sexta-feira, 18 de maio de 2012

A mulher mais gorda da face da Terra (Carlos Eduardo F. M.)


Sentada, contemplando, da janela de seu casebre, o frondoso e robusto carvalho-das-canárias, com sua copa densa e entendida, e seu tronco imponente, dona Augusta, no auge de seus oitenta e cinco anos, via-se a si mesma. Aquela mulher macilenta, que se movia, na grande maioria das vezes, como um bicho-preguiça, estava em repouso, ociosa, chafurdada em uma crise existencial.

A senhora opulenta lembrou-se dos tempos remotos que trabalhava em um circo itinerante. Nascera e crescera ali. Os grilhões da conveniência e resignação retinham-na naquele lugar. Aquele era o seu mundo. Não conhecia e não entendia nada mais. Filha dos, então, finados “homem que cuspia fogo” e a “mulher barbada”, ela era uma das atrações do espetáculo – “a mulher mais gorda da face da Terra”. O interlocutor apresentava-a como uma aberração concebida em um país longínquo, um lugar esquecido, que não era nem encontrado no mapa. Dizia também que a gorda falava uma língua estranha que não fora catalogada e era ininteligível mesmo para os poliglotas e eruditos e que a pobre ainda não havia aprendido a falar o português, apesar de entender certas palavras.

“Esta mulher, senhoras e senhores, chega a fazer até dez refeições por dia! Para vocês terem uma ideia, seu café da manhã é composto por dez ovos, sete broas de milho, meio quilo de queijo e presunto, um pote grande de goiabada e quatro copos grandes de leite com café! Certa feita, meus amigos, eu mesmo testemunhei a fome descomunal desta criatura – ela comeu um boi inteiro!” – disse o apresentador, entretendo a plateia atônita. À medida que o narrador ia costurando sua teia de farsa burlesca para os presentes, a gorda ia se empanturrando de guloseimas postadas sob uma mesa à sua frente, a uma velocidade assustadora. Devido a essa agilidade de capturar os quitutes, levar até a boca, triturar e engolir, para depois repetir o ciclo de comilança, “a mulher mais gorda da face da Terra” também possuía o apodo de “pá mecânica”.

Dona Augusta, ao relembrar de suas apresentações, quase deixou sair um sorriso frouxo, mas retrocedeu a tempo. Às vezes, quando havia bastante público e os ingressos tinham vazão, eram feitas até três apresentações por dia. Lembrou-se de como o seu estômago empanzinado doía após o espetáculo. Um enjoo perturbador vestia o seu ser. Não era raro expelir, atrás da lona do picadeiro, tudo o que havia ingerido e mais um pouco. Calada, por ser tímida e muito também pela obrigação subsidiada pela pantomima de “não saber falar o português”, seguia aquela rotina sem fim em seu casulo. Verdade seja dita, a pobre rechonchuda não era uma glutona – não comia muito, aliás, alimentava-se até pouco, mas era acometida por tireoidismo.

Uma vida nômade, indo daqui para ali, de lá para cá, nunca parando em lugar algum, nunca criando laços, sempre apressados, os artistas errantes seguiam semeando alegria e gargalhadas para as populações locais. “Mas e quanto a minha felicidade?”, indagava-se ela constantemente. Tal pergunta assombrava-a sempre. Quantas noites mal dormidas e desconfortáveis, com mosquitos ao redor da cabeça, passando calor, frio, sofrendo um eterno mal-estar. A sua timidez, mesmo após anos e anos fazendo a mesma coisa, sendo rompida, dilacerada à força, sob a sua passividade, a cada apresentação. A exposição de seu corpo deformado pelo excesso de gordura, os risos de escárnio do povo e até ofensas muitas vezes – “Vá fazer um regime, gorda!”, “Volte para sua terra, balofa!”, “Vai explodir de tanto comer, baleia!”... Tudo isso a troco de um ordenado medíocre, a troco de uma vida morna. E a tal pergunta inquietante voltava à sua cachola – “Mas e quanto a minha felicidade?”.

Em grande verdade, dona Augusta não diferia de tantas outras obesas nos dias de hoje. Naquela época, porém, nos idos de 1930, a senhora era considerada imensa, já que a maioria das pessoas possuía a silhueta fina. Era apenas uma questão de comparação. O número de obesos era reduzido. Raro era deparar-se com pessoas tão acima do peso. Por isso, ela destacava-se. Além do mais, sempre fora baixinha e de pescoço curto, o que dava a impressão de a gordura ser toda socada e expandida mais ainda, não tendo para onde se espalhar. Junte-se a isso, o fato de sempre vestirem-na com roupas claras e apertadas e com grandes listras horizontais, o que causavam uma ilusão de um corpanzil ainda maior.  E por anos, em que se pese apenas a questão de que havia encolhido um pouco com o passar do tempo, o que é normal, o seu peso permanecia o mesmo – com um metro e cinquenta e três, pesava cento e quatorze quilos.

