domingo, 20 de fevereiro de 2011

O pastiche (Carlos Eduardo E. F.)


Apesar de ser um pastiche, o quadro fora pintado com todo ardor por Aguilar, um pintor fracassado. A obra original, de Esteban Del Monte Rei, ano desconhecido, ilustrava a figura solitária de um homem que seguia para o cadafalso. De costas, o condenado vestido com andrajos negros seguia pelo caminho de terra batida, cercado por uma multidão de toda sorte de vestimentas coloridas, com feições horrendas, ora apresentando sorrisos sinistros, ora rostos alucinados em deformidade. Um homem que se espremia entre o povo sedento pela tragédia diferia e destacava-se dos demais. Seu rosto aterrorizado e triste parecia escorrer pela tela. O patíbulo de madeira no final da estrada era surrado e, no entanto, intimidador. Um verdugo impassível, com seu eterno capuz negro por sobre a face e braços cruzados, jazia soberano lá em cima a espera da execução da pena capital. Outro carrasco, este sem capuz, que encaminhava o homem miserável por trás, tinha o rosto virado para trás. Seu olhar beligerante emanava satisfação, encarando quem quer que admirasse a obra. O céu acinzentado iluminava, de certa forma, o horizonte acima, contrastando com certa obscuridade da parte de baixo, apesar do colorido.

Aguilar amava aquela pintura, sobretudo porque supunha ser cheia de significados inerentes à sua própria vida, e até por isso, também, resolvera reproduzi-la. E outros dois fatos levaram-no a fazê-lo: a pintura estava quase toda destruída pelo tempo e era desconhecida.

É bem verdade que no começo da ideia de fazer a imitação só havia admiração e ingenuidade por parte do artista malogrado, mas depois a fatuidade e a má intenção tomaram conta do pintor e deram novos rumos à sua história. Aguilar acreditava ter totais direitos sobre o destino da pintura, afinal foi ele que encontrara tal preciosidade e, ademais, ninguém sabia quem era Esteban Del Monte Rei, a pessoa que assinara a pintura; o quadro nunca fora visto e nem mesmo, pelo que constava, possuía um nome. Aguilar certificou-se de tais fatos com uma obsessão quase doentia. Passou meses pesquisando. Frequentou livrarias, museus, universidades por toda a Espanha. Conversou com curadores, outros pintores, professores e outras autoridades do ramo da arte e história. Não havia absolutamente nada. “Talvez, Esteban Del Monte Rei foi um pintor de um quadro só”, pensou Aguilar. “Ou o nome assinado é, na verdade, um pseudônimo de qualquer pintor famoso que quisesse manter o anonimato”. Fosse como fosse, ali existia, deveras, uma oportunidade única de ser alguém reconhecido e famoso, de modo que não vaticinou outro desfecho.

