
Havia um dilema em curso entre os melhores amigos, João e Gilberto, uma discussão trivial e infundada que corroia aos poucos tal amizade.
João declarara que a melhor cachaça existente no mundo era a Córrego Redonda. Esse depoimento causou um mal-estar em Gilberto, que objetou, contra-argumentando que a melhor pinga do mundo era, na verdade, a Cana-de-mel. É evidente que, por serem amigos de longa data, um sabia da preferência etílica do outro, mas quando começaram a existir comentários declarados sobre isso, os problemas vieram à tona. A vaidade de um, o orgulho do outro, o egoísmo e a ignorância dos dois engrossaram o caldo da querela de vez.
– Não seja estúpido! A Córrego Redonda, perdão pelo trocadilho, desce redondo pela garganta, não queima, ao contrário do seu querosene – disse João ao amigo.
– Como pode ser tão imbecil? É sabido que a Cana-de-mel é cana pura e de melhor qualidade! – devolveu Gilberto.
E assim continuavam brigando e bebendo, cada um a sua cachaça preferida. Porém, um dia, cansado daquela discussão estapafúrdia, Jorge, um amigo em comum das partes, apareceu com uma ideia para acabar de vez com aquele imbróglio:
– Escutem-me, vocês dois. Eu já sei como resolver este impasse. É fácil de entender, basta que prestem atenção.
– Pois então diga logo de uma vez, homem de Deus! – exclamou Gilberto, impaciente.
Para resolvermos qual cachaça é a melhor, basta que me coloquem como juiz. Então, no próximo domingo de manhã, eu vendarei os senhores e mais alguns frequentadores assíduos aqui do bar da cidade e os servirei com um copo de cada aguardente que vocês consideram a melhor, sem que qualquer um de vocês saiba, é evidente, em qual copo se encontra cada uma das cachaças. O resultado será decidido pela maioria dos bebedores, através de votação.
– Brilhante ideia, meu caro companheiro! Eu concordo – declarou João.
– Mas só uma pergunta – fez Gilberto. – E se der empate?
– Não dará – afirmou Jorge pacientemente. – Na verdade, eu já pensei sobre isso – disse orgulhoso, segurando um sorriso no canto do lábio direito. – Eu convocarei um número ímpar de bebedores.
– Se for assim, eu estou de acordo também – finalizou Gilberto.
No domingo marcado, no local e hora combinados, encontravam-se Jorge, o juiz, João e Gilberto, as duas partes requerentes, Seu Firmino, o dono do bar, os cachaceiros de plantão e certa plateia, o júri testemunhal, por assim dizer.
Jorge começou por vendar João e Gilberto, colocando-os sentados à mesa do centro, frente a frente. Posicionou três copos vazios na frente de cada um dos amigos. Depois vendou os sete bebedores que ali se encontravam e os assentou em seus lugares, espalhando também três copos na frente de cada um. Logo após, ordenou que o dono do estabelecimento trouxesse uma garrafa de cada aguardente preferida dos dois queixosos, assim também como uma garrafa de água com gás. Para finalizar, encheu os copos laterais de cada bebedor com as cachaças escolhidas e as do meio com a água.
– Muito bem. Todos nós sabemos o porquê estamos aqui reunidos hoje, diferente dos outros domingos, nos quais não tínhamos razões aparentes para bebermos – discursou Jorge, com certa pompa e circunstância, querendo parecer mais inteligente e seguro do que realmente era. – De qualquer forma, explicarei novamente para todos os presentes: após o meu comando, com os olhos vendados, vocês beberão o copo de cachaça da esquerda primeiro, depois o copo de água com gás do meio, para limpar a garganta, é claro, e, por último, o copo da aguardente da direita. Depois, o dono do bar passará com um papel ao lado de cada um de vocês, que ainda estarão de olhos vendados, e anotará qual opção vocês consideraram a melhor, ou seja, o copo da esquerda ou o da direita. É importante ser lembrado: cada copo foi preenchido, aleatoriamente, com a cachaça preferida de João e Gilberto, mas de modo que apenas eu, Seu Firmino e os presentes saibamos qual aguardente está realmente em cada copo. Vocês, os que bebem, logicamente, não sabem e, até por isso, permanecerão de olhos vendados até a minha ordem. Entendido?
