terça-feira, 12 de abril de 2011

O milagre de 11 de setembro



Dr. Estevão só conseguia pensar naquela sexta-feira fatigante que ainda não havia acabado, à medida que subia a serra cautelosamente. Havia se focado naquilo e estava alheio à esposa, sentada no banco do carona, que, sem perceber a falta de atenção do marido, continuava a contar, com empolgação, uma história sobre alguém perdido em algum lugar. Vez ou outra, ele olhava de soslaio para ela, balançando a cabeça positivamente, a fim de dissimular sua alienação. No banco de trás, solitário e taciturno, o filho seguia com os olhos na estrada, observando as curvas sinuosas apontarem para precipícios vertiginosos.

A noite vinha de mansinho, seguindo o carro, como uma sombra; contudo, ainda havia um céu em brasa no horizonte à frente. O motor do carro novo bramia, implorando por uma marcha mais pesada, sobre aquela subida íngreme; o adolescente, entediado após meia hora de viagem, já ligava seu ipod para escutar algum som repreensível pela mãe; o monólogo de Dona Sônia continuava, só que com mais exaltação, fazendo gestos ríspidos e abruptos, por algum motivo inteligível; já o Dr. Estevão, agora, observava um carro caquético descendo a estrada, vindo em sua direção pelo lado oposto.

Um Chevette 81 descia com enorme velocidade a serra após ter conseguido fazer uma última curva. Seu José sabia que não adiantava contar com o freio de mão, pois, já há dois meses, o cabo de aço havia se rompido. Em vão, após também ter bombeado o pedal de freio por várias vezes, desesperadamente, ele tentava encaixar a segunda marcha e, às vezes, a primeira, antes de soltar a embreagem por completo, como último recurso para frenar o galipão; não obstante, um problema hidráulico na caixa de marchas, impediu-o que tivesse qualquer sucesso. Olhou, através do para-brisa, o abismo sem fim que o engoliria inexoravelmente, assim também como teve tempo de ver que um carro, quase parado na curva, em diagonal, estava na frente da pirambeira, subindo vagarosamente.

Um imenso estrondo retumbou por todo o vale quando o Chevette deu com sua parte dianteira na porta do motorista do Corolla. Logo veio um grito agudo e, por fim, um silêncio mortal varreu a serra. Com os dois carros parados na periferia da curva, Seu José, ainda aturdido, saiu pelo buraco da janela de sua porta, em meio à fumaça, pedacinhos de vidro, e outras partes indecifráveis dos veículos, espalhadas pelo asfalto. Seu José olhou o vale abaixo atônito, observando a distância que faltava para ele mergulhar no penhasco, assim também como observou que isso só não aconteceu porque o outro automóvel, logo mais à frente, serviu como proteção.

Após segundos de uma letargia inexplicável, ele apressou-se em ir para o outro carro. No Corolla recém comprado havia três pessoas, duas delas, apesar de estarem em estado de choque, conforme seu José havia conferido, estavam conscientes, já o motorista, Dr. Estevão, banhado em sangue, permanecia inerte.

Duas semanas depois, na UTI, ao lado do marido, ainda era difícil para Dona Margarida acreditar que Dr. Estevão ainda permanecesse em coma. “Como a vida é imprevisivelmente surpreendente e irônica. Meu filho e eu sofremos escoriações leves, enquanto ele, que já salvou centenas de vidas e, portanto, tem mais importância para este mundo do que nós, teve traumatismo craniano”, ponderou ela, enquanto olhava para o rosto dele. De repente, sendo a vida realmente surpreendente, seu marido, abriu os olhos e a encarou, como se a esposa fosse uma aparição fantasmagórica. Antes de perder os sentidos, ela soltou um grito estapafúrdio de socorro que viajou por todo corredor até chegar aos ouvidos das três enfermeiras daquela ala oeste, que se puseram a correr para o quarto. Quando lá chegaram, duas delas se preocuparam em levantar a senhora desmaiada, enquanto a terceira olhava, boquiaberta, para o médico acamado que ela tanto conhecia e admirava.

– Dr. Estevão! O senhor voltou... – disse a enfermeira, que continuava a olhá-lo com surpresa.