Conhecer aquela obra de arte pitoresca fora uma grande serendipidade. A casualidade deu-se quando Aguilar viajava sozinho de férias pela província de Navarra, no norte da Espanha. Na vida, em certos momentos de desilusão, descrédito e dúvida, o melhor, pensou o artista, é abster-se de seu ciclo privado por um tempo, por isso, ele saiu de Valência, onde se estabelecera há anos, rumando para o extremo norte, quase à margem da fronteira da França. Na metade do caminho de sua peripécia, Aguilar já havia melhorado um pouco, como se tivesse perdido algumas de suas muitas camadas que lhe impunham fardo , deixando-o mais leve e solto, e, assim que chegou à Pamplona, município da província, já começava a pensar que além da melhora emocional, a viagem também poderia lhe render inspiração e sorte. Bem, sabemos de antemão que sorte, a princípio, houvera. Quanto à inspiração, jamais realmente veio, nunca mais. O achado aconteceu quando Aguilar, durante uma caminhada matutina pelo campo, sentiu fortes dores no ventre. No dia anterior, à noite, em pensão de Dona Inés Buendía, Aguilar empanturrara-se com a Fabada caseira da velha senhora gorda. Juntem-se a isso umas duas garrafas de Vinã Real e meia dúzia de mazapanes de chocolate. Naquela manhã, após meia hora de caminhada sob o sol escaldante do verão caliente, um pouco longe de tudo e de todos, seu estômago soltou um grito rouco e cavernoso e revirou-se como um redemoinho. Aguilar rodopiava freneticamente, cerrando os punhos e olhando para todas as direções a procura de algum lugar discreto, onde pudesse descarregar a sua dor. Com extrema dificuldade, segurava seus esfíncteres. Não haveria tempo para voltar e nem para continuar procurando. Avistou uma azinheira a uns 200 metros. Haveria de ser lá. O tronco grosso dar-lhe-ia uma mínima discrição. Seguiu em direção da árvore frondosa, ora dando passos largos e rápidos, ora travando as pernas, com passos hesitantes, para tentar conter a erupção da lava vulcânica que, inexoravelmente, irromperia em segundos. Vinte metros, sessenta metros, cem metros, a distância era contada à medida que seguia com dificuldade, assim parecia brotar alívio em meio ao caos instaurado. Gotas de suor rebentavam na face e logo escorriam. O sol explodia em resplandecência na esfera cérulea. Enfim, duzentos metros depois, sua redenção – a calça fora abaixada num puxão violento, mas necessário, e, em cócoras, as pálpebras deixaram-se cair em abastado refrigério. Os músculos, finalmente, entraram em repouso. Findado suas necessidades, Aguilar retirou um lenço do bolso das calças arriadas e teve sua higiene parcial. Acabou por usar as ceroulas para tal finalidade também. Por um instante, ele havia se esquecido que estava em campo aberto. Olhou em volta, assustado, mas não havia ninguém. Aliviou-se. Ato contínuo, cavoucou a terra perto da raiz da azinheira, de modo que pudesse encobrir seus dejetos e os panos, então, imundos. Quão não foi a sua surpresa dar de cara com um caixote de madeira antigo e todo entalhado, fixado exatamente debaixo de uma das raízes da árvore. Eis que lá jazia, dobrada e deteriorada, o bálsamo de sua vida.

À medida que tentava reproduzir cada traço da tela original, Aguilar dava novos significados às imagens, que, ponderava ele, refletiam exatamente a sua vida. O julgamento social, um eufemismo para impulsividade de vingar-se de qualquer um sob quaisquer aspectos, o comportamento de gado das multidões, descriminação, intolerância, medo, raiva devido a uma vida inteira de sentimentos reprimidos, covardia, a condenação do diferente, do anormal, a solidão, o abandono, a escolha que leva ao fim. Ainda outros entendimentos vieram mais tarde.

“Esteban Del Monte Rei, seja ele quem for, há de perdoar-me”, consolava-se Aguilar quase que diariamente. “Esta é a forma de honrar o seu nome e apresentá-lo, através de minhas mãos, ao mundo”.

Não tardou para que ao fim e ao cabo de onze meses, no final de novembro, a cópia ficasse pronta, faltando tão somente a sua assinatura ao canto direito inferior da tela, o que se mostrava de suma importância para o pintor, o grand finale, a sua apoteose enquanto artista. Logo, com pesar no coração, tratou da pintura original, como uma das últimas providências. Seria um tanto arriscado mantê-la, por isso queimou-a e, em um rito quase dogmático, atirou as cinzas ao mar.

Aguilar bem sabia que o pasticho não possuía a genialidade inconcussa do original, com sua essência melancólica, pungente e despretensiosa da época desconhecida. Porém, era indubitável – ali estava uma obra de arte. O mundo haveria de recebê-la com pompa e circunstância, reconhecendo e aplaudindo o artista e a sua “criação”. Aguilar ficou dias observando o seu produto em seu ateliê. Deixava-se cair com leniência sobre a poltrona enquanto fitava a tela presa no cavalete e, dela, não tirava os olhos mais. O tempo passava rapidamente. No começo, eram horas e horas de admiração. Sentia uma paixão intensa pela tela, pelo que foi capaz de fazer e por ele mesmo. Estava em paz consigo. Com o passar dos dias, no entanto, a paixão tornou-se obsessiva. Comia, bebia, dormia quase nada e não saia de casa para coisa alguma. Nada mais importava, somente o quadro. Definhou-se, enfraqueceu e adoeceu, mas não estava só – ele tinha o quadro.

