
Tudo começou com um simples soneto, um daqueles bem tradicionais, compostos de quatorze versos, arranjados em quatro estâncias e distribuídos, respectivamente, em dois quartetos e dois tercetos. Esse soneto em particular possuía rimas entrelaçadas, emparelhadas e alternadas, não tinha uma métrica definida e sua sonoridade era desconjuntada; tudo isso, por fim, prejudicava a sua leitura e apreciação, tornando-o, no mínimo, degenerado. Apesar dos maus atributos da referida composição poética, Joana, a que recebera o mimo, até por não entender nada disso, achou que o soneto em sua homenagem era um primor e saiu mostrando para todos os seus familiares, amigos, colegas, conhecidos e até inimigos, e também todos os mencionados mostraram aos seus próximos, pois a ignorância de um contaminava quase que instantaneamente o outro, de modo que a obra acabou por ficar famosa, ainda que por certo tempo.
O soneto de Joana chamava-se “Fadado ao pesar” e fora confeccionado, conforme supunham todos, por Baltazar, um admirador da moça. O rapaz, na verdade, muito mais que apenas admirá-la, amava-a profundamente. Joana, contudo, nunca tivera certeza disso, pelo menos até ser presenteada. Ela apenas o tinha como amigo de infância. Além do mais a rapariga já possuía um namorado, ou melhor, um noivo. Também quis o destino que Baltazar fosse afastado de Joana por intermédio de Cláudia, que, apesar de não ser amada pelo moço, teve um filho com ele, de modo que não tardaram a casar, mais por obrigação das peças do que por qualquer outra coisa.
Em uma simples folha de caderno, com letras rebuscadas, lia-se:
Diga-me o que é o amor além da dor:
Sentimento de ícones celestiais?
Falsas juras de laços matrimoniais?
Ou apenas uma farsa do Redentor?
Por que tinhas de ser a escolhida?
Dentre muitas que passam pela vida
O fado haveria de ser pungente
Cravando-te em meu coração e mente.
Antes não estivesses existido.
Antes tu fosses um sonho efêmero.
Antes sumisse com este ser languido.
Trágico epílogo sem saída
Que chora este fardo todos os dias
Preso nas sombras de tua vida.
No verso do papel, na parte central, estava escrito mais objetivamente: “Joana, amo-te profunda e incondicionalmente desde sempre”.
Aquele corpo sem membros seguia de mãos em mãos. Na verdade, seguiam os clones, pois ninguém sabia onde exatamente estava o original, nem mesmo a dona, mas isso não foi um problema; o que realmente importava era que todos aqueles que leram o manuscrito tiraram suas próprias conclusões.
Angra, a melhor amiga de Joana, achava que Baltazar ficou sabendo que Sérgio, atual namorado da rapariga desejada, pedi-la-ia em casamento. Logo, em desespero, o pobre rapaz, vendo a mulher de sua vida esvair-se ainda mais, resolveu revelar o seu amor através do soneto; Júlia, colega de classe de Joana, tinha certeza que Baltazar fizera tudo isso com a intenção de atrair atenções para o seu soneto, que deveria estar inscrito no concurso literário de certa revista; Janaína, vizinha da moça e sua principal oponente, quando teve uma cópia do documento em mãos, não teve dúvida que o soneto era para ela mesma. Tratava-se apenas de um mal entendido. Como a letra de Baltazar era bem esmerada, batendo às portas do exagero, parecia estar escrito “Joana”, quando, na verdade, tratava-se de “Jana”, seu doce apelido íntimo; William, primo de Joana, tinha total certeza que Baltazar estava com alguma doença terminal, que ele ainda haveria de descobrir e, como já não tinha mais nada a perder, “revelou seu segredo”. Esse pensamento era baseado no fato de William ter visto o admirador de sua prima, tomando soro no único hospital da cidade, além do mais a perda de peso do “enfermo” era visível; Estevão, um homossexual assumido, também vizinho de Joana, temia pela vida de Baltazar, pois acreditava fervorosamente que o “pobre diabo apaixonado” cometeria suicídio para imortalizar o soneto e seu amor casto, caso sua amada recusasse-o; Antônio, um angolano, beato incorrigível, que não conhecia nenhum dos envolvidos no caso (até porque nunca estivera no Brasil), e encontrou o soneto em uma página qualquer da internet, pensou que a pessoa que escrevera (pois a página dizia que o autor era desconhecido), era por demais mórbida e profana; e muitos outros intérpretes refletiram ao seu modo.
