
Prólogo
Diógenes Laércio, biógrafo grego, passa-nos uma lição, através dos pensamentos do filósofo Epicuro, descritos em Carta a Meneceu – “A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais”.
Dois dias antes da tragédia, eu sonhei com uma enorme macieira num descampado. A ironia é que nunca nem vi uma macieira realmente, cara a cara, apenas em ilustrações. A despeito de existir macieiras no Brasil, não é uma espécie originária dos trópicos, mas de regiões de clima temperado. Aliás, para ser completamente sincero, nunca fui um apreciador de maçãs.
Isso tudo me fez lembrar um adágio popular – “Uma maçã por dia, a ida ao médico adia”. Talvez, realmente, elas previnam certas moléstias e, por conseguinte, a morte. Engraçado como tudo pode fazer sentido quando você liga alguns pontos ou, pelo menos, torna tudo tão mais irônico, complicado e por que não perverso?
Ah, a macieira! Ela era bela, imponente, levemente arqueada para direita, com um tronco grosso e envelhecido. Os galhos estavam carregados de maçãs vermelhas e amareladas. A macieira selvagem, sozinha, em um campo aberto, cercada por gramas altas. O céu nublado, sem vento. Nada demais, só isso.
Apesar de nos ensinarem que a morte vem, inexoravelmente, para todos, você sempre acha que está, de certa forma, imune, ou que a chance de morrer alguém com quem você se importa é quase nula. Então, só para lembrar que você é um ser para lá que normal, a morte comparece e começa por tirar apenas um desconhecido, preferivelmente, de mais longe. Você fica triste, é claro, mas também aliviado que não foi você o escolhido e por estar longe do caos, bem afastadinho, no conforto de seu mundo. Começa uma repetição insistente – morre mais um, dois, três, quatro, cinco desconhecidos... Todos os dias, ela vem, não há trégua. Depois, tempos mais tarde, a ceifeira quebra a sua rotina virulenta de levar desconhecidos e ceifa a vida de uma pessoa mais próxima, como um vizinho, um colega de trabalho ou um amigo. Neste ponto, você começa a ficar mais temeroso, mais preocupado com toda a situação, afinal, está acontecendo algo bem debaixo do seu nariz. De repente, quando você está mais calejado, mas também mais solapado com as vicissitudes da vida, esta visitante sequaz vem ter sob as bordas de sua existência.
Essa é a minha experiência. O diabo sobre a filosofia de Epicuro sobre o findar da vida é que a sacana não me quis, ou seja, eu não deixei de existir, entretanto, foi como se tivesse me levado mesmo assim, com o agravante de eu ter presenciado e passado por cada fração de dor...
III – Uma suposição remota
Logo de manhã, quando acordei do meu sonho, fiquei deitado alguns minutos, pensando no que poderia significar uma macieira carregada de maçãs em meio a um campo aberto. Dizem que sonhos têm seus significados, não? Não demorou a vir uma hipótese em minha cabeça desmiolada – talvez as maçãs representassem todas as feituras, boas ou más, que eu já havia cometido e aquela, portanto, era a árvore da minha vida. A verdade, porém, é que a minha vida não era tão bela quanto aquela árvore frutífera; portanto, descarte essa conjetura.
Eu já ouvi diversos relatos sobre previsões, presságios, premonições, feelings, insights, chame do que quiser, algum aviso que possa vir, sob qualquer forma, antes de um acontecimento de fato. Comigo não houve absolutamente nada.
No dia da tragédia, eu assistia a um documentário sobre animais. Era manhã, o céu estava azul e não havia nuvens. Diana, minha esposa, havia começado o almoço de domingo e minhas duas filhas brincavam no parquinho do condomínio.
Da janela de meu apartamento, eu ouvi diversos gritos horripilantes vindos lá de baixo. Ato contínuo, desci correndo pelas escadas, ignorando por completo o elevador, afinal, minhas filhas brincavam no térreo. Meu coração havia disparado. Estava difícil respirar. Eu simplesmente não conseguia ir mais rápido, por mais que me esforçasse. O tempo não passava e minhas pernas estavam pesadas, como se tivessem amarrado um saco de areia de dez quilos em cada panturrilha.
