quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Frankenstein dócil (Carlos Eduardo F. M.)


Não adiantou lutar, depois de alguns minutos, a resignação veio. Estagnada e com os olhos extremamente salientes e marejados, Tirsa, agora subjugada por aquele homem alto, olhava fixamente para o teto, como se procurasse um ponto de fuga. Segundos depois, sentindo a respiração ofegante daquele macho descontrolado, meneou a cabeça e ficou a olhar para a janela, que estava entreaberta, deixando uma pequena fresta, pela qual passava um feixe frouxo de luz, que levemente tocava o chão daquele canto pouco iluminado do quarto, formando um pequeno círculo tênue, quase transparente. Por entre aquela luz sem vida, ela viu ínfimas partículas subindo e descendo, e lembrou-se de quando era uma criança, assistindo a um espetáculo circense pela primeira vez, com homens e mulheres acrobatas, trocando de posições no ar, sob a luz de um único projetor. “Era um circo mambembe, mas, naquela época, aquilo bastava para se fazer uma criança feliz”, pensou. Subitamente, voltou a si, assustada pelo gemido extenuante e selvagem que o homem havia soltado quando alcançou o ápice. Ele saiu de cima, ela deixou escapar uma lágrima, ainda olhando em direção da janela.

– Olha para mim, vagabunda! – exclamou ele. Seu rosto era de um ódio indescritível e seu olhar demoníaco.

Com o corpo rijo como uma tábua, ela não conseguiu olhar e tremulou ainda mais. Ele não hesitou, pulou sobre ela novamente, e, com a mão esquerda, puxou com brutalidade o maxilar dela para direção de seu rosto, de modo que pudesse olhá-la nos olhos. Com a mão direita, pegou o canivete que estava sobre a mesinha ao seu lado e pressionou sobre o pescoço dela. Ela sentiu a carne ser levemente perfurada e uma gota de sangue brotou e escorreu. Tirsa quis gritar, mas simplesmente não pôde.

– Escute bem, sua piranha. – disse ele em tom baixo, pronunciando cada sílaba de forma grave. – Eu vou deixar você viver para lembrar-se de nós, mas se for até à polícia ou contar para qualquer pessoa sobre o que aconteceu aqui, eu corto você todinha depois de usá-la novamente e não vou deixar nada passar da próxima vez.

Aquele homem esguio levantou-se rapidamente, abotoou a calça jeans, guardou o canivete no bolso, ajeitou sua camisa de botões e passou a mão no cabelo, como se nada tivesse acontecido. Virou-se de costas e dirigiu-se até à porta e antes de efetivamente sumir, ele virou-se em direção à sua vítima e disse de maneira cortês:

– Tenho a convicção que jamais se esquecerá.

O rosto dele agora irradiava satisfação e alegria.

Quando Gregori dos Santos voltou para casa naquele dia, não se lembrava exatamente de tudo que havia feito, porém sentia uma satisfação desmedida que abrandava suas dores. Aquela era a primeira vez que havia feito aquilo.

***

Gregori era um homem alto, bem alto para os padrões de um brasileiro. Media dois metros e cinco. Era bastante delgado para a sua altura. Tinha um rosto vincado com um pomo-de-adão saliente. Seus cabelos eram curtos e espetados; seus olhos eram caídos, com pálpebras bem marcadas, evidenciando umas olheiras irremediáveis. Quem quer que o visse, e viam, por causa de sua aparência anômala, tomaria-o como um bobão, um retardado de proporções gigantescas, talvez até um Frankenstein dócil. Ele também parecia ser um homem frágil, prestes a desfazer-se ao primeiro toque. Ademais, sua saúde era precária, principalmente nestes últimos tempos. Sua aparência agora era fantasmagórica.

Tudo começou com uma dor aguda no abdômen. O médico dissera ser uma úlcera, após o primeiro diagnóstico. Mas, dois meses depois, tendo já tomado todo o medicamento receitado, a dor simplesmente não passava. Quase não comia e já havia perdido oito quilos. Foi só no segundo médico que descobriu o verdadeiro mal que havia dentro de si. No consultório, sentado de frente para o homem que falaria uma das verdades mais doloridas que já ouvira, Gregori falou dos sintomas pelos quais era acometido nos últimos meses. Depois de ouvir com atenção o médico perguntou-lhe:

– Você já teve hepatite quando criança?

Gregori meneou a cabeça positivamente. O médico parou por um instante, respirou fundo, mexeu a caneta que estava entre os dedos e indagou-lhe novamente:

– Não reparou que sua pele e suas mucosas estão amareladas?

Não, não havia reparado. Gregori não era um homem vaidoso, pelo contrário, era extremamente relaxado e achava-se feio. Era raro olhar-se no espelho. Também quase não saia de casa, principalmente depois de ter sido aposentado. Além do mais, não tinha um amigo sequer e vivia trancado na escuridão de seu lar. Era um sociopata.