Baltazar, aonde quer que fosse, era visto com estranheza pelas pessoas que sabiam ou acompanhavam o caso, talvez porque muitas delas jamais tivessem coragem em até mesmo pensar em relevar suas intenções mais esconsas, que se acoitavam sob pudores dissimulados ou mesmo considerassem toda a história piegas e insana demais ou talvez o sentimento amor fosse algo tão distante em suas vidas, que desconsideravam a sua existência, tornando o assunto todo irracional. Quaisquer que fossem os motivos, o rapaz apaixonado era o que mais via todos com assombro, parecendo desconhecer a razão dos olhares alheios de censura. Sua paciência, nos últimos tempos, andava em frangalhos. Ora era um fuxico, com seu nome ao fundo, entoando uma prosa, ora eram dedos acusadores, imputando-lhe obra, além dos olhares repressores. Aquilo era insuportável e precisava findar. Baltazar haveria de conhecer os fatos e descobrir o porquê de sua pessoa ser a cerne de trama tão alienada. Afinal, não havia nenhum crime contra ele, presumia o acusado.
Um dia no qual sua pachorra cessou-se completamente e um anseio picante aturdiu-lhe a alma, Baltazar resolveu confrontar uma rodinha de pessoas desconhecidas que o fitavam com olhares inquietantes.
– Qual é o problema de vocês? Eu fiz alguma coisa errada? Por que me olham assim? – questionou rispidamente.
Uma das garotas do grupo fez resposta com um sorriso irônico:
– Você agora é famoso!
– Famoso! Eu? E o que fiz para ficar famoso?
Dessa vez, um rapaz que estava encostado no muro falou:
– Ué! Você não é o Baltazar?
– Sim, sou eu mesmo! – respondeu resoluto. – De onde me conhecem?
Outra moça, que usava um arco colorido na cabeça, resolveu exprimir-se:
– Ora! Você é conhecido pelo seu famoso soneto, aquele que você fez para sua amada...
– Joana! – atalhou rapidamente o rapaz que já havia falado, antes mesmo que a moça pudesse completar o seu raciocínio.
A revelação que Baltazar tivera era perturbadora e agressiva, como se aquelas pessoas estranhas estivessem invadido seu corpo, lendo sua mente e brincando com seu coração. Tal foi sua perturbação, que se calou instantaneamente e saiu sem ouvir uma última frase, que antecedeu uma explosão de risos histéricos – “doido de pedra”.
Aquele homem aturdido desceu a rua apressadamente. As árvores da calçada pareciam projetar sombras de rostos indecifráveis, que riam com sarcasmo e vigiavam seus passos. Nuvens carregadas vieram, como do nada, à medida que Baltazar perseverava em sua via-sacra, e fizeram as sombras sorridentes cessarem. Pouco tempo depois, um tempo que Baltazar não sabia precisar, uma chuva fina desceu abruptamente e empapou a terra devido à sua insistência. As vestes encharcadas estreitavam-lhe os movimentos, dando-lhe ares de desleixado e bronco. Naquele instante, era apenas um corpo ambulante que seguia. Não havia raciocínio, só um mal-estar pulsante e um instinto que fê-lo caminhar.
Baltazar caminhou até chegar ao lar. Entrou na cozinha e encontrou Cláudia, que estava com olhos lacrimejantes. Ela descascava uma cebola.
– O que você fez? – indagou Baltazar aos gritos, liberando um manancial de sentimentos confusos.
A esposa, como se já esperasse este dia chegar a qualquer tempo, respondeu calmamente, fitando o chão:
– Tenha calma. Eu lhe explicarei tudo.
– Ter calma? – indagou ele com a voz tricotada. – Você é a única pessoa que sabia que eu amava e amo Joana. Eu nunca escondi isso de você!
– É verdade – ratificou Cláudia, tentando passar uma tranqüilidade inverossímil ao marido. – Você sempre foi honesto comigo. Eu... Há coisas que você deve saber.
– O que eu devo saber? – gritou ele ainda mais. – Que você escreveu um... um poema em meu nome e resolveu mostrar para todo mundo para que eu fosse zombado, humilhado pelas costas?
– Foi um soneto, Baltazar. Eu escrevi um soneto.
A voz de Cláudia agora era tremulante. Os músculos de seu corpo moviam-se involuntariamente. Uma estranheza que começou em seu estômago subiu e, quando atingiu sua garganta, ela chorou copiosamente, deixando um resquício de serenidade ir embora.
– Mas não, não foi em seu nome e nem eu quis contar a todos que você a ama. Não foi a minha intenção – disse ela entre soluços.