Quando alcancei o hall de entrada, já pude visualizar alguns moradores que haviam chegado antes de mim. Alguns me encararam com cara de puro terror. Meu coração agora parecia querer dilacerar-se, explodindo em mil partes.
Meu Deus, eu daria, eu juro por tudo que é mais sagrado que eu daria a minha vida para não passar pelos próximos segundos, minutos, horas, aquele dia infausto, enfim.
Uma de minhas filhas chorava incessantemente, eu pude ver, assim que consegui dar mais uns passos. Fui ao seu encontro, abracei-a fortemente e indaguei sobre o paradeiro de Lana, a minha filha caçula. Lorena não fez som, mas apontou. Deus, como doeu quando entendi tudo depois...
V – O entendimento
Lana havia passado pelo portão de carros do condomínio para buscar sua bola, que rolou para o meio da rua. O motorista do caminhão não conseguiu frear a tempo. A morte acolheu-a nos braços instantaneamente. Mais tarde, o legista consolou-me, dizendo que ela não sentiu dor. O pobre motorista que a atropelou procurou-me tempos depois, aos prantos. Disse que não dormia bem há muito tempo e que precisava do meu perdão para continuar a viver. Não hesitei nem por um segundo a dar-lhe. Nosso sofrimento parecia fundir-se em um só. Entendemo-nos. O porteiro também veio expiar seus pecados alguns dias depois. Contou-me que ele também não teve nenhuma culpa, pois a menina passara correndo pela cancela junto com um veículo que saia. Remi sua culpa instantaneamente. E não poderia ser diferente, nada traria minha criança de volta (pensamento prosaico e batido, mas verdadeiro). Era irreversível.
Sangue. Eu achava que sangue era ruim de ver. Há coisas muito piores...
VI – Voto vencido
Eu tenho poucas regras na vida. Talvez, a mais sagrada delas é nunca frequentar velórios ou ir à cemitérios. E por quê? Perguntar-me-ia o mais funesto psicanalista ou congênere. É simples, não vejo catarse com a morte, vejo agonia sem fim e sem propósito. O ser humano não está e nunca estará apto a aceitar verdadeiramente a morte. Vejo um massacre psicológico acaçapante enquanto há morte. Não era a minha filha sob as rodas do caminhão mais, não era Lana deitada, inerte, gelada, na pedra do Instituto Médico Legal, não era meu tesouro no caixão. Era um cadáver, que em nada lembrava a minha menina. E a minha criança, tenho-a em mim eternamente. Ademais, não quero que as pessoas nem mesmo tentem entender esse tipo de dor, até porque ela é única e, logo, muito subjetiva. Deixem-me lidar com tudo isso da melhor maneira possível – à minha maneira.
As pessoas nunca entenderam essa minha filosofia de vida. Elas simplesmente não aceitam. Eu compreendo, no entanto, pois é difícil quebrar paradigmas, destruir tradições, criar novas regras e fazer diferente. De modo que não teve argumentação, fui voto vencido, prevaleceu a vontade do resto da família e houve o velório de Lana no dia seguinte.
Estabelecer certezas é um dos primeiros passos para a ignorância, eu sei. Pode ser que lá no fundo eu esteja realmente errado, mas foi no dia do velório que tive total convicção de minha norma sacrossanta – velórios deveriam ser banidos da face da Terra! A experiência na prática desdobrou-se de forma morosa e cabal.
Foi no enterro de Lana que tive ciência que a pessoa pode morrer mais de uma vez em uma mesma vida. Estar lá foi minha segunda morte, a primeira, obviamente, foi quando vi seu corpo escalavrado sob o caminhão. No velório, eu também morri pela terceira, quarta, quinta, sexta vez, continuando sucessiva e incessantemente enquanto durou aquele martírio. Morre-se a cada microssegundo sob tais circunstâncias.
Hoje faz exatamente 19 meses que estamos sem Lana. Diana e Lorena conseguiram superar a perda da melhor forma possível e continuaram com suas vidas. Quanto a mim, eu não pude, não ainda. É difícil respirar sem Lana, é difícil viver sem ela...
