– “Requiem aeternam dona eis...” – principiou o presbítero, tecendo a
sua retórica calculada, do alto de seu púlpito de carvalho.
– Papai, eu não entendi o
que o homem lá falou! – sentenciou a criança.
– Bem, eu não sou
especialista em ritos religiosos da liturgia católica, muito menos em latim,
filhinha, mas acho que o começo é algo como “dai-lhes o repouso eterno” –
respondeu o pai em tom baixo, preocupado em não incomodar os que prestavam
atenção à Missa de Réquiem matutina de certo domingo de janeiro.
– O que é repouso? – indagou
a menina.
– Descanso – atalhou o pai.
– Como dormir à noite? –
questionou de modo ingênuo a pequena, de uma maneira doce que só as crianças
sabem fazer.
– Temo que não, minha
filha... – hesitou. – Repouso, descanso, nesse caso, é um eufemismo para morte –
emendou de maneira atabalhoada, sem muito pensar a quem realmente se dirigia, à
maneira das respostas dadas pelos adultos aos pequenos a maioria das vezes.
– Eufemismo? – ela agarrou-se ao
vocábulo desconhecido.
– É quando tentamos falar de
outra forma, uma maneira mais educada de se dizer algo.
– Hum... Estamos aqui,
então, porque a nossa vizinha Bárbara morreu, né?
O pai olhou em todas as
direções, certificando-se que ninguém escutava a prosa e, envergando-se, quase
sendo tomado pelo encosto do banco da igreja, respondeu:
– Exatamente. Ela descansou
na semana passada, lembra?
– Sim, eu me lembro! – a
criança deu uma pausa e se pôs reflexiva. – Nós também vamos repousar?
O pai recuou, encarou-a com
ternura, tomou as mãozinhas dela e soltou algumas palavras, que saíram pausadamente devido ao conteúdo pesado para um infante:
– Filha, todos nós vamos um
dia... É uma das poucas certezas que temos. Mas não se preocupe com isso agora.
Ninguém sabe a sua hora verdadeiramente, apenas Deus. Ele, sim, sabe o que é
melhor para cada um de nós em Sua infinita sabedoria!
– Hum... – a introspectiva
criança fez como um suspiro e se calou.
– O que foi, meu amor?
– Eu não me preocupo com a
minha hora de repousar, mas com a sua...
As palavras da menina saíram
como flechas certeiras e atingiram o coração do pai. Uma forte emoção
percorreu-lhe o espírito, abalando-lhe a estrutura. Não se importando mais com as
pessoas ao seu redor, que lotavam a missa, ele a tomou nos braços e apertou aquele corpo infantil.
– Eu te amo, minha filha, e
isso nunca vai mudar – disse, simplesmente, com os olhos marejados.
Um anjo do Senhor que estava
agachado sobre uma das vigas de madeira, que se estendia logo abaixo do teto,
escutara a conversa de pai e filha, e não pôde deixar de se emocionar. Suas
asas douradas estavam encolhidas e, logo, foram abertas e ele ergueu-se de sobressalto
para levantar voo. Antes, porém, deu uma última olhadela para aqueles dois
personagens que lhe causaram tanta admiração, em meio a um conglomerado de fieis,
por suas frases espontâneas e singelas e, no entanto, profundas e
significativas. Eram palavras verdadeiras, vindas da alma, que ilustravam o
amor que toda a humanidade deveria possuir. E o anjo foi-se feliz com os dois
representantes dignos que encontra naquele templo cristão, rumando ao céu e um pouco
além...

As crianças tem esse dom, de nos surpreender com sua pureza, com sua ingenuidade. Esta semana que passou mesmo eu me peguei surpresa com o que minha afilhada perguntou para a sua mãe sobre mim. Pesou no meu coração a pergunta dela, apesar de saber que ela não a fez por mal, que na verdade é isso mesmo o que ela está sentindo. Talvez por isso tenha pesado tanto...
ResponderExcluirAcho que o que falta um pouco a nós adultos é a pureza e a inocência das crianças, de dizer o que sente sem temor, sem esperar nenhum julgamento. Simplesmente sentir. Sentimento completo. Chorar quando se tem vontade, sem temer os olhos e olhares curiosos. Seríamos mais felizes talvez, se nos entregássemos aos sentimentos sem pesar. Talvez o mundo pesasse menos nos nossos ombros.
Luciana S. Andrade
O texto descreve o velorio cristao, na igreja catolica: os anjos, a missa pelos mortos, o povo reunido, as palavras em latim, e o “eufemismo” usado para amenizar as palavras a respeito do outro lado da vida.
ResponderExcluirDescreve tambem a curiosidade e a preocupacao humana a respeito da morte, da trajetoria que todos passarao por ela.
A perda e a saudade dos que morrem , tambem fazem parte do texto.
ES
Não sou ateu nem tampouco religioso, que fique claro antes. Mas, nas igrejas, o que mais se costuma ver é o pensamento induzido, doutrinado e, portanto, quase nada espontâneo. Há, via de regra, repetições, decorebas e radicalização. As pessoas não pensam e não agem por elas mesmas... De qualquer forma, na igreja do texto, há duas pessoas, pai e filha, que demonstram amor incondicional, espontaneidade e humanidade. Uma excelente aula para qualquer fiel ou sacristão.
ResponderExcluirRonaldo B.
A finitude é um conceito capaz de abalar as convicções humanas. Isto porque quando pensamos em finitude inconscientemente a relacionamos com o nosso próprio fim.
ResponderExcluirLidar com perdas é sempre conflituoso porque quando isso nos acontece acabamos, também inconscientemente, remetendo-nos a tudo aquilo que já perdemos.
Imagine só transmitir toda essa complexidade para as crianças. Na verdade, é desnecessário. Cada coisa a seu tempo. Essa percepção deve fazer parte de um processo de crescimento físico, psíquico e espiritual.
É certo que completar esse processo é difícil, e também é certo que alguns nunca o completarão.
Eufemismo às vezes é caridade, proteção e necessário se usado no momento correto.
Repito... cada coisa a seu tempo.
Paula Freitas
O fim ... nada mais certo como o "repouso", um processo natural para qualquer ser vivo. Na realidade, embora irrevogável, vivemos como se ele nunca pudesse chegar. Melhor assim ... viver.
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