
Um pequeno prólogo
Certa feita, o genial e inquietante Bruno Tolentino redarguiu magistralmente – “A história fica mais bem contada como aconteceu ou como deveria ter acontecido? A gente não tem de ser funcionário de uma narrativa piegas”.
I – Do bolo (parte 1)
Naquele sábado quente, ainda antes do sol espreguiçar-se por completo e tomar o seu posto, vovó Luce já estava na feira, em frente à barraca de milho verde, a fim de escolher pessoalmente as melhores espigas para um bolo de milho que planejara fazer.
Assim que chegou à sua casa, preparou-se para colocar a mão na massa, literalmente! Pré-aqueceu o forno, debulhou as espigas, triturou os grãos com água no liquidificador, peneirou-os, juntou-os aos ovos, ao leite, à manteiga, ao coco ralado, bateu mais um pouco, aquele liquido espesso, entre o amarelo desbotado e o creme, e, por fim, adicionou farinha de trigo. Enquanto Dona Luce misturava a massa, com todo carinho e suavidade, fazendo movimentos repetitivos, uma gotícula de suor escorreu-lhe pela face, fazendo uma trilha. E, para finalizar, acrescentou o fermento, assentou a massa em uma fôrma untada e enterrou-a no forno.
II – Do propósito do bolo
A senilidade pode ser uma época muito solitária da vida. Tudo pode ser monótono e acinzentado. A leniência é um estado permanente. As incertezas cessam, de certa forma, em algum ponto atrás, a rotina é pesada e corrosiva. Ninguém parece se importar. Há uma constatação tardia – as pessoas importam mais do que nunca – principalmente quando não estão mais por perto. Pobre vovó Luce, só veio a aprender tudo isso na prática.
Telefonemas alvissareiros chegaram. A velha senhora solitária aguardava visitas, seus dois netos, a única filha, o filho mais novo, o do meio, o outro mais velho; todos viriam desta vez, no feriado. Ninguém aparecia fazia alguns longos meses. “Todos muito atarefados”, dizia para si mesma, soterrada na solitude imposta.
O bolo de milho verde, todos eles gostavam do seu bolo de milho verde, a sua receita especial. Tradição dos Lins. O bolo simbolizava muito mais do que uma simples guloseima, era uma Santa Ceia, a reunião familiar, todos juntos dividindo, compartilhando muito mais do que a comida – afeto, lembranças, saudades, amor familiar.
***
Já fazia trinta minutos que o bolo estava no forno. Um cheiro indescritível deslizava, sorrateiramente, pela casa.
III – Do bolo (parte 2)
Cinquenta minutos depois, o bolo estava pronto. Dona Luce sabia o tempo de forno de cor e salteado. Não precisava de relógio, nem de ficar olhando pelo vidro. Assim como nunca precisou de receita para fazer o seu bolo, tudo era automático. Aquele era o seu território.
O bolo fumegante e corado foi desenterrado do forno. Dona Luce só reparou, realmente, o bolo quando ele estava sobre a bancada. O bolo, pela primeira vez, depois de tantos anos de prática, havia embatumado, não havia crescido, era compacto e irregular.
O fermento, a farinha, as batidas do liquidificador, as mãos reumáticas, o forno, poderia ser qualquer coisa. A velha desesperou-se, pois não havia tempo para outro bolo. Nem mesmo havia mais milho verde. As visitas, seus amados, chegariam a qualquer momento. Pobre vovó Luce, depois de tanto trabalho, tanta consideração, tanto carinho e amor, tudo em vão.
Ninguém veio. Todos desmarcaram. Todos tiveram as suas desculpas.
V – Da vovó
A velha chorou às escondidas, sozinha, na casa vazia.
Um pequeno epílogo
O bolo jazia sobre a bancada, basto, quase maciço, tosco, sem cheiro e, agora, frio.
Nao importa se a “Historia foi contada como aconteceu, ou como deveria ter acontecido,” porque o inesperado pode surgir, a qualquer momento, mudando o enredo da mesma.
ResponderExcluirOu seja, nao coloque as suas perspectivas nas maos dos outros, confie nas suas, porque decepcoes acontecem quando voce espera mais dos outros do que de voce mesmo(a).
Neste caso, tanto o bolo quanto as visitas surpreenderam a “velha senhora,” porque o que era para se tornar significativo, tornou-se decepcao.
ES
É interessante e bastante sigificativa a maneira como transferimos para certos acontecimentos todos as nossas pulsões.
ResponderExcluirOra um bolo, ora um passeio, ora uma roupa; são tantos os empecilhos usados nas tentativas de tentarmos subestimar nossos desejos e consequentes frustrações.
Seria tão mais cômodo se o bolo crescesse, permanecesse quente e nos creditasse incessantes elogios.....
Contudo, em nossa aventura errante necessitamos saber lidar com as frustrações e interdições....E felizmente essa batalha dura toda uma existência.
Dica para Vovó Luce: Tente agora um pudim (rsrsrs).
Paula Freitas
Paula,
ResponderExcluirAdorei a dica que voce deu para a vovo', Luce!
E se o pudim queimar, que tal um arroz com feijao?
Abracos!
ES
Meu amigo, não pare nunca de escrever. Você tem a nobre capacidade de nos surpreender sempre com o melhor. A estratégica desse texto começa com o duplo sentido do bolo. Um bolo no sentido literal de alimento e no sentido metafórico, porque a Luce, apesar de não ter feito o bolo com a perfeição esperada, ela o fez com a intenção de agradar as visitas que tambem lhe deram um bolo.
ResponderExcluirO ideal seria termos mais amor, mais consideração, respeito, e não causássemos tantas frustrações aos nossos velhos. Esse texto é maravilhoso; retrata com perfeição uma dura realidade.
Vieira
Meu Deus, sinestesia pura!
ResponderExcluirParece que senti o bolo adentrando minha mente e as fuças! Deu vontade de comer!
Pobre vovó Luce...em sua cozinha agora fria...tal qual um mausoléu que só as cozinhas das avós esquecidas pode representar....
Quase chorei por ela...em sua solidão...abandonada pela família...
Quem se importará??
Parabéns pelo belíssimo texto.
Marco