
Adriano estava trabalhando em seu computador quando um apagão ocorreu já no crepúsculo. Ele estava sozinho em casa. Como teria de entregar um projeto arquitetônico no outro dia, que protelara sua finalização durante meses, pediu que a mulher levasse as crianças ao shopping. Concentrado no trabalho, sentiu sua mão ainda mexendo no mouse, continuando seu ofício mesmo no breu que havia sobreposto tudo. Então parou. Passou a mão no rosto, respirou fundo e riu de si mesmo. Ouviu o som de crianças fazendo algazarra na rua. Alguém chamava ao longe. Vaias e gritos histéricos aqui e ali. Minutos depois a Terra emudeceu-se.
Pensou em sua família, que talvez estivesse em algum lugar lá fora em meio à escuridão. Levantou-se da escrivaninha donde se encontrava há mais de três horas e foi tateando a parede até chegar à mesa central da sala, exatamente onde estava seu celular. Pegou a carteira, não era o celular; pegou a capa de plástico dos óculos, também ainda não era; por fim, alcançou o celular. Ao fazer a ligação para mulher, constatou que o mesmo estava inoperante. Tateou a parede mais um pouco, dirigindo-se à direita e tentou fazer a mesma ligação pelo telefone fixo. Surpresa! O telefone celular da esposa também não funcionava. Parou um momento para pensar no que poderia ou não fazer. Na verdade, não podia fazer nada, a não ser esperar. A esposa estava com o carro; o shopping era relativamente longe; estabelecer contato, naquele momento, era impossível; voltar as suas tarefas, sem energia, não tinha como. Portanto, ficou ali em pé, estagnado, esperando algo, talvez, a luz voltar. As pupilas estavam sendo dilatadas vagorasamente e, portanto, ainda não se enxergava quase nada. Dirigiu-se cuidadosamente até a janela para olhar lá fora. Avistou pequenos pontos de luz em outras casas, o que o fez lembrar que também possuía vela e lanterna. A vela estava em algum lugar na despensa, disso ele sabia. Apressou-se para lá e realmente encontrou-a. O fósforo estava em uma pequena prateleira ao lado do fogão. Pegou a caixinha e abriu. Estava vazia! Nenhum só fósforo. “Para que vela se não há como acender?”, indagou-se. Livrou-se da vela e deslocou-se para o quarto a fim de encontrar a lanterna. Lembrou que ela geralmente ficava na gaveta de “entulhos”, conforme a família havia batizado. Abriu a gaveta e bem lá no fundo estava ela. Pressionou o botão, mas a luz hesitou em aparecer. Chacoalhou-a no ar, bateu-a nas mãos e pressionou-a novamente. Uma luz mortiça apareceu dessa vez e logo se esvaneceu. Jogou-a contra a parede com toda força e ela espatifou-se. Apertou as mãos com raiva e, segundos depois, pôs-se a gargalhar sem parar. Como não havia mais absolutamente nada para fazer, sentou-se sobre a cama. Ficou ali parado na escuridão. “Quem sabe a luz já chegou”, ponderou e pressionou o interruptor. Nada. Apenas um estalo no ar. E continuou ali sentado a pensar.
Adriano analisou a importância da eletricidade e como havia pessoas no mundo ainda hoje sem energia elétrica. Achava simplesmente inconcebível. “E além do mais o que há para se fazer quando não se enxerga o mundo ao redor?”, perguntou para si mesmo. Riu com uma possível resposta que veio a sua cabeça na mesma hora. Mas o certo é que estava perdendo um tempo importante ali parado. Mas que tempo era esse? Não sabia quanto tempo havia passado desde que a luz se fora. Percebeu que havia perdido a noção. O relógio elétrico da cabeceira, não poderia tirar sua dúvida; o de pulso estava em algum lugar da casa, mas não sabia onde e, no escuro, não acharia nunca. “O jeito é esperar essa droga de luz voltar”, gritou. Começou a ficar mais e mais agitado porque não havia nada no escuro, apenas seus pensamentos e o que realmente importava para ele era a ação, o trabalho em si. Ele parado não tinha nenhuma utilidade e nem mesmo era ninguém, até porque ninguém o via. Assim, sentiu-se um nada, um vazio, como a própria escuridão.