– Senhor Santos, – fez o médico, com a voz branda, medindo as palavras que ainda viriam. – precisamos fazer mais exames para ter mais certeza, mas, por tudo que ouvi e vi até agora, digo que pode tratar-se de um problema grave no fígado...

– Grave? – interpelou o ouvinte.

– Como... – hesitou o interlocutor, parecendo que jamais fosse dizer mais nada. – um tumor. – completou receoso.

Após ouvir as duras palavras daquele homem vestido de jaleco branco, Gregori teve que confrontar seu mundo. Muitas questões vieram à sua cabeça, girando como um turbilhão, e ele teve vontade de sair correndo para qualquer outro lugar, porém, continuou inerte, encarando o médico, como se a possível sentença não fizesse diferença para o resto de sua vida. Já o especialista continuava a falar, fazendo gestos com a caneta, agora erguida ao ar. Parecia querer retificar o que havia acabado de dizer, voltar atrás com o prognóstico precoce. Porém Gregori já parecia não pertencer mais a este mundo, não o ouvia mais, apenas pensava consigo: “Tenho que ler meu álbum”.

Naquele mesmo dia no qual recebera a fatídica notícia, ao voltar para a casa, ele tirou as vestes, dirigiu-se para sua sala escura e empoeirada, sentou-se no sofá, puxou um álbum de capa alaranjada que estava sobre a mesa de canto e abriu em uma página qualquer, apoiando sobre o colo e segurando com a mão esquerda. Só de ler as primeiras linhas daquela página, seu pênis ficou ereto. Começou uma masturbação frenética à medida que seus olhos discorriam sobre cada palavra das sentenças, de maneira quase hipnótica. Gregori mergulhou naquele texto, ainda que jornalístico, deixando seu lado mais pesado para trás. Entrelaçou-se com as palavras, deslizando suavemente pelas orações e sorvendo a ideia daquele fragmento aos poucos, assim como faria um enólogo, sentindo cada pequena parte de um bom vinho explodindo por dentro e liberando aromas e sabores peculiares. Seu universo caótico confundia-se com aquele mundo de letras, causando uma estranha leveza em seu ser. Da esquerda para direito, seus olhos seguiam; de cima para baixo, sua mão direita era friccionada. E antes mesmo de acabar a leitura, um líquido morno e viçoso jorrou de seu membro ruborizado, que teve espasmos involuntários e deleitosos por alguns segundos depois.

Era no álbum alaranjado que Gregori cultivava o seu hobby. Todos os dias ele comprava o jornal. Saia de casa bem cedo, para não ter de ver outros transeuntes. Sempre por volta das cinco da manhã, que era quando a banca abria. Jamais trocava palavra com o jornaleiro. Escolhia seu jornal sensacionalista, dava-lhe o dinheiro e seguia seu caminho de volta para casa. Havia uma ansiedade inquietante em ler o periódico, na verdade, uma parte específica dele, somente a parte que mais motivava-lhe – a seção policial, o resto ia para o lixo. Lá ele procurava minuciosamente as manchetes e notícias de violência sexual para cortar e colar junto aos outros recortes que mantinha em seu álbum, formando assim sua coleção bizarra. Depois, em estado de êxtase, ele retirava toda a roupa e abria o seu álbum para ler a notícia fresca e fazer o seu ritual macabro.

Através do abuso sexual que os pensamentos libidinosos de Gregori ganhavam força. O domínio do predador, a submissão da presa, o envolvimento carnal pelo autoritarismo, o gosto do poder divino de penetrar em uma vida e destruí-la de dentro para fora, disseminando o veneno que faz corroer vagarosamente. Com apenas a leitura dos recortes, Gregori sentira tudo isso por anos, mas nos últimos tempos sua técnica não funcionava mais e veio um imenso vazio. Já não havia mais o mesmo prazer, os sentimentos, antes sublimes, agora eram lânguidos e irregulares. E foi por esse motivo que Gregori muniu-se de coragem para cometer seu crime pela primeira vez...

A sociopatia de Gregori começou cedo. Ainda criança, ele se lembrava de gostar de isolar-se. Era difícil para ele conviver com outros da mesma espécie. Simplesmente não conseguia socializar-se. E a verdade era que nem mesmo gostava de falar. “Vá brincar um pouco com os outros meninos lá fora, menino! Saia um pouco para variar”, perseverava a mãe. “Hoje não”, ciciava o garoto simplesmente, sempre com a mesma resposta. Nos raros momentos em que interagia com alguém, era com a irmã caçula, a única pessoa que ele julgara amar. Um dia, no caminho da escola, quando era realmente obrigado a deixar o lar, viu do outro lado da rua um velho que podava pequenos arbustos de um imenso quintal. “É o que serei quando crescer: jardineiro”, asseverou a criança, “Assim não precisarei tratar com pessoas o tempo todo”, justificou. E realmente foi esta a sua profissão em um emprego público anos depois.

