sexta-feira, 25 de março de 2011

Nas entrelinhas (Carlos Eduardo F. M.)



“Embora vigies, a morte conspira nas entrelinhas” - Alcides Buss

As questões desenrolaram-se devido a dois fatores intrínsecos e, no entanto, contrários, um em consequência do outro. O primeiro foi de caráter empírico, uma leitura baseada na vivência de um professor de literatura. O segundo, de caráter científico, o tão propalado binômio da física – a Terceira Lei de Newton, ou seja, a Lei da Ação e Reação. Eis tudo:

Antônio já desconfiava que houvesse algo de errado, portanto, parafraseando, Marcellus, disse, com propriedade, à Jonas, seu melhor amigo:

– "Há algo de podre no reino da Dinamarca".

– Shakespeare, não é? – interpelou Jonas.

– Exatamente, meu caro. Foi no ponto certo. Muito obrigado por ter vindo, eu precisava desabafar. Faz tempo que não nos vemos, hein?

– Sim, de fato. Ando muito ocupado; aliás, nós dois, pelo que consta... Contudo, quando você me ligou e começou a falar, eu fiquei preocupado e não pude deixar de vir... Mas, indo direto ao assunto, você acha que é isso mesmo que comentou pelo telefone?

– Eu não tenho dúvida, meu amigo. Onde há fumaça, há fogo – replicou. Antônio calou-se. Afastou um pouco, deu alguns passos, alcançou a janela, puxou a cortina e fixou os olhos na rua lá em baixo.

Depois de certo hiato, Jonas cedeu:

–Antônio, talvez tenha sido um engano, como aquela história de Machado de Assis...

– Dom Casmurro – emendou de supetão. – Seja como for, na ficção ou na realidade, no final da narrativa, sempre há desgosto, múltiplas interpretações, o que gera incertezas e, sempre que possível, uma pintada de tragédia, Jonas.

– Eu quero dizer, meu amigo, que é a sua visão dos fatos e não necessariamente a verdade.

– Bem, há de ser sempre a visão de alguém. A questão é que o problema é tão somente meu, ela é minha mulher!

– O problema é nosso, certamente. Um afeta o outro. Tudo está relacionado. É a famosa visão holística. Estamos juntos, irmão – filosofou Jonas. E emendou – Mas o que pretendo saber é o que o levou a pensar que ela está te traindo?

– Ora! Não está na cara? Por exemplo, onde está ela agora? Já faz duas horas que ela saiu do trabalho. E olha que isso anda acontecendo sempre.

– “Sempre” desde quando?

– Não sei ao certo quando percebi. Cerca de um mês, sei lá...

Houve outra pausa, uma um pouco mais longa. Dessa vez, porém, foi Antônio que cedeu:

– A verdade é que eu tenho culpa também. Eu a deixei de lado. Fui relapso em nossa relação. Negligenciei o nosso tempo juntos.

– Em um relacionamento a culpa é mútua. Não há remédio. Uma coisa leva a outra. Um círculo vicioso logo se forma. Fica difícil dizer quem ou quando começou. Enfim, somos todos culpados.

– Estou apenas sendo realista. Mas isso não dá o direito dela me trair.

– Veja bem, diga-me, o que há de concreto em suas desconfianças?

– Bem, fora os atrasos já mencionados, há também a indiferença e a frieza. Falamo-nos pouco e quase não temos mais vida sexual. Não tenho forças para mudar o quadro instaurado, entende?

– Só isso?

– E acha pouco?

– De fato, tudo que você falou são problemas que mostram que o seu casamento está desgastado, mas, sinceramente, não vejo nada de concreto. Você e Li amavam-se... Eu mesmo já passei por isso tudo, não lembra?

– Lembro-me muito bem, principalmente da parte do divórcio e o fato de Amanda ter se casado com outro.

– Espera aí! Você está desvirtuando tudo. O casamento acaba quando o amor acaba. O desquite e outro casamento da minha ex-esposa são consequências apenas. De qualquer forma, eu e ela estamos quites – não é só ela que ama outra pessoa.

– Eu bem sei, meu amigo, perdoe-me – disse Antônio visivelmente consternado e constrangido.

– Estou aqui apenas fazendo papel de amigo.

– Sim. Ossos do ofício, como dizem – e deixou-se rir por um instante, abraçando Jonas calorosamente.