IX – Novos entendimentos
A verdade é que estou internado em um hospital psiquiátrico desde então. Os médicos dizem que eu não reagi bem à perda e foi-se embora meu equilíbrio, a minha sanidade, por assim dizer. Minha família também diz, vejam só, que eu nunca tive duas filhas, que eu inventei a Lorena para preencher o vazio que a Lana deixou. E que Lana não morreu atropelada por um caminhão. Dizem, na realidade, que ela faleceu por ter quebrado o pescoço ao cair da única árvore do parquinho do condomínio.
X – Uma ratificação e uma retificação
Confirmo com absoluta convicção que a macieira do meu sonho, deveras, não representava a minha vida, assim também como retiro, de forma reticente, a minha afirmação de “comigo não houve absolutamente nada”, quanto a receber avisos.
Epílogo
Alguns dias atrás, eu sonhei com Lana e Lorena. Estávamos felizes, como há muito não acontecia. Dançávamos, gritávamos freneticamente e gargalhávamos o tempo todo. Quem sabe a morte não seja um pesadelo constante que ainda hei de acordar, afinal, ela realmente não seja nada para nós...
Texto de belas palavras, mesmo tratando-se de tema funesto. Gostei!
ResponderExcluirSugiro uma outra abordagem em suas temáticas. A dor, o escatológico, o fantástico ou mesmo a morte só dão trégua quando os deixamos adormecer em nossos pensamentos.
Feliz 2011!!!
Marco
O texto descreve as incertezas dos significados da morte e da maca; do real e do imaginario.
ResponderExcluirDa mesma forma que a morte tem muitos significados, a maca tambem tem:
Algumas pessoas acreditam que a morte e’o fim de tudo, enquanto outras pensam que e’ um recomeco de vida nova, eterna, sem sofrimentos.
Muitos acreditam que os filhos sao provas vivas do continuamento da vida dos que morreram, mas outras nao acreditam nessas proezas, dizendo que alguns filhos sao completamente diferentes dos pais.
E quando os filhos morrem antes dos pais, essa hipotese realmente desaparece; os pais dizem morrer junto com os filhos.
Vida e morte andam juntos: sao sentimentos e situacoes que nascem e morrem - sentimentos felizes e tristes.
A maca, por sua vez, tambem tem varios significados: o da vida eterna, o da morte, o da saude, o do pecado, o do amor, o da seducao.
Falando em maca, lembrei-me da historia de “Adao e Eva.” Sera mesmo que foi a fruta proibida que mudou todo o percurso daquela historia?
Os significados a respeito das coisas divergem, ficam a criterio de cada um, dependendo do equilibrio mental e das crencas individuais.
O texto e’ alucinogeno; o personagem alucinado: nao identifica-se nele o que e’ real, ou imaginario, vivo ou morto, tudo e’ incerto.
Desejo que esse ano novo que nascera, seja bem melhor do que o outro, que praticamente ja morreu.
ES
Tememos e repudiamos aquilo que nos é desconhecido. Faz parte da natureza humana não aceitar o princípio da finitude. É tão verdade que nunca choramos pela morte do outro; choramos pela incontestável certeza de nossa própria finitude.
ResponderExcluirO que me intriga, de fato, é o histórico de nosso narrador. Será realmente a morte da filha o estopim para tamanho "desequilíbrio"?
Fantasiar, descompensar...., é típico dos neuróticos....Graças a Deus...
Por outro lado, "Só é louco quem pode!" Será que a sanidade mental de nosso personagem-narrador foi realmente abalada ou deveras nunca existiu?
Quem sabe num próximo capítulo deste conto isso possa se elucidar.
Paula Freitas
Desculpe-me pela demora, mas só tive acesso a internet agora.
ResponderExcluirQuanto ao texto, devo dizer que você descreveu com muita propriedade e realismo, a angústia de quem perde um ente querido.Dado ao apego que temos às coisas materiais, esquecemos que o nosso lado real é imperecível e se chama alma, esquecemos que o corpo é apenas uma vestimenta que o verdadeiro eu usa para passar um determinado período neste mundo. Esquecemos que não somos daqui, que estamos aqui apenas para comprir nossa tarefa, e assim que ela finda, retornamos ao lugar de origem.
O assunto é intrigante e inesgotável, portanto, paro por aqui, e parabenizo o amigo por mais esta pérola.
A morte...tão temida e inevitável. Texto maravilhoso que nos faz refletir. Será a morte o fim? Sempre me questiono sobre isso.
ResponderExcluirUm grande abraço.
Rebeca