segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

A Missa de Réquiem (Carlos Eduardo F. M.)




– “Requiem aeternam dona eis...” – principiou o presbítero, tecendo a sua retórica calculada, do alto de seu púlpito de carvalho.

– Papai, eu não entendi o que o homem lá falou! – sentenciou a criança.

– Bem, eu não sou especialista em ritos religiosos da liturgia católica, muito menos em latim, filhinha, mas acho que o começo é algo como “dai-lhes o repouso eterno” – respondeu o pai em tom baixo, preocupado em não incomodar os que prestavam atenção à Missa de Réquiem matutina de certo domingo de janeiro.

– O que é repouso? – indagou a menina.

– Descanso – atalhou o pai.

– Como dormir à noite? – questionou de modo ingênuo a pequena, de uma maneira doce que só as crianças sabem fazer.

– Temo que não, minha filha... – hesitou. – Repouso, descanso, nesse caso, é um eufemismo para morte – emendou de maneira atabalhoada, sem muito pensar a quem realmente se dirigia, à maneira das respostas dadas pelos adultos aos pequenos a maioria das vezes.

– Eufemismo? – ela agarrou-se ao vocábulo desconhecido.

– É quando tentamos falar de outra forma, uma maneira mais educada de se dizer algo.

– Hum... Estamos aqui, então, porque a nossa vizinha Bárbara morreu, né?

O pai olhou em todas as direções, certificando-se que ninguém escutava a prosa e, envergando-se, quase sendo tomado pelo encosto do banco da igreja, respondeu:

– Exatamente. Ela descansou na semana passada, lembra?

– Sim, eu me lembro! – a criança deu uma pausa e se pôs reflexiva. – Nós também vamos repousar?

O pai recuou, encarou-a com ternura, tomou as mãozinhas dela e soltou algumas palavras, que saíram pausadamente devido ao conteúdo pesado para um infante:

– Filha, todos nós vamos um dia... É uma das poucas certezas que temos. Mas não se preocupe com isso agora. Ninguém sabe a sua hora verdadeiramente, apenas Deus. Ele, sim, sabe o que é melhor para cada um de nós em Sua infinita sabedoria!

– Hum... – a introspectiva criança fez como um suspiro e se calou.

– O que foi, meu amor?

– Eu não me preocupo com a minha hora de repousar, mas com a sua...

As palavras da menina saíram como flechas certeiras e atingiram o coração do pai. Uma forte emoção percorreu-lhe o espírito, abalando-lhe a estrutura. Não se importando mais com as pessoas ao seu redor, que lotavam a missa, ele a tomou nos braços e apertou aquele corpo infantil.

– Eu te amo, minha filha, e isso nunca vai mudar – disse, simplesmente, com os olhos marejados.

Um anjo do Senhor que estava agachado sobre uma das vigas de madeira, que se estendia logo abaixo do teto, escutara a conversa de pai e filha, e não pôde deixar de se emocionar. Suas asas douradas estavam encolhidas e, logo, foram abertas e ele ergueu-se de sobressalto para levantar voo. Antes, porém, deu uma última olhadela para aqueles dois personagens que lhe causaram tanta admiração, em meio a um conglomerado de fieis, por suas frases espontâneas e singelas e, no entanto, profundas e significativas. Eram palavras verdadeiras, vindas da alma, que ilustravam o amor que toda a humanidade deveria possuir. E o anjo foi-se feliz com os dois representantes dignos que encontra naquele templo cristão, rumando ao céu e um pouco além...

5 comentários:

  1. As crianças tem esse dom, de nos surpreender com sua pureza, com sua ingenuidade. Esta semana que passou mesmo eu me peguei surpresa com o que minha afilhada perguntou para a sua mãe sobre mim. Pesou no meu coração a pergunta dela, apesar de saber que ela não a fez por mal, que na verdade é isso mesmo o que ela está sentindo. Talvez por isso tenha pesado tanto...
    Acho que o que falta um pouco a nós adultos é a pureza e a inocência das crianças, de dizer o que sente sem temor, sem esperar nenhum julgamento. Simplesmente sentir. Sentimento completo. Chorar quando se tem vontade, sem temer os olhos e olhares curiosos. Seríamos mais felizes talvez, se nos entregássemos aos sentimentos sem pesar. Talvez o mundo pesasse menos nos nossos ombros.
    Luciana S. Andrade

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  2. O texto descreve o velorio cristao, na igreja catolica: os anjos, a missa pelos mortos, o povo reunido, as palavras em latim, e o “eufemismo” usado para amenizar as palavras a respeito do outro lado da vida.
    Descreve tambem a curiosidade e a preocupacao humana a respeito da morte, da trajetoria que todos passarao por ela.
    A perda e a saudade dos que morrem , tambem fazem parte do texto.

    ES

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  3. Não sou ateu nem tampouco religioso, que fique claro antes. Mas, nas igrejas, o que mais se costuma ver é o pensamento induzido, doutrinado e, portanto, quase nada espontâneo. Há, via de regra, repetições, decorebas e radicalização. As pessoas não pensam e não agem por elas mesmas... De qualquer forma, na igreja do texto, há duas pessoas, pai e filha, que demonstram amor incondicional, espontaneidade e humanidade. Uma excelente aula para qualquer fiel ou sacristão.
    Ronaldo B.

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  4. A finitude é um conceito capaz de abalar as convicções humanas. Isto porque quando pensamos em finitude inconscientemente a relacionamos com o nosso próprio fim.
    Lidar com perdas é sempre conflituoso porque quando isso nos acontece acabamos, também inconscientemente, remetendo-nos a tudo aquilo que já perdemos.
    Imagine só transmitir toda essa complexidade para as crianças. Na verdade, é desnecessário. Cada coisa a seu tempo. Essa percepção deve fazer parte de um processo de crescimento físico, psíquico e espiritual.
    É certo que completar esse processo é difícil, e também é certo que alguns nunca o completarão.
    Eufemismo às vezes é caridade, proteção e necessário se usado no momento correto.
    Repito... cada coisa a seu tempo.

    Paula Freitas

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  5. Marcos Roberto da Costa3 de janeiro de 2012 às 09:29

    O fim ... nada mais certo como o "repouso", um processo natural para qualquer ser vivo. Na realidade, embora irrevogável, vivemos como se ele nunca pudesse chegar. Melhor assim ... viver.

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