Já passava das oito horas quando Lídia chegou. Antônio e Jonas conversavam, agora, sentados à mesa. Os dois dissimularam a prosa estabelecida desde o começo. Antônio encarou Lidia, o outro a olhou de soslaio e abaixou a cabeça. Lidia esboçou cumprimentar ambos, mas acabou passando direto pela sala, dirigindo-se para o quarto. Jonas logo se ergueu e se encaminhou em direção à saída:

– Antônio, converse com ela. Tente não julgar. Repito: não vejo nada de concreto! Ela também pode não estar encontrando uma maneira de quebrar esta barreira que se formou entre vocês e, exatamente por isso, foge. Ela Pode estar passando o tempo na casa da mãe, fazendo hora no shopping, na casa de uma amiga... – e dizendo isso, seguiu pelo corredor, virou à esquerda e desceu as escadas.

Antônio, naquela noite, não teve coragem de trocar palavra com a mulher. Ficou na sala, receoso e pensativo. Protelou a sua ida ao quarto, de modo que quando lá chegasse, Lídia já estivesse dormindo. Com efeito, após algum tempo, quando ele foi se deitar, Lídia havia caído em sono profundo. A insônia, no entanto, veio abraçar Antônio e o estrangulou, murmurando-lhe conjecturas ao ouvido. A dúvida infligia-o, dilacerando a sua paz interior. “Deus! Há uma traição em curso bem debaixo do meu nariz...”, pensou.

De repente, após alguns minutos, sobre o manto da escuridão, Antônio pôs-se de pé e falou baixinho:

– Como eu não percebi antes! – exclamou. E um turbilhão de frases soltas, frases do amigo Jonas, vieram como flechadas em sua carne: “Ando muito ocupado”, “...quando você me ligou e começou a falar, eu fiquei preocupado e não pude deixar de vir”, “O problema é nosso, certamente. Um afeta o outro. Tudo está relacionado”, “Estamos juntos, irmão”, “Uma coisa leva a outra... Somos todos culpados”, “...Li...”, “Eu e ela estamos quites – não é só ela que ama outra pessoa”, “Estou aqui apenas fazendo papel de amigo” e outras frases ainda. Tudo fez sentido para Antônio então. Por trás do texto do amigo, havia preocupação, culpa, ironia, sarcasmo, intimidade, ciência e, principalmente, confissão inconsciente. Estava tudo ali exposto para quem quisesse ver e entender.

Em um ataque de fúria incontrolável, Antônio tomou o travesseiro e pressionou contra a face de Lídia. Asfixiando-se, a mulher rebatia-se em desespero, tentando se livrar do objeto que a impedia de enviar ar aos pulmões, em vão. Cerca de dois minutos depois, Lídia cessou os movimentos. Antônio, estupefato com o que havia acabo de fazer, retirou o travesseiro e pôde realmente constatar que a mulher não mais respirava. Em resignação, ele se debruçou sobre o cadáver, chorando copiosamente; no entanto, não conseguia sentir remorso, apenas raiva. Sentia-se também enganado, traído duplamente. A esposa e o melhor amigo. Um clichê, um clássico perverso. Nada poderia causar-lhe mais dor.

As horas passavam em uma morosidade insistente, era madrugada. Antônio, deitado ao lado do corpo, pensava na ironia da vida. No dia anterior, ele dera uma aula sobre “A cartomante”. Explicara aos alunos sobre o triângulo amoroso composto por Vilela, Rita e Camilo, a paixão, o adultério, a traição do amigo e a tragédia. Comentou sobre o estilo machadiano de fazer insinuações e ironias, brincando com as palavras, esculpindo frases perfeitas, que davam margem às inúmeras interpretações. Completou deixando claro que o leitor haveria de ser crítico e atento em tempo integral para alcançar a genialidade de Machado de Assis. Por último, ainda havia feito um link com o clássico de Flaubert – Madame Bovary. Ele explanou que, apesar do tema deste romance ser a sociedade burguesa da época, o adultério permeava toda a obra e era a “arma” de afrontamento social, o passaporte de liberdade e felicidade da personagem principal. Antônio se colocaria a rir se alguém tivesse dito que ele se reencontraria com a mesma temática, tendo que fazer uma releitura, em menos de vinte quatro horas, só que em sua própria vida dessa vez, sendo ele, a esposa e o melhor amigo vértices de um triângulo maldito. Foi preciso perícia, concluiu Antônio, para ler nas entrelinhas do texto do melhor amigo, decifrar, quebrar o código imposto pelo traidor. Lídia, como Rita e Ema Bovary, já havia pagado pelo seu crime; faltava, agora, Jonas. E não tardaria, ainda na parte da manhã, a acontecer o outro assassinato, isso Antônio já havia decidido.

