
A pantomima havia finalmente chegado ao fim. A cena final, inundada em dramaticidade, trouxera à tona a catarse na plateia ávida pela tragédia. Lágrimas pendiam nos rostos pálidos das donzelas. Alguns cavalheiros reprimiam as suas, não obstante, seus olhos estavam visivelmente marejados. A emoção havia sido aflorada nos corações do público. Uma onda de ovação em êxtase, ainda que contida, de acordo com a pompa vitoriana, varreu o teatro. Os atores, envaidecidos, inclinaram seus corpos levemente, do alto da ribalta, e ali permaneceram imóveis por alguns segundos, à guisa de estátuas helênicas.
Um senhor rechonchudo, de rosto plissado, com bochechas róseas pendentes e bigodes enormes que lhe saltavam à face, encarava, imóvel e com olhos esbugalhados, o proscênio. A sua indumentária de dândi, alguns brotos de cabelos brancos grassados ao redor da careca do topo de sua cabeça e os óculos quase sobre a ponta do nariz davam-lhe ares de burguês àqueles que se deixavam levar pela superfície. Era um erro evidente – a sujeira sob suas unhas, a pele besuntada a óleo, os dentes podres e as máculas com cor de terra batida de suas vestes denunciavam-no, não o particularizando em uma profissão taxativa, mas excluindo-o, definitivamente, como membro de uma casta superior. Não que John Bailey quisesse parecer o que não fosse também, não era nada disso! Mas a sociedade da Rainha Vitória, banhada em uma hipocrisia quase estilística, tinha o gosto do julgo nos lábios e, ato contínuo, o povo o fazia indeliberadamente, o que produzia julgamentos errôneos na grande maioria das vezes. John, em verdade, era um coveiro, que pisava pela primeira vez em um teatro, trajando a sua melhor vestimenta.
Poucos minutos atrás, quando o espetáculo ainda seguia, ele havia pensado que aquela encenação teatral fazia mais sentido que a própria realidade. A ficção pulsava incólume e robusta, à revelia de qualquer julgo, pois ela absorvia, inadvertidamente, as almas dos espectadores, ainda que por alguns instantes, e depois as devolvia mais leves e serenas. Fora assim com ele. Havia um desejo inquietante ao final da peça, da parte do distinto cavalheiro, o de abandonar a sua vida a fim de começar outra lá em cima do palco. Ao menos seria apreciado no ramo das artes e entretenimento e transmitiria o que acabara de experimentar de bom grado, este sentimento excêntrico e incontrolável que lhe atiçou o cerne; seu coração saltitava a galopes irregulares.
A vida é deveras irônica quando menos se espera. Mal contava Mister Bailey que o seu pedido seria realizado poucos minutos após ao término de seu desejo. Do outro lado do tablado, ali, bem na cadeira onde pousava John, the grave-digger, um mero espectador, houve outro show, uma pantomima mais real e ainda mais trágica, mas não tão cheia de significados ou mesmo tão tocante quanto à primeira apresentação, que fez o público gritar, dessa vez, incontidamente. Agora eram os atores, boquiabertos, ainda sob o palco, que contemplavam o espetáculo da vida logo à frente. Algumas donzelas choravam copiosamente, outras se puseram a correr para a saída e ainda houve as que foram acometidas por uma síncope. Os homens não faziam muito diferente disso, exceto aqueles que vieram para ajudar. Mas já era tarde – a emoção fora de tal magnitude, devido à tragédia encenada, que John Bailey fora mimoseado com um ataque cardíaco fulminante. Pobre John! Nem deu tempo de seus olhos verem as cortinas vermelhas serem fechadas.
No dia seguinte, as grandes cortinas seriam abertas novamente, e no outro, e no outro, e no outro... Afinal, o espetáculo haveria de continuar, com ou sem John Bailey.
A arte tem o poder mágico de nos envolver, de fazer aflorar os sentimentos. Claro que esta mágica só contempla aqueles que se permitem tal interação.
ResponderExcluirA sensibilidade e consequente apreciação de um signo não está ligada a fatores econômicos, sociais e intelectuais. Ela simplesmente existe e,por existir, modifica a interpretação de tudo que nos rodeia.
Apreciar ou atuar é tão somente uma questão de escolha. Aos sensíveis esta escolha pouco importa, afinal, ser agente ou paciente neste processo faz parte do show.
...E o show não pode parar...
Paula Freitas
A vida é um eterno palco e nós somos os atores. Se vamos ser protagonistas, antagonistas ou coadjuvantes, depende de nossas escolhas. O certo é que ninguém atua por nós. Um dia, a cortina será fechada pra cada um, mas o show da vida continuará. A pergunta que não quer calar é: você vai ser lembrado?
ResponderExcluirGeane Rocha.
Qualquer tipo de arte genuína é, por si só, maior do que realmente parece, possuíndo vida própria. A encenação teatral de nosso miniconto é um exemplo disso, o resto apenas fazia parte do espetáculo.
ResponderExcluirIgor Boamorte.
"There are people who live out of their realities and when they need to get back to their real lives they prefer to get heart attack and die.
ResponderExcluirThey only can live and expressed themselves as "characters" and not as real persons with good characters.
They choose to live somebody else lives - at la la land to scape from their daily's routines!..."
(ES)
John desejava participar também de uma encenação teatral, fazer parte do espetáculo..."ele havia pensado que aquela encenação teatral fazia mais sentido que a própria realidade." E não seria a própria vida já uma encenação teatral?
ResponderExcluirEstamos o tempo todo usando máscaras: de controle, de determinação, de força, de felicidade, de tristeza, mascarando as emoções e os sentimentos.
Saber o próximo ato, a fala decorada, a reação esperada da platéia diante deste gesto ou desta fala, capítulos e mais capítulos já escritos. Encenações...
Às vezes todo este teatro me cansa prá burro!
Luciana S. Andrade