Um dia, no mês frio de janeiro, Aguilar ergueu-se da poltrona num solavanco só e pôs-se de pé com dificuldade. Deu oito passos cambaleantes em direção à tela, tomou o pincel nos dedos tremulantes, passou-o superficialmente no preto da paleta de cores e, no local planejado, assinou o nome com esmero. Seus olhos marejaram-se e, logo, irromperam em lágrimas. Recuou um pouco e caiu de costas ao chão de taco. Sua mão abriu e o pincel rolou.

No canto direto da parte inferior da tela lia-se: “Esteban Del Monte Rei”.
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Obra: The Magpie on the Gallows, Pieter Breughel the Elder, 1568.

4 comentários:

  1. Somos plágio de nós mesmos...um amontoado de mãos para pintar a tela que se chama vida..quem assinará sua autoria??
    Belo texto.
    Marco

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  2. A autenticidade e’coisa rara, e talvez nem exista para muitos.
    Com tanto glamour da moda e dos artistas, os cidadoes comuns passaram a copiar tudo o que a propaganda oferece, perdendo assim a propria identidade.
    Muitas pessoas perderam as suas caracteristicas proprias,fundamentais que destinguem um individuo do outro.
    Copiar o outro tornou-se mais pratico, mais facil do que construir uma identidade propria.
    Muitas vezes, a sociedade forca essa clonagem desemfreada, e como dizia Freud, somos produtos do meio, e para sermos aceitos teremos que adaptarmos ao environment em que vivemos.
    “ Qualquer semelhanca e’ pura coincidencia.” Sera verdade? Ou sera pura copia mesmo?

    ES

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  3. A arte tem o mágico poder de nos invadir. É com ela, e através dela, que externalizamos os mais íntimos sentimentos e enquanto espectadores identificamo-nos, chocamo-nos e nos extasiamos diante de seu conteúdo simbólico. A meu ver, foi precisamente isto que ocorreu com nosso personagem Aguilar; mergulhou intensamente no universo do quadro por ele admirado. A intensidade do mergulho foi tamanha que o fez desejar ser ele o autor daquilo que julgou ser uma obra-prima.
    Quem sabe apropriar-se da autoria de uma obra que o encantou fosse garantia para ele de que, da mesma forma, encantaria multidões, e assim obteria um reconhecimento imensurável.
    O caso é que o ser humano tem suas particularidades; o modo como pensamos, agimos e fazemos escolhas é extremamente individual, é único para cada indivíduo. Tão somente por isso que o que agrada a uns cria mal estar a outros; o que a alguns parece belo a outros causará horror.E é imprescindível dizer que essa diversidade é absolutamente maravilhosa.
    Talvez ao longo de sua jornada pictórica, nosso protagonista tenha deveras se encontrado e entendido que a verdadeira autencidade consiste em ter a coragem de ousar ser quem realmente se é!
    Paula Freitas

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  4. Esse texto retrata com fidelidade como o ser humano é apegado às coisas da terra, ou como as coisas terrenas nos corrompem, desviam-nos do altruísmo e nos grudam com tanta facilidade, na inércia de querer ser livre do egocentrismo.
    Ouço muitos discursos de desapego, mas são disfarces da realidade; porque o discurso de desapego às coisas do mundo é de uma extrema solidão. Esse discurso talvez seja falado por milhões de pessoas, mas não se sustenta por ninguém; foi completamente abandonado pelas linguagens circunvizinhas; ou ignorado, depreciado, ironizado por elas, excluído não somente do poder, mas também de seus mecanismos (religião, fé, espiritualidade). Quando um discurso é dessa maneira levado por sua própria força, à deriva do inatual, banido de todo espírito gregário, só lhe resta ser um argumento de disfarce, do disfarce da verdadeira intenção.
    Não adianta lançar esse olhar de recriminação ao pintor inescrupuloso, porque cada um de nós, com mais ou menor intensidade, temos um pouco desse apego do pintor. Alguns hão de dizer: Mas esse pintor é um plagiador, ele roubou uma criação do outro. Isso verdade, mas a sociedade atual faz o mesmo. Ela vive de imitação. Nós temos preguiça de pensar e usamos as idéias dos outros; repetimos com tanta freqüência as idéias dos outros, que acabamos incorporando-as como sendo uma criação nossa.
    Parabéns pelo texto! Ficou excelente!

    J Vieira

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