quinta-feira, 26 de maio de 2011

A prisão (Carlos Eduardo F. M.)

De onde estava, através das grades da janela, Josefina via parte da rua. Exatamente por não poder ir até lá fora, cerceada de liberdade, é que tudo parecia e, talvez, até fosse, deveras, surreal. A araucária imponente da calçada projetava a sua sombra fria no asfalto; transeuntes seguiam com as cabeças arqueadas, queixos enterrados nos bustos e mãos escondidas dentro de indumentárias pesadas, devido ao frio; uma sacola plástica bailava ao bel-prazer do vento sul daquela manhã gélida; um vira-lata delgado, com pontos de sarda na pele, saltitava cambaleante – a sua pata traseira parecia estar ferida e, por um instante apenas, ele parou, cheirou o tronco da árvore, girou a cabeça erigida e encarou a presa. O pobre animal parecia se apiedar dela. “A vida burlesca de Josefina”, ponderou ela.

Ali, trancafiada sob a égide de quatro paredes, às vezes, o tempo para Josefina passava como uma lesma reumática. Já em outros períodos, a sua vivência parecia estranhamente atemporal e, portanto, indistinta e sem sentido. Mas, naquele momento, à medida que contemplava a rua, o tempo seguia de forma flexível, do jeito que mais lhe apetecia, num ritmo mais serelepe e generoso. Ela, no entanto, decidira há uma década que não mais se ocuparia de cuidar dele, simplesmente porque não valia a pena dar atenção a esse algoz impiedoso e insensato – chega de ceder aos seus caprichos, não vai mais me maltratar – disse resoluta à época.

Josefina encontrara algo bem melhor para cuidar nos últimos tempos – assistir a como tudo e todos reagiam a um bem precioso, do qual ela era privada há mais de quinze anos – a liberdade. Da janela, ela tinha uma pequena amostra disso. Há poucos dias, na parte da tarde, uma senhora rechonchuda e baixinha que aparentava ter uns oitenta anos andava com sua coluna inclinada, vagarosamente, tentando juntar fragmentos de tudo que foi um dia. A velha parava a quase todo o momento e se recostava no muro das casas. Àquela distância, Josefina não conseguia precisar bem o olhar da idosa, mas poderia jurar que era tétrico. Os cabelos grisalhos e lisos presos, o suéter azul-marinho e os sapatos e as meias longas pretas quase até os joelhos davam-lhe ares de matriarca italiana. Fosse como fosse, a liberdade da idosa parecia ser arruinada pela velhice do fim da vida, analisou a encarcerada. Era uma vida sem vida na rua, debilitada por um inimigo em comum – o tempo. Era difícil, Josefina admitia, não pensar nele e se render aos seus caprichos. O cachorro do dia de hoje, lembrou, que tinha a pata ferida, que era acometido pelas chagas no corpo débil e por toda a miséria na qual vivia, tudo tolhia a sua liberdade. As próprias pessoas que transitavam pela rua seguiam perdidas, com frio, aterradas em seus medos distintos, ignorantes e com suas idiossincrasias, que liberdade elas possuíam? Josefina seguia filosofando, da prisão.

Não houve surpresa quando, após certo tempo, os resultados parciais de sua análise vieram aos olhos, confirmando que ela não poderia ser tão infeliz quanto supunha, pois nem ela, muito menos ninguém possuía a liberdade em sua essência. Tal suposição, nascida, sobretudo, da analogia, trouxe-lhe alívio. Ela precisava disso para continuar vivendo. Contudo, nada tiraria a angústia cravada em seu coração.

Seria melhor viver de ilusões, sem consciência e chafurdado em alienação? Há escolha de verdade ou decide-se por nós? Fiz realmente alguma coisa para estar presa ou fizeram comigo? O inferno é aqui? Tais perguntas espetavam-lhe a cabeça a todo o momento. A sua existência e a dos outros quase se mesclavam em uma só.

Pobre Josefina, ela continuava, através da janela de seu apartamento, a analisar a amostra de vida lá em baixo. De sua cadeira de rodas, presa em seu próprio corpo, tudo parecia ainda mais carente de liberdade.

3 comentários:

  1. O texto contrasta liberdade e prisao aos olhos de uma tetraplegica.
    Ela coloca em questao o que realmente seria a liberdade, na velhice, na doenca e na clausura.
    Tambem compara as pessoas livres nas ruas e suas formas limitadas de liberdade, colocando em
    questao se somos livres para decidir sobre o tipo de liberdade que almejamos ter.

    ES

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  2. Um trecho da música Hotel Califórnia - Eagles - nunca saiu de minha memória: "Somos prisioneiros de nossas próprias vontades".
    Todas as barreiras e limitações que enfrentamos ao longo da vida são frutos de nossos desejos. A doença, o medo, a idade, o aspecto físico, tudo isso poda a liberdade plena.
    Desta maneira, considerando que nenhum ser humano é capaz de dar conta de tudo, o tempo todo, chega-se a conclusão de que a certo modo todos temos algum déficite. Sofremos limitações e exatamente por isso o conceito de liberdade plena se torna uma proposta muito vaga para o ser humano.
    Desejar, adoecer, dedicar, criar, pensar...estes e tantos outros infinitivos implicam na limitação da liberdade.
    Quem de nós está livre de conjugar estes verbos?

    Paula Freitas

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  3. Meu amigo produziu mais uma pérola digna de aplausos, e ao mesmo tempo, de entendimento dificultoso para os que vêem a liberdade como um mito. É muito difícil falar de uma palavra de efeito tão forte, tão vasta e de tamanha envergadura. Sobre a liberdade reside uma imensidade de conceitos conflitantes com a realidade; a maioria deles, equivocados. Daí a razão de me sentir confuso perante a necessidade de resumir o que penso da liberdade, em tão poucas e banais palavras.
    Para falar da liberdade antes é preciso saber, que na antiguidade, este termo significava o estado do cidadão livre em relação ao escravo. Hoje se defende a liberdade em diversos sentidos e situações. Porém, nem sempre foi assim. Mas eu costumo repetir uma máxima de Sócrates, que, “o homem que não conhece a si mesmo, também não conhece a liberdade”. Porque a essência da liberdade vem do nosso interior e se projeta para agir externamente. Por isso, o ato livre é aquele realizado com consciência e por vontade própria, não em estado inconsciente, nem por coação. O homem que conhece a si mesmo aprende a lutar contra as suas fraquezas e vai forjando uma autonomia interna tão forte, que nenhuma força do mundo externo, consegue prendê-lo, escraviza-lo.
    Portanto, o que posso dizer de Josefina, é que ela não conhece o real ingrediente da liberdade. Se ela tivesse ciência disso, saberia que a liberdade do homem não está na força física, em ter um corpo livre de correntes, pernas perfeitas e condições de poder andar depressa, correr. A liberdade está naquele que consegue enfrentar os seus próprios medos e tem poder de dominar seus vícios, as suas fraquezas, seus desejos, e se posicionar no mundo com virtuosidade.

    J Vieira

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