As primeiras horas matutinas vieram impregnadas de ansiedade, com nódoas irreparáveis. Antônio permanecia ali ao lado do cadáver, admirando-a, à medida que passava a mão suavemente nos cabelos lisos e loiros dela. Quando o ponteiro pequeno do relógio de cabeceira atingiu o número nove e o grande, o doze, Antônio retirou o celular do bolso e ligou para Jonas:

– Bom dia, meu caro. Eu te acordei? Não? Certo. Olhe, tudo está resolvido. Venha até aqui agora. Prometo não tomar seu tempo... Tudo bem, eu vou esperar então – sua voz dissimulada era pausada e cava. Com uma ansiedade visceral, desligou o celular e olhou para o teto. Um sorriso demoníaco preencheu seus lábios.

Com efeito, cerca de meia hora depois, a campainha tocou. Antônio ergueu-se da cama, caminhou calmamente até a cozinha, agarrou uma pequena faca e seguiu em direção à porta. A campainha foi pressionada novamente lá fora. Antônio finalmente rodou a maçaneta e escancarou a porta. Jonas estava ali parado. Seu rosto refletia transtorno e apreensão. Sua voz saiu entrecortada:

– Eu sei. Entre. – respondeu Antônio. Sua voz era tranquila e seus gestos controlados. A porta fechou-se.

– Sabe? E... Como desconfiou? – O corpo de Jonas tremulava e seu coração batia em descompasso.

– Eu li nas entrelinhas, meu caro.

– Foi por isso que eu me afastei de você – Jonas deu uma longa pausa, como se não fosse dizer mais nada e continuou. – Eu não podia... Eu não podia mais fingir. Logo você iria saber... Então resolvi dar um tempo. Eu... Iria te falar ontem à noite, antes dela chegar, mas... Além do mais, você estava de cabeça quente...

Antônio mostrava uma paciência e compreensão inverossímeis, apesar de sua mão esquerda espremer o cabo da faca contra a coxa. Seu silêncio continuou. Jonas prosseguiu:

– Quando você ligou e disse que tudo estava resolvido, eu achei que era hora de contar a verdade...

Antônio olhava fixamente para o rosto de Jonas. Observou os lábios do amigo tremendo. O suor brotando de seus poros. O olhar baixo. “Assim que ele confessar, o seu pescoço será rasgado como o de uma galinha”, pensou.

– Eu sumi há cerca de um mês, – continuou Jonas. – dizendo que estava ocupado... Amanda e eu nos separamos, porque eu disse a verdade... Eu não podia mais enganá-la; simplesmente, não podia mais... A verdade é que eu nunca a amei. – Jonas começou a tremer ainda mais e a lacrimejar.

Antônio seguia calado e impassível. Sua mão pressionou ainda mais o cabo da faca.

– Olhe, Antônio, eu sei que você ama muito a Lídia e que jamais ficaria com... Mas é preciso que eu fale a verdade agora... Mesmo que acabe a nossa amizade.

Antônio preparou-se para dar o golpe fatal.

– A verdade é que eu sempre te amei – deixou sair Jonas enfim.

Após um “não” sonoro e sinistro, Antônio, com uma destreza incompatível, esfaqueou-se na jugular. Sua mão deixou a faca cair. Seu corpo tombou para frente imediatamente. Jonas conseguiu agarrá-lo antes que tocasse o chão. Antônio tentava respirar desesperadamente, mas o sangue que jorrava impedia-o. Jonas o tinha no colo. O sangue morno encharcava ambos.

Antônio, agora, estava pálido, quase sem vida, gemendo, à medida que se chafurdava em um charco de sangue; seu corpo fazia movimentos involuntários; seus olhos tornaram-se esbranquiçados. Ele se esvaia, deixaria de existir em poucos segundos. Jonas chorava e, em um ato de desespero, beijou os lábios mortiços de Antônio.

– Meu Deus! Meu Deus! Não era para ter sido assim, não é justo! – gritou Jonas aos prantos. – Durante anos, eu trouxe isso dentro do peito... Estava me sufocando e agora...

Antônio soltou seu último gemido, um quase imperceptível. Jonas pousou-lhe a cabeça ao chão, com todo carinho, e se estirou ao lado do corpo. Em meio àquele mar de sangue, Jonas encontrava-se abraçado, em silêncio, com o corpo inerte, e só conseguia pensar que fora o culpado pela morte de Antônio.

Jonas tomou a faca em suas mãos após alguns minutos. Olhou Antônio pela última vez, tomou coragem e, de forma quase maquinal, repetiu o gesto daquele que sempre amou. E antes de sua consciência também cessar, teve um estranho sentimento de graça, como se tivesse compreendido tudo que existe entre as linhas tênues e flutuantes da vida e morte...