Já mais moço, considerava-se relativamente feliz com seu humilde ofício de ocupar-se de plantas. As plantas interagiam com ele de uma maneira ideal - não comentavam, pediam ou redarguiam nada, antes, emanavam perfumes que embeveciam a alma e aguçavam os sentidos; além do mais, só o fato de existirem, de estarem ali inertes, com suas cores e formas, já faziam bem aos olhos e à mente. No trabalho, foi assim, até aposentar-se, prematuramente, aos quarenta e nove anos, depois de passar pela perícia médica, que constatou que Gregori não possuía mais condições psicológicas para seguir trabalhando, ainda que fosse com a jardinagem. Com o tempo, a sua misantropia foi ficando cada vez mais aguda, ao ponto de arder em febre só de pensar em sair de casa e ter de falar com alguém, por qualquer motivo que fosse. Logo também vieram alguns distúrbios mentais. Delirava com freqüência e tinha lapsos de memória, tanto que nem a própria família era reconhecida, na grande maioria das vezes.

***

Trinta minutos haviam se passado desde que Gregori visitara sua primeira vítima. Arqueado sobre o sofá, despido, com os olhos esbugalhados e a boca semi-aberta, ele era capaz de sentir o prazer da penetração forçada, como se tivesse acontecido segundos atrás. A velha sensação que sentira outrora havia, finalmente, voltado, mais forte do que nunca. Era impossível deixar de pensar em tudo que acontecera, assim também como deixar de pensar sobre como seria seu próximo ato. “Foi tão melhor que se masturbar lendo as notícias... Eu poderia ter feito isso antes... Vagabunda! Ela me deixou tão excitado quando tentou resistir... Aposto que ela também gostou... Da próxima vez, com certeza, eu farei coisas diferentes...”, sua mente divagava desconexa e incessantemente.

De súbito, a porta da sala foi dar contra a parede com força, ficando totalmente escancarada. Gregori, ainda sentado, olhou para a direção da entrada com indiferença e pode ver vários policiais com seus revólveres, pistolas e rifles em punho, apontados em sua direção, adentrarem cautelosamente pelo recinto, um a um. O policial da frente, que usava colete e uma toca preta, dava ordens aos berros. Gregori, que parecia alheio a tudo, deu um sorriso doentio e ergueu-se de uma só vez. Dedos indicadores vacilantes deram o tom da tragédia. Gregori sentiu várias partes do seu corpo queimando. Puxou o ar com força, mas seus pulmões não foram alimentados. Seu nariz obstruiu-se. Sentiu um liquido quente escorrer-lhe pela garganta. Sua visão escureceu. E sem saber se estava ainda em pé ou se havia caído sua consciência cessou e mais nada sentiu.

Quando saiu de seu estado de choque e recebeu a notícia do infortúnio de Gregori, no hospital, um dia depois, Tirsa, sentiu-se emergir de um pesadelo Kafkiano para mergulhar em outro. Uma certeza e uma dúvida irrompiam de seu coração naquele momento. A certeza era que, conforme previu Gregori, ela jamais se esqueceria de tudo; já a dúvida era porque não sabia se ficava aliviada pela destruição do violentador maníaco ou lamuriosa pela perda do seu irmão demente, que mais parecia, como já foi dito, um Frankenstein dócil.

4 comentários:

  1. A normalidade é simplesmente uma questão de estatística. Como julgar personalidades e atitudes se não levarmos em conta a possibilidade de transtorno mental? Essa incidência ocorre mais frequentemente do que podemos supor.
    A doença mental necessita de acompanhamento, tratamento sério. As políticas públicas devem se ater a esta realidade e assegurar coerência no trato desta questão. Pacientes com transtornos mentais, bem como todos que os cercam merecem atenção especial e tratamento humanizado.

    Paula Freitas

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  2. Impressionante.
    O texto explora tempos diferentes entre os quais deslizamos suavemente sem esforço algum. A riqueza dos detalhes e a imprevisibilidade são marcantes. Torna-se impossível não refletir sobre o conceito de "normalidade" que desenvolvemos ao longo da vida. Até que ponto podemos apontar que tipo de indivíduo seria potencialmente capaz de atrocidades? O conceito do que é normal é extremamente subjetivo. Uma pessoa, aparentemente normal pode ser um maníaco ou vice-versa.
    (overwhelming*)

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  3. Linhas surpreendendes, sadismos literários,confissões, confusões, uma vertigens...náuseas...
    Final que surpreende, antes mesmo que tenhamos nos recuperado do choque.
    Gostei muito (como sempre)
    Marco

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  4. Meu amigo agora partiu para um tema cujos fenômenos são estritamente psíquicos, e quem estudou a constituição septenária do homem, define com clareza a diferença existente entre o distúrbio do veículo emocional e o de vontade, que constitui a cúspide de toda a expressão humana. O texto foi bem elaborado, mexe com a emoção, explora o lado sádico do homem sem cair na banalidade, mas causando choques e náuseas, além do elemento surpresa.
    Meus parabéns! O seu texto é maravilhoso!

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