– O que está dizendo? Fale, pelo amor de Deus!
– Baltazar, eu não sei precisar exatamente como as pessoas inferiram que foi você que escreveu o soneto. Isso eu não posso explicar. Também não sei como isso se espalhou. – Nesse instante, Cláudia teve de fazer muita força para que sua voz não desaparecesse. – Contudo, eu posso dizer a razão pela qual escrevi o soneto e enviei para Joana.
– Então diga de uma vez por todas, mulher!
Cláudia tocou as pernas, que já começavam a faltar-lhe. Sua respiração aumentou nitidamente e um suor frio desceu-lhe pela testa. Sentiu os lábios ressecados. Um gosto de fel nas profundezas da boca amargava-lhe a alma. Os músculos da face repuxavam-lhe, deformando seu rosto rústico. Apesar disso, ela recolheu os fragmentos de brio do cerne para dizer o que sempre procrastinou:
– Não é só você que é infeliz, devido às circunstâncias... e que a ama. – Deixou sair enfim.
Baltazar olhava atônito para Cláudia, sentindo um complexo misto de desonra e admiração. Aquela mulher baixinha de cabelos curtos muito negros, com mechas matizadas de dourado, não obstante o estado pusilânime em que se encontrava, parecia, naquele momento, ter o tamanho colossal de Rodes.
– Amo-a há muito tempo! – continuou ela, com a voz talhada e rouca. – Desde os tempos que estudávamos juntos, eu, você, Joana... Foi também quando descobri que seria infeliz para todo o sempre... – hesitou. Suas pálpebras umidificadas eram profundos poços de angústia. – Talvez as pessoas tenham ligado o soneto a você, porque se lembraram daquela época... Apesar de você realmente nunca ter revelado o seu amor, você há de recordar-se que vivia no encalço dela e suas ações denunciavam-no, de modo que todos percebiam, pelo menos, a sua paixão.
– Mas éramos muito jovens! – retrucou o marido, quebrando seu silêncio.
– Algumas coisas são permanecem...
– Engraçado! Eu deveria estar me sentindo o pior dos homens, mas, neste exato instante, não estou. – confessou, admirando-a ainda mais.
– Talvez, porque esteja, inconscientemente, comparado o seu amor improvável com o meu, que é impossível.
E por um instante, ambos fitaram-se, um enxergando claramente a dor do outro, e ambos permitiram-se sorrir...
Anos depois, é preciso dizer que o soneto foi esquecido por quase todos, com exceção de sua criadora e do pseudoautor, que continuavam casados, unidos por um grande amor, um amor maior, daqueles que só existem no papel.
Que reviravolta!!!!!!
ResponderExcluirSegredos por vezes se desfazem pelas próprias mãos de seus autores. Sentimentos existem para se externalizarem..... Por maior que seja a repressão, de algum modo tudo vem a tona e, desta maneira, a opressão pode converter-se em alívio.
Abaixo a repressão!!!!! (rsrsrs)
Paula Freitas
Meu amigo! Fiquei sem palavras. Sou obrigado a confessar: desta vez você se superou; foi além do que eu podia imaginar, dessa sua capacidade criadora. O texto está lindo, e mais lindo ainda, ficou o soneto. O soneto ficou tão bonito, que chega desmentir a narrativa desqualificante do autor.Através deste texto vc conseguiu arrancar a casca da ferida e mostrar sentimentos inconfessáveis. Na verdade, o que o seu texto quis dizer nas entrelinhas, é que o nosso sentimento abdica da liberdade, sacrifica a felicidade, para não pôr em risco interesses bem maiores. Aqueles interesses que nos mantém refem deles, no dia-dia.
ResponderExcluirQuero lhe dar os parabens por mais esta obra prima!
Vieira.
O soneto “ Fadado ao Pesar, ” descreve o sofrimento do amor oprimido e nao correspondido entre os personagens, talvez porque os sentimentos nao foram revelados a’ pessoa amada.
ResponderExcluirO texto, tambem relata os casamentos que acontecem sem amor, que sao mantidos por acomodacoes, ou obrigacoes , colocando em interrogacao, o que realmente seria o amor.
Joana, tambem, deveria ter tido os seus segredos, e se soubesse do triangulo amoroso, poderia ter agido de forma diferente, em relacao aos sentimentos “dos amigos.”
Se os sentimentos amorosos fossem expostos entre eles, poderiam ter amenizado os sofrimentos dos mesmos, independente de ficarem juntos, ou nao.
ES