quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Uma missiva


Para quem possa se interessar,

Um dia desses, em meio a uma revista, lendo à revelia, completamente alheio ao mundo ao meu redor, que perseverava em interagir comigo, eu me deparei com um haicai, um daqueles poemas japoneses, feito por Carlos Vogt, que me chamou atenção. Apesar de singelo, constituído de três versos, como haveria de ser, e tecido com poucas palavras (nove para ser mais exato), ele transmitiu-me, paradoxalmente, um recado complexo e sábio. Eis:


Falamos de tudo e ainda

Há o que

Silenciar


Eu li e reli sem parar este poema, não consegui tirar os olhos do papel, da poesia, das palavras que dançavam, rodopiando em volta de si mesmas. Destrinchei-o em minha mente durante alguns minutos. E por que fez tanto sentido para mim? Acho que porque eu as absorvi, bem à minha maneira, no momento que mais precisava. Eu sou muito ansioso. Eu quero sempre as coisas para ontem. A paciência não é uma virtude que eu cultivo, mas que também nunca deixei de buscá-la. Eu sei muito bem o ganho que se tem quando a pachorra impera e a agitação se vai.

De cara, podemos abstrair do haicai que o segredo sempre foi ouvir mais e falar menos. Bem, isso já não é mais segredo, é? Eu quero escutar mais ainda os outros e a mim também, ser menos impulsivo. Eu tento praticar isso diariamente. Os sábios, deveras, internalizaram a lição que diz que tudo tem o seu tempo. Eles sempre agem na hora exata e com justiça ou, às vezes, quando a situação pede, deixam de agir, propositadamente, de modo que o universo se encarregue dessa função. A passividade também pode ser uma arma poderosa.

Agora eu sinto que é hora de se calar, de pensar mais, de deixar de fazer, de esperar acontecer. Ineficaz, seria, seguir em frente, desembestado, já que não se pensou e aprendeu o suficiente. Seria, no mínimo, imprudente. Talvez, sejamos francos, pensar e aprender nunca serão o bastante.

Destrinchemos o haicai, devaneando um pouco mais: “Falamos de tudo...” e não falamos absolutamente nada ainda. Foi vazio, sem significado para quem falou e para quem ouviu, foi sem importância, não acrescentou em nada. Aquilo que realmente importa ainda há de ser feito... Mas será que precisa ser realmente falado? Em uma total falta de controle, “falamos de tudo”. Somos tão fracos assim para perdemos para nós mesmos sempre? Não precisaria ser assim. Agora, os últimos versos: “...ainda há o que silenciar” para acalmar o ser inquieto, impulsivo, preconceituoso e injusto dentro de nós e nos outros, contudo, é importante ser lembrado que ninguém muda ninguém. Toda mudança é feita de dentro para fora. Ajudar é possível, querer mudar o outro, não. Queira contentar-se em promover apenas a sua transformação. Isso é o suficiente. Para finalizar, ainda há muito que fazer e estamos indo pelo caminho errado, também diz o poema. E nós? Nós continuamos nos iludindo neste interminável falatório sem sentido...

Atenciosamente,

Aquele que agora se silencia

6 comentários:

  1. Em um mundo onde ansiedades e angústias insistem em dominar nosso cotidiano, muitas vezes, o antídoto para esses males simplesmente resume-se em ESCUTA. Muitos necessitam tão somente serem escutados. Parece simples....mas se raciocinarmos perceberemos que para haver tempo para a escuta é necessário, e imprescindível, o silêncio.
    Temos tanta necessidade de nos colocarmos, de falarmos de nós mesmos que, por uma questão matemática, não nos permitimos escutar. Pensemos... se numa conversa de 20 minutos eu me proponho a falar ininterruptamente por 18 minutos, quanto desse tempo me restará para escutar aquilo que o outro teria a me dizer?
    E vou ainda além....não é apenas uma questão de escutar o outro....simplesmente não nos escutamos. Não temos tempo, e por vezes nem interesse, de percebermos aquilo que é nosso. Como querer então entender o outro?
    Saber calar e se permitir escutar é uma virtude, diria até que vem a ser uma caridade, um ato de doação.
    Vou agora me calar para refletir e para que aqueles que me "escutaram" se permitam absorver este desabafo....Em outras palavras quero ser escutada e não apenas ouvida (lida, rsrsrs).
    Paula Freitas

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  2. Indeed...
    I, myself, now and then, randomly get caught "listening" to people chewing the fat whilst my mind is somewhere else to what they'd rather, instead of double-checking if you're paying attention to them, reason the relevance of what is being said since you're lacking the attention required by the speaker. Our mind is allured to pleasure so if the talking is not "charming" enough it's time to shut.

    Nice reading, "btw"

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  3. De que adianta falar e nao coloca-la em pratica?
    A fala so’ tem poder quando e’ colocada em acao por quem fala e por quem escuta, senao perde a graca; cai no esquecimento, no silencio.
    Na realidade, sempre temos algo a mais para dizer e houvir, mas chega uma hora que por varios motivos, nao adianta muito falar, e nem houvir.

    ES

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  4. muito lindo !! parabens continue assim

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  5. Já dizia Renato Russo que "palavras são erros..." e os erros são nossos. Sempre falamos demais e esperamos ouvir demais dos outros também. E acabamos esquecendo-nos que o que importa realmente, que o que vai ficar guardado na memória do coração é o que é dito no silêncio de um olhar, o no calor de um abraço que recebemos quando o nosso mundo está a beira de desmoronar, ou não, e que faz com que todo o resto deixe de ter importância ali, naquele instante mágico. Sim, sempre há o que silenciar, pois é no som do silêncio que o que toca nosso coração de verdade acontece.

    Luciana S. Andrade

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  6. Resumindo: calem-se todos, pois o momento da quietude chegou! Aliás, nunca foi o momento de ficar falando muito...

    Jerônimo S.

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