Aquele homem confuso devido a toda aquela situação não conseguia acompanhar, não conseguia entender o que se passava ao seu redor e, não fosse o estado de intubação no qual se encontrava, poderia ter falado alguma coisa a qualquer momento que quisesse. E foi só instantes depois, quando o médico de plantão adentrou-se pelo quarto, sendo chamado por uma quarta enfermeira que passava pelo corredor, e já tendo analisado o paciente, que o diagnóstico foi dado, precipitadamente, a Dona Margarida – amnésia.

No outro dia, após ter sido avaliado por uma junta médica de especialistas naquela patologia, veio a ratificação do diagnóstico dado pelo médico de plantão e, tendo já sido removido para um leito normal, dona Margarida foi aconselhada a levar o marido para casa, assim que seu quadro clínico fosse deveras mantido, com o intuito de, através de um reencontro com sua ex-rotina, ele pudesse, com sorte, avivar sua memória.

Exatamente no dia 11 de setembro de 2001, quase três meses após ter saído do hospital, pela manhã, Dr. Estevão, ainda com amnésia, assistia à TV quando uma cena chamou sua atenção. Um avião havia acabado de colidir em um de dois imensos prédios iguais. “Acho que eu já vi esse filme”, pensou ele. “Acho que é King Kong...”, continuou com seu jogo particular de adivinhação. Quando um segundo avião colidiu com o segundo prédio, ele viu que uma rede de televisão internacional estava transmitindo ao vivo. Não achou que uma barbaridade daquelas pudesse ser real, mas, abruptamente, tudo fez sentido. Sim, aquilo estava acontecendo às Torres Gêmeas, o World Trade Center, em Nova Iorque, Estados Unidos, conforme ouviu ser noticiado por um jornalista.

Milhões de pequenas imagens da realidade, como peças de um imenso quebra-cabeça, sobrepuseram sua visão da sala de estar, encaixando-se uma nas partes certas das outras, de modo que formassem a mesma imagem da sala de estar; só que agora, fazendo conexões infinitas com tudo que ele já havia vivido. “Estou assistindo à TV em minha sala, minha casa, agora”, pensou logicamente, enfim.

– Margarida! – gritou o Dr. Estevão imediatamente, com uma excitação reprimida, sem saber o porquê a chamava exatamente.

Sua mulher, assustada, foi até a sala, e, com lágrimas pendentes no rosto, abraçou Estevão e disse, com as mãos trêmulas, segurando a face do marido:

– Graças a Deus! Um milagre aconteceu... Júnior, seu pai voltou a si!

Todos os anos, naquela mesma data sagrada, a família reuni-se para comemorar a volta da memória do Dr. Estevão. Lembravam-se sempre, agora com risadas, que seus amigos iam visitá-lo, a própria família vinha visitá-lo, mas ele não reconhecia ninguém, apesar de conversar normalmente sobre o que quer que fosse com todos; e até hoje, quando indagado sobre o acidente, ele sempre responde de primeira, com um ar jocoso – “Ah se não fosse o Bin Laden!”.

3 comentários:

  1. Este conto nos traz a certeza de que realmente estamos todos conectados.
    Fatos não ocorrem de maneira isolada e essa premissa nos permite refletir acerca do fenômeno da interdependência.
    Quando ignoramos alguém ou algum fato que nos parece desinteressante, estamos, por consequência, ignorando uma realidade que nos é pertinente.
    Usemos estes conceitos para efetivarmos laços de solidariedade como forma de reconhecermos que a individualidade converge na totalidade.
    Paula Freitas.

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  2. O que se percebe aí, é que as duas tragédias tiveram como mentor, o desequilíbrio. O desequilíbrio da consciência e o desequilíbrio mecânico. As vítimas do desequilíbrio mecânico tiveram mais sorte. Porem, nos dois casos, tem um Bin Laden envolvido: O Bin Laden concentrado numa violência absurda e um Bin Laden negligente com a manutenção do veiculo.

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  3. O texto comprova a reflexão que diz que o mal está inserido no bem e vice-versa. Equilíbrio. Yin-yang.

    Ana Júlia.

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