
Era um dia quente de primavera, um domingo ensolarado de céu límpido na praia de M. A areia abrasadora cintilava sob os pés da multidão. Um cheiro forte de maresia, peroá e batata frita mesclavam-se no ar, espalhando-se aos poucos por todo o ambiente, devido ao vento forte daquela manhã. Na imensidão do horizonte azul, bem ao longe, dois navios ancorados esperavam autorização para dirigirem-se à baía da cidade e descarregar seus contêineres no porto. Um pouco mais perto da margem, um jet-ski cortava velozmente a água, em ziguezague, e, de tempos em tempos, uma lancha passava, puxando uma banana boat com adolescentes em cima, soltando gritos histéricos que ecoavam; já na parte de terra firme da orla, eram poucos os banhistas que se arriscavam a entrar naquela água fria, apesar do calor; a grande maioria preferia ficar exposta ao sol, deitada em cadeiras, cangas e esteiras, e outros tantos preferiam recolher-se às sombras dos quiosques, decorados por diversos tipos de castanheiras, pinheiros e alguns poucos coqueiros. A maré ainda estava baixa e a água salgada vinha calmamente deslizando por entre os seixos, trazendo consigo diversos tipos de peixinhos, moluscos e crustáceos. As crianças observavam encantadas e eufóricas aquele espetáculo da natureza, e logo já estavam entre os calhaus irregulares com suas pás e baldes de plástico. E era naquele cenário tropical, exatamente no quiosque Marlim Azul, que Aya esperava ansiosamente pelo seu encontro.
Uma sucessão de relacionamentos desastrosos e, por conseqüência, um profundo sentimento de fracasso, misturado com certo desespero levaram Aya Tanaka, uma linda sansei, a fazer o que nunca havia sequer suposto antes – ter um encontro às escuras. Anos atrás, ela jamais teria feito isso, nem qualquer outra coisa do gênero. Esta neta de japoneses era uma linda mulher - tinha olhos negros reluzentes, que mais pareciam duas pérolas expostas aos raios solares; sua pele alva era como uma fina porcelana, cativante aos olhos; o cabelo negro e lustroso escorria-lhe por sobre os bustos e tocava-lhe levemente a cintura fina, e uma franja que seguia até a altura das pálpebras superiores, dava-lhe ares de menina moça ao seu rosto bem delineado. A verdade é que, apesar de sua aparência jovial, ela já havia alcançado os trinta anos. Era exatamente devido a essa idade em que seu desespero consistia.
Trinta anos era um período considerável para aquela bela descendente de japoneses. Durante esse período, ela havia visto todos os avôs, o irmão mais velho e o pai serem tragados pela terra. Só a mãe e a irmã do meio foram poupadas. O tempo, conforme ela sempre ouvia, funcionava sempre como um curativo natural, mas, para ela, ele era o causador de seus males. Quanto mais curta sua vida ficava, mais cicatrizes ela ganhava. Porém, as suas feridas mais dolorosas não provinham da ida dos entes queridos, e sim das desilusões amorosas que vinha colecionando. É evidente que Aya amava os membros de sua família que se foram e que também sentia a dor da ausência que cada um representava em sua vida, mas a destreza que sempre tivera para lidar com isso, transformando o sentimento de perda em reminiscências doces, parecia expirar no que tangia ao amor. Em relação ao coração, tudo era mais complicado.
Aya não tinha dúvidas. O culpado de seus inúmeros fracassos amorosos era a sua herança genética. A frieza oriental, por vezes, incapaz de exteriorizar sentimentos aparentes, não era bem interpretada por seus amantes latinos. “Tudo bem”, era o que ela costumava replicar, simplesmente, quando seus parceiros terminavam de fazer seus monólogos, acabando assim o relacionamento. A cena derradeira era sempre a mesma – as costas da pessoa que gostava desaparecendo e lágrimas reprimidas finalmente liberadas em um manancial de dor solitária. Depois, ela ficava em um canto, pensando sobre os motivos que a levaram ao fracasso e, apesar de quase todos eles serem sempre indistintos e até certo ponto ilógicos, ela concluía, atolada em confusões mentais, que seus caracteres hereditários eram os verdadeiros e únicos motivos.
A vida era assim mesmo e ela, lúcida, tinha tal consciência. As pessoas passavam pela vida e sumiam como fantasmas. Mas ela, ela ficava. Alguns deixavam marcas outros não. Não havia padrões nem uma lógica aparente para definir os escolhidos pelo seu coração, acontecia e pronto. Quando ela parecia acordar de um sonho, o perfeito começo de um relacionamento, a realidade vinha à tona – o estrago já havia sido efeito – ela já estava completamente apaixonada e, talvez, até amando.
