sábado, 4 de setembro de 2010

A mancha escura (Carlos Eduardo F. M.)



Desde muito pequeno, o famigerado Frederico dava trabalho para o pai. Toda aquela cidadezinha interiorana conhecia aquele “diabo em pessoa”, conforme diziam as velhas carolas que se reuniam todos os domingos, após a missa, em casa de Dona Cecília, para “prosear” sobre o andamento da comunidade.

- Aquele moleque é uma peste incontrolável! – dizia Dona Etelvina, com a voz exacerbada.

- Ouvir dizer que ele soltou um camundongo em sua sala de aula – retrucou Dona Zélia. – e toda turma pôs-se a gritar desesperadamente. Alguns até saíram correndo, passando por cima da filha da dona da quitanda, da rua de baixo. A pobrezinha teve uma fratura no braço!

- Coitado do Seu Jorge! – falou, por fim, Dona Cecília. – Um homem tão bom. Não merecia um filho daqueles.

Que isto não sirva de subterfúgio, mas também desde muito pequeno, o menino crescera sem a presença da mãe, que morrera devido às “complicações pós-parto”, assim escrito em um prontuário apócrifo; e, apesar de nunca ninguém tê-lo culpado, Frederico, no fundo, sentia-se responsável por ter nascido banhado pelo sangue da genitora moribunda.

Seu Jorge, muito a sua maneira rústica, criou o filho com o melhor que possuía, mas sem muitos regalos. Homem muito probo, ele vivia do sustento de sua pequena oficina mecânica, estrategicamente montada à beira da estrada, no final de uma longa curva, que ficava no começo de sua cidade. O movimento do estabelecimento era pequeno e, por conseqüência, quase não gerava lucro, mas dali sustentava sua família há tempos. Ele, que nunca pôde estudar, exigia que o filho estudasse e que também, nas horas vagas, ajudasse na oficina, mediante algumas moedinhas diárias (dependendo do movimento, até nota!), realizando pequenas tarefas, até porque ele tinha muito trabalho se o filho ficasse ocioso. O certo era que o viúvo almejava um futuro diferente para Frederico e acreditava fervorosamente que apenas os estudos livrar-lhe-iam de estar sujo e com cheiro de óleo pelo resto da vida.

O menino possuía uma feição tétrica, um olhar perdido e um sorriso demoníaco. Raramente era visto brincando com alguém, porque as outras crianças tinham medo dele e ele era considerado “mau” por elas; porém, na verdade, Frederico era apenas mais uma das muitas crianças portadoras de TDAH e jamais diagnosticadas e tratadas. Este também possuía muitos sonhos, como qualquer criança, mas o que realmente o diferenciava dos demais da sua idade era a ganância demasiada. Era difícil para ele admitir, ainda aos dez anos, que o pai fosse um reles mecânico e mais difícil ainda supor que fosse ser essa a sua eterna profissão também. Desprezava profundamente o trabalho árduo do pai e a renda baixa; contudo, nunca dissera uma única palavra sobre isso, talvez por medo de magoar e decepcioná-lo. Também não suportava a escola, pois achava que era perda de tempo ficar tanto tempo em sala de aula, ouvindo coisas que não compreendia e jamais fariam diferença em sua vida; além do mais, presenciava, de tempos em tempos, reclamações dos próprios professores, que diziam que a educação estava falida. Em sua cabeça havia formas mais fáceis de ganhar dinheiro, um atalho que aqueles que pegam, aguardam ansiosos pelas benesses que certamente hão de vir em curto espaço de tempo. Só não ponderou, nem mesmo por um segundo, como a maioria dos que partilham da mesma visão, que as conseqüências vindouras são, no final das contas, proporcionalmente desastrosas. E foi exatamente por tudo isso que resolveu dar cabo de um plano que matutava há muito, para aumentar o lucro do pai e o seu também, por conseguinte.