Agora, avaliando toda a sua vida, dona Augusta comparava o destaque artístico, ainda que vexatório e humilhante, que possuía no passado com o ostracismo enraizado no presente, e insistia em cobrar o seu quinhão de felicidade. Em um tempo recheado de obesos, era só mais uma. O estranho era que mesmo assim, ainda sentia-se proscrita e solitária neste mundo adiposo. Lá de fora, o imponente carvalho-das-canárias olhava de volta para mulher mais gorda da face da Terra. Ela, agora, estava com um olhar perdido, parecia perdida. Não percebeu. Os galhos da grande árvore robusta balançavam ao sabor do vento, reverenciando, de alguma forma, aquela que, anos a fio, subia nos palcos da vida para levar um pouco de alegria aos espectadores vorazes. Ela não percebeu, jamais percebeu. A árvore continuou lá, prestando as suas eternas homenagens.   

8 comentários:

  1. Normalidade é tão somente uma questão de estatística. Ser "normal" significa estar enquadrado em determinados padrões vigentes na sociedade.
    Aqueles que, por qualquer motivo, não se enquadram nos ditos padrões da "normalidade", acabam por serem marginalizados. Neste caso, viver à margem significa ser excluído, quando não, ridicularizado.
    Aceitar-se e ser aceito é travar uma batalha com os outros e, ainda pior, consigo mesmo.
    Internalizar o conceito de normalidade como sendo meramente estatística é fundamental para a construção de uma sociedade que aceita, compreende e, sobretudo, não discrimina.

    Paula Freitas

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  2. Dear Eduardo,

    I have two questions related to this text.

    1- Why did you write this text?

    2- What's your goal toward your readers?

    Please, let me know your thoughts about this matter.

    Sincerely,

    ES

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    1. Answering the first question – I Just felt like writing it and there wasn’t any specific reason. It mattered to me at the moment. It is what I have always done when it regards writing. I guess there wouldn’t have to exist any reason in the first place, would there? It is my art. Regarding the second doubt – To be completely honest I didn’t have any intension or, at least, any conscious intension, not that I know of! . You know, it is just my inner voice trying to say something out loud. Got it? I hope you do. Thank you for the comment, I really appreciate it. See ya.

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    2. Every art has a reason to be chose and to be written.

      It wasn't a doubt that I had have: it was a curiosity to know how far you chosen this topic to talked about.

      As there are many topics to be described and many reasons to be written about a topic, I got curious to know about why you would have chosen and written about this one.

      Again, it's a human's being reflections about the text.

      A thoughtful friend in Connecticut.

      ES

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  3. Texto maravilhoso! Adorei! "A mulher mais gorda da face da Terra" somos nós mesmos - a criação daquilo que os outros querem que nós sejamos e ainda chafurdados em nossas próprias crises existenciais. "O esperto, a elegante, a baixinha, o educado, a sincera, o otário, a vagabunda"... Não importa! No final são apenas projeções que os outros fazem de nós, seja realidade ou uma inverdade e, então, nós vivenciamos aquilo e ficamos presos nesses parâmetros. O texto chega a fazer uma paródia disso, mas nunca deixando de lado certa leveza e dramaticidade... Uma narrativa maravilhosa, deveras!

    Ana Carolina Duarte.

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  4. Eu reparei que o termo (adjetivo) “mais gorda” está no superlativo absoluto analítico, indicando realmente a maneira como ela era taxada pelos outros. As pessoas normalmente possuem o costume de categorizar tudo na vida, taxando de maneira positiva ou negativa, adicionando, não raras as vezes, o advérbio “mais” ou “menos”, porque, sobretudo, através desse processo, os seus pensamentos e julgamentos tornam-se mais fáceis. A generalização é uma maneira simples e resumida de análise, um atalho pouco elucidativo. “A mulher mais gorda da face da Terra” é um termo expresso pelos outros, é a vida analisada, julgada e, talvez, até confeccionada pelos outros e não necessariamente a vida que Dona Augusta (que significa majestosa, entre outras coisas!) gostaria de ter “controlado” e “guiado” para o caminho que quisesse percorrer... Gostei muito do texto e fez-me pensar bastante...

    Fernando F.

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  5. achei muito legal um dos seus melhores trabalhos , parabens pelos trabalho e continue assim , escrevendo maravilhosamente
    Beeijos

    Yasmin Gomes .

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  6. "Mas, e quanto a minha felicidade?"
    Dona Augusta me pôs a refletir em quanto vamos levando nossas vidas, seguindo o fluxo, o que há de ser feito, o dia a dia do trabalho exaustivo, e todas essas coisas que a vida adulta nos traz. E a minha felicidade? Primeiro é preciso descobrir o que realmente te faz feliz. E pouca gente se conhece tão bem assim...

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