente julgados? Digo, até que ponto é a nossa culpa realmente? Devemos sempre nos colocar no lugar dos outros...

    Lhara C.

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  5. Injustiça social em foco. O menino está sendo modificado pelo meio em que vive o tempo todo. Pergunto-lhes: que chance terá no futuro? A mínima, se nadar contra a correnteza e mostrar muita força de vontade...

    Augusto Perini

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  6. Fala Cadu! Mais um belo texto. Você está criando, cada vez mais, um estilo próprio de escrever, rebuscado, lírico, repleto de metáforas e, além do mais, possui um perfeito controle da narrativa. As suas histórias são curtas, mas complexas e significativas. Parabéns!

    Rodrigo Moura.

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  7. O texto descreve a vida do “menor abandonado” que tenta sobreviver sem nenhuma protecao familiar, mas que procura meios de disfarcar a dureza da vida atraves da imaginacao infantil e da natureza.
    Ele procurou alternativas para amenizar o seu sofrimento atraves das proezas que a natureza capixaba oferece!
    Se ele estivesse escorregando na neve, como o autor sugeriu, seria um menino morto de frio, ja’ que a natureza congelada jamais permitiria que um menino desprotegido de vestimentas , de moradia e de alimentacao, sobrevivesse a ‘baixas temperaturas.
    Mas como a natureza capixaba e’bondosa, de clima quente , com muitas arvores e frutas , “essa crianca” tera’ sempre uma nova chance de sobrevivencia, de sair dessa vida desumana e de procurar novas alternativas de superar suas mazelas que sempre farao parte da sua estoria.
    “Life is not always fair, not everybody has homes and gets what they need, but some people can achieve the impossible, if they are courageous and really try hard!” (ES)

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  8. Belíssima criação literária. Edu, você vem aprimorando cada vez mais o seus textos. Continue escrevendo sempre, jamais interrompa este ofício magnífico, ainda que o desânimo venha. As pessoas certas sempre lerão...

    Ana Carolina D.

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