Frederico esperou um dia no qual o pai fosse buscar peças de automóvel na cidade mais próxima, como sempre fazia em certos dias do mês. Nesses dias, ele sabia que o pai ausentava-se por certo espaço de tempo, e deixava a oficina a cargo de um ajudante, além de contar com o próprio filho, que vinha após o horário da escola. Assim que chegou à oficina, o menino foi até a algumas pequenas latas de óleo, que ficavam sobre uma prateleira de madeira, nos fundos, e, após ter olhado o ajudante envolto em tentar achar o defeito de um velho motor, debruçado sobre o carro, escondido por de trás do capô aberto, levou tantas latinhas quanto pôde carregar para a curva da estrada que dava praticamente de frente para as portas da oficina. Estrategicamente, besuntou de óleo toda aquela parte sinuosa da pista. Voltou correndo até a oficina, pegou o seu carrinho de rolimã, colocou, com esforço, um saco de cimento usado sobre ele, empurrou-o lentamente na direção da estrada, oposta à curva, para depois vir empurrando novamente o seu pequeno veículo para a exata direção da curva, só que agora a toda velocidade. Quando estava para chegar ao começo da curva, soltou o carrinho, impulsionando-o e deixou que deslizasse à deriva, rodopiando e indo tombar do lado de fora da pista, em frente a alguns pés de oitis grassados irregularmente por toda aquela beira. Conforme previu, antes de fazer o seu precário teste, o veículo, fosse mais pesado, por sorte, deslizaria e daria de encontro a uma daquelas árvores, danificando-o de alguma forma e fazendo o dinheiro brotar. Também haveria de acontecer acidentes quase todos os dias e seu bolso só encheria, conforme matutava sem parar, em seu quarto, antes de dormir, na oficina, enquanto limpava as mãos sujas de graxa e na sala de aula, enquanto alguma lição era dada. Enfim, seu empreendimento seria posto em prática. Orgulhava-se de ter tramado e realizado aquele intento, sobretudo porque, pela primeira vez na vida, provaria para si mesmo que era capaz, quando todos diziam que não era, que era burro e que jamais chegaria a lugar nenhum.

Com efeito, antes que sua excitação, sustentada por sua imaginação fértil de criança, fosse procrastinada ainda mais, um carro, ao longe, vinha pela longa estrada que dava em direção à curva recém-untada. Com a agilidade de um felino, ele juntou as latinhas, colocando-as sobre seu carrinho e dirigiu-se para trás de um dos oitis. Ficou ali a esperar, virando-se de costas, pois um estranho sentimento impediu-o de encarar o veículo que chegava. Aqueles segundos intermináveis torturavam-no. O barulho do motor do automóvel elevava-se em seus ouvidos. Uma grande carga de adrenalina fora liberada em seu corpo infantil, quase fazendo com que sua caixa torácica fosse rachada ao meio. Por um instante faltou-lhe o ar. Uma mão invisível parecia estrangular seu pescoço, comprimindo sua laringe. O corpo começou a tremer involuntariamente e a vista, a escurecer. Ouviu o carro perdendo o controle, derrapando, os pneus sendo friccionados, carcomidos pelo asfalto quente e manchado de óleo. O último som que Frederico ouviu foi o do veículo batendo em uma das árvores ao lado da dele, conforme havia previsto. Esticou o pescoço e antes de ser acometido por uma síncope, viu o pai, que jazia sobre o volante, com a cabeça partida ao meio, empapado de sangue.

Até hoje, dizem que a mancha escura daquele lugar jamais pôde ter sido removida.

5 comentários:

  1. Texto gotico, que narra o real e o sobrenatural.
    O menino trouxe desgracas a' familia desde que nascera: primeiro por ser o causador da morte da mae dele ao nascer; segundo,por querer ganhar dinheiro facil, colocando a vida do proprio pai em questao.
    Nao sabemos se o acontecido foi intencional ou nao, mas o fato e' que antes que ele causasse mau a alguma outra pessoa, a assombracao da mae dele veio busca-lo para ensinar-lo boas maneiras de sobreviver melhor, e mais saudavel.

    ES

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  2. Este texto é o retrato do que acontece com a maioria das crianças pobres deste país. Frederico, o personagem principal, é mais uma vítima de uma família desestruturada, de um sistema consumista e de um Estado que negligencia a sua obrigação como gestor público. A nossa cidade está cheia de crianças e de adultos que pensam em ficar ricos da mesma maneira, sem ter trabalho, sem sacrifício; e o resultado desastroso disso, a gente vê todos os dias, nas páginas policiais.

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  3. Nossas crianças possuem maneiras diferentes de pedir socorro. Família e sociedade,quase sempre, não conseguem compreender esse apelo desesperado. Dentro deste contexto eventos desastrosos acontecem e muitos questionam um porquê...."Como assim?", "Mas eu fazia tudo por ele..."
    Como todo ser humano a criança necessita ser escutada de uma maneira mais profunda, precisa que seu pedido de socorro seja interpretado como tal.
    Manchas permanentes, vasos quebrados....certas coisas nunca se refazem.
    Paula Freitas

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  4. Senhoras e senhores... o autor é meu amigo.(risos).
    Estou impressionado. O que me surpreende não é constatar a existência de talentos escondidos mas sim o fato de que muitos de nós não os externamos por não reconhecê-los como tal.
    Parabéns!

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  5. Sádico!
    A cada dia um eu-lírico mais insano...mais subjetivo...mas vc mesmo...rs
    Muito bom.
    Marco

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