Dentre os vários homens que passaram por sua vida, houve um em especial que deixou uma marca profunda no coração de Aya, sobretudo porque foi com ele que ela aprendeu o que era a doçura do amor e suas amarguras recônditas. De Marcelo, Aya lembrava-se com carinho e profunda dor. Ali, sentada em um precário banco de madeira desconfortável do quiosque, ela olhava o mar vindo cobrir e descobrir a areia, ora com gentileza ora com veemência. Então sua memória foi avivada.
O dia no qual Marcelo a pedira em casamento foi perfeito. Nesse dia, Aya ainda contava com vinte e cinco anos. Ele a levou para as montanhas, em um ambiente maravilhosamente bucólico. Os dois sentaram-se sobre uma relva alta, em meio a um descampado e ficaram a contemplar o que a natureza oferecia-lhes de bom grado. Aya recostou-se sobre o colo de Marcelo e entrelaçou-se em seus braços, deixando-se ser protegida e amada. Em pouco tempo de uma espécie de meditação, seus sentidos foram aguçados. Eles aflaram a fragrância da mata virgem; ouviram perfeitamente o som cadencioso do cantar dos pássaros; o trilar dos grilos; o zumbido das cigarras e dos insetos; observaram o vento frio desfilando por entre os galhos das árvores, fazendo-os balançarem para todos os lados e, de tempos em tempos, ele cortava seus corpos, proporcionando-lhes um calafrio brando; o sol cintilava com todo o seu fulgor, em um céu límpido, apalpando suas peles; o corpo dele por de trás do dela, aquecendo-a. Não houve palavra entre os dois naquele momento, e nem mesmo era necessário. Havia uma dádiva muito maior, uma troca de energia intensa e poderosa, e ambos eram alimentados por essa força. De repente, ela virou-se para trás e cravou seus olhos negros nos olhos amendoados de Marcelo. O tempo parou naquele instante. Não havia mais som nem espaço, havia um vácuo. Nada mais era, nada mais importava. Tudo que conheciam, tudo que haviam aprendido foi ignorado naquele momento. A sensatez deu lugar a um instinto quase animal. Seus lábios umedecidos se tocaram levemente, suas línguas desgovernadas abriram caminho por entre aquelas grutas obtusas e tocaram-se em um frenesi incontido. Um desejo ardente tomou conta de seus corpos, de seus seres e eles entregaram-se a uma paixão desmedida... Apesar de aquele descampado ser um lugar remoto, um plantador de café que colhia grãos no alto do morro, observava com excitação, por entre as plantas, um homem por sobre uma mulher que gemia de prazer, no solo lá em baixo.
Quase três meses após aquele dia extraordinário, de súbito, Marcelo terminou tudo, alegando não estar preparado para levar adiante aquele compromisso, pois tudo exigia mais do que ele podia dar e, por fim, isentou-a de qualquer culpa. Foi a última vez que eles viram-se. Aya perdera sua vida naquele momento.
Umas duas horas já havia se passado desde que Aya chegara para o encontro. Na verdade não havia atraso de ninguém, mas sim adiantamento por parte dela, muito por culpa de sua ansiedade. O sol dirigia-se calmamente para o oeste. Algumas pessoas já haviam partido e muitas outras chegaram, de modo que a praia não ficava vazia nunca. Cada pequeno espaço era disputado. Uma senhora rechonchuda que usava um boné preto desbotado passava com dificuldade por entre as pessoas, vendendo queijo quente. Consigo, ela trazia uma lata grande de tinta, cortada na lateral, que servia como uma pequenina churrasqueira. No fundo da lata havia carvão em brasa pronto para aquecer o queijo fincado no palito. De vez em quando, alguém a chamava, ela colocava a lata na areia, retirava um papelote do bolso e abanava sua grelha rústica. Logo o carvão ardia, fazendo com que uma pequena chama subisse e derretesse levemente o queijo que ela colocava na parte de cima. Mais ao lado, um homem de pele queimada arrastava um carrinho de sorvete. Vez ou outra, ele gritava com impetuosidade – “Olha o picolé! Quem quer picolé?”. Um pouco ao longe, um homem de aspecto emporcalhado carregava uma bandeja branca com palitinhos de camarão e frango fritos. Sua pele era lustrosa e seu cabelo ensebado, como se tivesse tomado um banho de óleo ou banha de porco. E a extremidade de suas unhas das mãos não eram menos sujas. Contudo, apesar de possuir dentes putrefatos e amarelados, seu sorriso era espontâneo e o seu olhar era meigo. Os quitutes de seu tabuleiro estavam quase no fim.