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Obra de Gabe Penn. Aquarela no papel. Livro de xadrez e sangue (14x20cm). http://www.gabepenn.eu/2010/chess-book-and-blood/

7 comentários:

  1. Antonio tornou a estoria dele na mesma que ele leu para seus alunos, nos livros literarios.
    Incorporou as historias literarias na sua vida pessoal, nao sabendo distinguir o real do imaginario.
    Preferiu criar uma estoria pessoal, baseada ao seu ponto de vista em relacao a esposa e ao amigo, dando razoes proprias para os supostos acontecimentos.
    Somente no final, percebeu, que a sua criacao foi ambigua, ilusoria e tragica, igual aos contos literarios.

    “ A razao tem razoes que as proprias razoes desconhecem.”

    ES

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  2. Uma leitura errônea das entrelinhas da vida feita por um professor de literatura causou toda a tragédia. A leitura foi feita em cima de evidências não concretas, de hipóteses, de achismos e deu no que deu... Belo texto. Adorei a intertextualidade feita com Machado e Flaubert.

    Jennifer Viana.

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  3. Nossas interpretações, conclusões e preferências são frutos de nossa bagagem moral e cultural. Desta maneira temos imensa dificuldade de fazermo-nos imparciais diante de acontecimentos que, especialmente, nos dizem respeito.
    O texto "Entrelinhas" nos mostra com clareza o mecanismo de julgamento do ser humano. Além disso, traz a tona as consequências de nossos atos, nos fazendo refletir que o pior dos castigos é, sem dúvida, a CULPA.
    Outro aspecto marcante no texto é o fato da negação. O desejo foi interpretado de maneira mais cômoda e socialmente aceitável: foi mais fácil reconhecer a traição da esposa do que perceber, "nas entrelinhas", o desejo sexual despertado no amigo.
    Julgamento, aceitação, vulnerabilidade, parcialidade... Excelente reflexão acerca do funcionamento da mente humana, suas contradições e imprevisões.
    Paula Freitas

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  4. A vida tem coisas que a razão nunca conhecerá, e por mais que nos esforcemos nunca estaremos perto de decifrar tais enigmas...Intertextulidade é fazer uso da tudo que está em nosso desejo0, mesmo que inconsciente..é como Barthes diz: "restanos a inquietante sensação de que tudo já foi dito".
    Marco

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  5. Corrigindo:
    A vida tem coisas que a razão nunca conhecerá, e por mais que nos esforcemos nunca estaremos perto de decifrar tais enigmas...Intertextulidade é fazer uso da tudo que está em nosso desejo, mesmo que inconsciente..é como Barthes diz: "resta-nos a inquietante sensação de que tudo já foi dito".
    Marco

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  6. Esse texto maravilhoso dá-me a chance de falar sobre um tema muito corriqueiro, que se chama ansiedade. Dizem os grandes sábios, que o primeiro passo da loucura é a ignorância. Antonio atingiu o limite máximo da ignorância, e a conseqüência disso, não podia ser outra, senão a loucura. Engana-se quem pensa que isso é raro. Pois esse é o grande mal do nosso século. Antonio tinha uma angústia, um desassossego, uma inquietação penosa, uma ansiedade tão grande, que acabara por afastá-lo da realidade.
    O que gera a ansiedade é a expectativa, pois, se não alimentássemos algum tipo de expectativa, não haveria razão para que nos tornássemos ansiosos. Mas é preciso esclarecer o que quer dizer com “expectativa”.
    Desejar algo, ou lutar por algo, não é errado, pois todos nós queremos conquistar alguma coisa, o que nos leva a ter objetivos e metas a cumprir. O problema acontece quando perdemos o controle do tempo, aqui e agora, e jogamos a atenção no futuro, um tempo que ainda não existe – o que significa que, no fundo, estamos imaginando as coisas como gostaríamos que elas fossem e não como de fato são. Assim quando digo que a expectativa é a causa da ansiedade, é a essa espera projetiva que estou me referindo.
    A ansiedade toma conta de uma pessoa no momento em que ela desvia a atenção das suas ações e das coisas que acontecem a sua volta. Então ele se divide entre o que ocorre no presente e o que desejaria que acontecesse no futuro e, por isso, dificilmente se mantém atenta a si mesma e ao entorno com o qual interagem. Essa desatenção não é admitida pelos grandes sábios, classificam esse ato como um comportamento próprio dos ignorantes.
    Voltando ao texto: Lídia, com certeza, amava o marido – do jeito dela, mas amava. Porem, como não amava do jeito que o Antonio gostaria que ela o amasse, então foi criado na sua cabeça, a fantasia da traição. Isso foi tão forte que ele se perdeu da realidade. Ficou louco. Uma loucura que teve como conseqüência, duas tragédias.

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  7. Como dizem por aí, para um paranóico, meia palavra basta.

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