Agora, com as retinas ajustadas totalmente à falta de luz, ele via com relativa perfeição. Relaxado e envolto por um manto negro e silencioso, lembrou-se de como, anos atrás, seu primogênito tinha medo do escuro. Era preciso deitar-se com o filho e narrar-lhe algumas das mais belas histórias de Charles Perralt, irmãos Grimm, Hans Christian Andersen, Oscar Wilde e Monteiro Lobato. E era nas trevas que aproveitava o curto espaço de tempo que tinha com a mulher que amava, ora apenas conversando, ora cedendo a infindáveis desejos ardentes. E lembrou-se que também na escuridão, resolvia muito de seus problemas, ao encontrar soluções antes impensáveis. Sobretudo, na penumbra, encontrava-se consigo para ouvir sua voz interior e aprender um pouco mais com aquele que habitava seu corpo. Então começou a pensar que talvez a escuridão e tudo concernente a ela, como a quietude, a inércia, a pouca visão que se tem de tudo ao redor, fossem necessários em certos momentos.
Subitamente, como um relâmpago, quebrando sua concentração, a eletricidade voltou por toda casa, com força total, assim como o barulho lá fora. Gritos de comemoração dos vizinhos eram ouvidos por toda a rua. Formou-se um clarão no recinto, devido o interruptor ter sido deixado ligado, ofuscando sua visão, e, por um instante, ele teve de cerrar as pálpebras para melhor enxergar.
Mais uma vez,meu amigo, o seu texto nos leva a uma profunda reflexão sobre o que é realidade e temporalidade. Pois, se pensarmos bem, há uma ilusão da existencia de tudo. a própria luz branca, para que ela seja realmente branca, é preciso que todas as cores se submetam a invisibilidade. E é a concentração do invisível que cria o branco e nos mostra o mundo.
ResponderExcluirE deste texto, a conclusão que se chega, é que Adriano estava tão bem adaptado a ilusão das coisas, que entrou em pânico, diante da realidade. Digo realidade, porque a noite é real.
Adriano deparou-se de forma inesperada com a introspecção. A escuridão forçou-o a refletir sobre questões interiores; tudo isto dentro de um universo que nos ocupa tanto com questões exteriores.
ResponderExcluirSaber tirar proveito de tudo que nos é ofertado é digno de poucos!
Paula Freitas
Seu texto me fez pensar em uma música - não sei se você curte (mas com certeza já ouviu falar) - do O Rappa: "O que sobrou do céu"....
ResponderExcluir(...)
Faltou luz mas era dia, o sol invadiu a sala
Fez da TV um espelho refletindo o que a gente esquecia
(...)
O som das crianças brincando nas ruas
Como se fosse um quintal
A cerveja gelada na esquina
Como se espantasse o mal
O chá pra curar esta azia
Um bom chá pra curar esta azia
Todas as ciências de baixa tecnologia
Todas as cores escondidas nas nuvens da rotina
Pra gente ver... por entre prédios e nós...
Pra gente ver... o que sobrou do céu...
O texto narra a instabilidade entre a percepcao concreta e abstrata do ser humano.
ResponderExcluirTambem descreve que em amblas as partes encontram-se coisas positivas e negativas, dependendo da “imaginario” e do “real” de cada um.
Ao mesmo tempo que Adriano sentiu-se vazio diante da falta da eletricidade,o mesmo sentiu-se completo com as boas lembrancas que a escuridao lhe proporcionou.
Ele tirou vantagem dos dois lados, e sobre ambos refletiu. Percebeu,tambem, que mesmo na escuridao boas coisas acontecem.
Na “falta de luz, ou na claridade, no real, ou no imaginario” ha sempre uma maneira concreta e abstrata de enxergarmos o mundo ao nosso redor.
Melhor ainda, e’ podermos enxergar mesmo diante dos olhos fechados. O resultado positivo, ou negativo dependera de como saberemos observar os dois lados da mesma moeda.
PS. No mais, espero que Adriano tenha recuperado e entregado, no dia seguinte, “ o projeto arquitetonico”, ao contrario, teria que improvisar um “novo projeto.”
ES