Aya observava as mudanças camaleônicas que a água do mar apresentava. Desde que chegou, ela pôde ver algumas tonalidades de verde, azul e cinza. Agora uma parte do mar possuía um aspecto de verde desbotado, a parte que ela olhava fixamente, excluindo todo o resto. Começou a pensar na capacidade que as pessoas tinham em mensurar o sofrimento de outrem e rejeitar tudo aquilo que não lhes interessava. “As pessoas analisam as outras como se pudessem compreender a si mesmas, negligenciando a realidade alheia e exaltando a falsidade particular”, refletiu ela. Ela agora mirava os rostos felizes das pessoas que se divertiam na orla. Para onde quer que se olhasse, ela via o contentamento abraçando as pessoas. Se aquele era realmente um ambiente feliz, onde estava a sua parte da felicidade? Qual parte cabia-lhe naquele latifúndio? Talvez nada mais lhe pertencesse, talvez estivesse no lugar errado ou mesmo não fizesse mais parte daquele mundo. O certo era que ninguém havia reparado que uma profunda melancolia jazia em Aya. Ninguém era solidário. As pessoas deixavam-se levar pela beleza da praia e não viam os problemas ao seu redor. As mazelas mundanas estavam todas lá, mas eram invisíveis naquele momento.
Assim como uma inexorável erupção vulcânica, Aya não conteve o pranto que irrompeu de seus olhos e, assim, copiosamente, chorou. Suas lágrimas desceram, inundando suas desgraças. Uma dor aguda tomou conta de seu corpo frágil. A dor foi de tal intensidade que ela caiu na areia, na posição de um quadrúpede, e começou a gritar de maneira descontrolada. Suas duas mãos apoiavam-se sobre a areia fofa. Com um gesto maquinal, uma das mãos tremulantes tomou a areia e a espremeu, fazendo os grãos escorrem para o lugar de origem. Por mais que repetisse o mesmo gesto diversas vezes, os grãos continuavam a desaparecer de sua mão e misturar-se aos da praia. Ela entendeu que nada mais era retido por ela e que realmente não pertencia mais àquele lugar. E então sua ansiedade cessou-se e Aya teve o seu esperado encontro.
Terá Aya deparado-se com um provável parceiro que novamente aguçará todos os seus conflitos?
ResponderExcluirTerá Aya confrontado-se e aceitado sua condição humana; suas neuroses, suas dúvidas e inquietações?
Ou, fazendo ainda uma análise mais dramática,o fim de sua ansiedade deveu-se ao findar de sua vida?
Várias leituras me são possíveis, visto que a instigante natureza humana tanto nos aflora a imaginação.
Por fim, "Neuróticos, graças a Deus"!
Paula Freitas
Paula
Antes de tudo, quero dizer que não sei se mereço tanto, mas agradeço ao amigo, pelo elogio eloqüente que fez a ultima poesia que foi publicada. Quanto ao seu texto, rendo elogios a sua incrível capacidade de descrever com tanta riqueza detalhe. A respeito da Aya, não tenho muito a dizer. Afirmo apenas, que ela foi feliz sim; ela só não conseguiu suportar os intervalos em que a felicidade tirou para descansar. E o desespero a fez partir para esse encontro, que particularmente, eu o chamo de encontro do encerramento do caos.
ResponderExcluirO texto descreve detalhes a respeito das praias, das etnias brasileiras e dos “amores” mal resolvidos da personagem.
ResponderExcluirNa realidade nao sao os amores mal resolvidos, a heranca genetica desfavoravel, ou a frieza horiental que prejucaram Aya, e sim, a falta da alta estima que a levou ao caos.
Nem mesmo “Marcelo”, o inesquecivel da mesma, conseguiu firmar o compromisso com ela, alegando que “o compromisso exigia mais do que ele podia dar.” Deixando claro que ela buscava felicidade atraves dele, e nao atraves de si mesma.
Colocar perspectivas de felicidade nas maos dos outros e’ pura vaidade, ironia, pois a felicidade e’ interna e nos mesmos temos que ir ao encontro dela.
Aya deveria procurar alternativas independentes na vida dela - como estudar, ter uma carreira profissional promissora…, assim sendo, os amores tambem poderiam ser duradouros, felizes e bem resolvidos.
Mas como dizia Camoes. “Que seja eterno enquanto dure,” ela pelo menos conseguiu ter boas lembrancas de um deles; entao, nao foi tao mal assim.
O proximo encontro, com certeza sera bem melhor do que o que ela teve com o “Marcelo”, e lembrara somente de coisas positivas em relacao ao amor.
Abracos!
ES
É uma droga ter um pedacinho de Aya dentro de mim...
ResponderExcluirSeu texto ficou muito bom, principalmente a parte em que se descreve o fisico da protagonista. Eu consegui ver como ela é =).
Adoro o seu blog, apenas acho que você deveria escrever mais. Seus textos são deliciosos ;)
Ei, nao achei seu email, entao vai por aqui o meu blog, nele tem o link para o livro http://estranhanomeuproprioeu.wordpress.com/
ResponderExcluirAh sim, como te disse, identifiquei-me demais com essa história...