– Sim – a resposta ecoou em uníssono.
– Pois bem então, todos podem beber o copo da esquerda – deu a ordem, finalmente, o juiz.
Em meio a tanta expectativa, um silêncio tomou conta do recinto, à medida que os nove homens, de vez, bebericavam as suas pingas.
– Ótimo! Sintam o gosto dessa cachaça à vontade. Agora bebam o copo de água com gás do meio para limparem a língua e garganta – continuou Jorge.
Os presentes continuavam a acompanhar todo o processo sem fazer som.
– Excelente! Para finalizar, degustem o copo da direita e saboreiem essa outra aguardente – ordenou o juiz mais uma vez, demonstrando conforto em orquestrar toda a situação.
Todos os nove bebedores terminaram seus copos. Seu Firmino, após o comando do juiz, tomou uma prancheta com papel e caneta a fim de anotar a opção de cada bebedor. Após anotar a escolha dos dois primeiros, João e Gilberto, quando já iria seguir para o terceiro bebedor, o dono do bar parou, atônito, à medida que encarava o papel.
– Por que parou, Seu Firmino? – indagou Jorge.
O dono do bar, então, em completo silêncio, dirigiu-se ao juiz e lhe entregou o papel. Qual não foi, também, a surpresa deste ao constatar que João havia escolhido como melhor cachaça a do Gilberto, enquanto Gilberto, por sua vez, escolhera a do João.
Nem sempre o que externamos representa o nosso real desejo. O nosso olhar pode ser ludibriado por falsas impressões e, desta forma, passamos a tomar tais impressões como verdade absoluta. E, ainda pior, temos a tendência de querer impor nossa verdade ao mundo. Justamente por isso precisamos estar abertos a novas possibilidades para que "as nossas verdades" sejam constantemente confrontadas.
ResponderExcluirPrecisamente, se nossos personagens João e Gilberto não se rendessem a teimosia, nós leitores estaríamos privados de um largo sorriso ao findar da história.
Paula Freitas
E’ provavel que eles discutiam a respeito das preferencias das cachacas apos ja estarem embriagados, e durante a embriaguez, nao ha’ raciocinio que distingue entre a melhor ou a pior cachaca.
ResponderExcluirOs resultados mostraram o que eles nao podiam ver quando estavam bebados: por serem amigos, os gostos tendem a serem os mesmos, mas depois de embebedar -se, ate os melhores amigos podem divergir a respeito das preferencias.
ES
Ei gostei muito do seu texto, a medida em que lia vários finais foram me passando a cabeça. Achei que o juiz iria trazer um terceiro rótulo para que eles experimentassem omitindo os outros dois. Mas o seu final foi interessante...
ResponderExcluirbju
Gostei do texto e o que tenho a dizer é que qualificar sabor é muito complexo, pois, geralmente, ele está ligado culturalmente com o ambiente em que pessoa vive. É bem verdade, que no Brasil, a aguardente é apreciada pela maioria, e a escolha está ligada ao teor alcoólico contido nela. Uns preferem as mais fortes e outros as mais fracas. Nesse texto, no entanto, os personagens centrais parece estarem mais preocupados em discordar um do outro, do que, realmente, apreciar o gosto da bebida. Isto fica comprovado no encerramento do texto, onde a verdade acabou vindo à tona e desmentindo a convicção difundida por eles.
ResponderExcluirMais um singelo e, no entanto, profundo texto, no que tange aa complexidade do ser humano, que mostra que ter absoluta certeza pode ser perigoso...
ResponderExcluirJennifer C.