domingo, 25 de abril de 2010

O podólatra (Carlos Eduardo F. M.)


Era difícil, ainda hoje, para Amarildo Pereira admitir, até porque fosse o seu gosto bem excêntrico e as pessoas que compartilhavam com o mesmo desejo que ele possuía, simplesmente, não comentavam sobre isso; portanto, o número de podólatras, até onde se tinha ciência, era bem reduzido. Mas o certo era que ele amava pés e tudo que se relacionava a eles, como calçados, principalmente, os de salto alto, meias de todos os tipos, esmaltes e tantas outras coisas do gênero. E havia um ponto principal, que ele próprio, apesar de já ter tido a certeza, relutava em aceitar e esforçava-se para dissimular, porque qualquer um que conjeturasse isso, diria que ele era um lunático asqueroso – o chulé. Sim, o cheiro fétido que provinha dos pés, excitava-o profundamente. “Nada mais gostoso do que um pé quentinho e úmido, acabado de sair de um sapato, após horas de uso”, pensava consigo. E, quando não havia pés por perto para o deleite de seu olfato, ele cheirava os próprios pés. Contudo, mesmo com demasiada obsessão, os pés, para serem idolatrados, deveriam ser bonitos e bem cuidados. Em se tratando de podolatria, a aparência é fundamental.

A atração por pés sempre fora presente em sua vida desde pequeno. Foi quando tinha apenas oito anos que descobriu a sua sina deliciosa. A criada e ele assistiam a uma série, sozinhos em casa. A Mulata estava deitada no sofá, com os pés para fora, e, logo abaixo, deitado sob o carpete, ele ao chão. Era sua série preferida, mas naquele momento, por algum motivo irracional, só conseguia olhar para aquela sola um tanto que áspera, que possuía um leve odor de suor. De repente sentiu uma coisa boa na parte de baixo, puxou o calção de maneira ingênua e deu de cara com um “piu-piu inchado”. Ela, percebendo a excitação do pequeno, jogou o pé por cima da barriga dele, desceu até lá em baixo e começou a fazer movimentos circulares. Segundos depois, ele próprio, subitamente, guiado por um instinto quase animal, agarrou o outro pé dela, passando a mão por todo ele e depois levou a mão ao nariz, sentindo aquele odor excitante. Não resistiu e meteu a língua por entre os dedinhos do pé dela, e a planta do pé da moça espremeu-lhe o rostinho pueril, de modo que seu desejo cresceu. Pouco tempo depois, ela levantou-se de súbito, foi até ao banheiro e sumiu por lá. Dias depois, aquela série não voltou mais a passar, assim como nunca mais houve aquela “delícia” que a Mulata fazia com os pés ou qualquer comentário. Havia feito apenas uma vez ao acaso, talvez; mas o certo é que aqueles poucos segundos se perdurariam eternamente na cabeça dele e estariam sempre presentes em suas masturbações futuras, alterando de alguma forma a sua vida.

Quando tinha treze anos, chegou a duas conclusões bombásticas. A primeira era que havia ficado extremamente fanático por pés e, deles, dependia todo o resto, quando o assunto era sexo. A segunda era ainda mais terrível para ele, tanto que chegou a pensar em procurar um padre e passou meses em depressão – não importava o gênero do pé. “Pelo menos não sou preconceituoso”, ponderava ironicamente, trancado no quarto. “Como posso ficar olhando para os pés dos meus amigos?”, indagava-se com ódio. Mas tempos depois, veio o alívio, quando, resoluto, afirmou para si mesmo – “Não, definitivamente não gosto de homens, apenas idolatro pés, independente do sexo, e uma coisa não tem nada a ver com a outra.” Depois não houve mais dúvidas quanto a isso.

Mesmo depois de casado, pai de duas filhas e bem sucedido na vida profissional, ainda não havia tido coragem de encher os pulmões de ar e admitir para a própria mulher que era um podólatra inveterado e, portanto, com desejos irrevogáveis e inerentes ao caso. É inegável que os pés da esposa não só já faziam parte, como eram fundamentalmente indispensáveis em sua vida sexual há anos, e também era de conhecimento dela, a paixão dele pelos pés, contudo, ela jamais atinou à profundeza dessa paixão. O certo era que faltava completude e ele era infeliz pela sua discrição infecunda, mas ele a amava. Tal amor provinha dos pés dela e nada mais. Isso, ela nunca nem havia sonhado. Em verdade, ela não era uma bela mulher, e nem mesmo passava perto disso, ainda mais se admitirmos os padrões vigentes de beleza do século XXI. Era achatada e meio rechonchuda, mas possuía pés de anjos, emoldurados com esmero pelas mãos do próprio Criador – pés finos, com dedos medianos e proporcionais; sola lisa e suave; unhas sempre cortadas na medida e bem feitas. Enfim, uma perfeição não só para ele, mas também para qualquer podólatra.

O amor pelos pés da mulher era tamanho, que a grande maioria das vezes, preferia masturba-se, tendo os pés dela na boca e o cheiro da sola sob o nariz, ao ato sexual propriamente dito, porque assim o gozo era ligeiro e prazeroso. Isso de certa forma era bom para ela, porque a livrava de suas obrigações quando havia falta de vontade, mas, ainda assim, por não pensar como um adorador de pés, ela sentia-se desconfortável e incomodada, e, por isso, às vezes, ignorava a vontade do marido.

Um dia desses, Amarildo e a esposa estavam caminhando, como costumavam fazer no inverno. Já haviam caminhado por trinta minutos quando chegaram ao cruzamento de uma avenida movimentada. O sinal fechou. O marido parou. A mulher, alheia, continuou. Os chios dos pneus de um carro, que havia dado uma freada brusca, ecoaram por um raio grande. Uma fumaça mortiça subiu pelos ares.

Algumas pessoas se aglomeraram em torno de um homem desesperado, à medida que este segurava uma mulher esmorecida no colo. O rosto dela estava bastante desfigurado, mas quanto aos pés... os pés estavam bem protegidos dentro do tênis de corrida. Isso Pereira já havia conferido!

3 comentários:

  1. "Bombástico" rsrsrs. Seu texto é super divertido, mas consegue mostrar ao mesmo tempo o quanto nós seres humanos somos fúteis / frívolos....

    Nâo é uma critica, mas uma aceitação: Viva a leviandade humana!

    ResponderExcluir
  2. Ola Eduardo,
    Haja amor pelos pes!
    Nao importa o tamanho, a cor, e nem o cheiro.
    Todos sao pes e muito atraentes!
    Podem ser grandes ou pequenos - nao importa o tamanho!
    Podem ser brancos, pretos , ou mesticos - nao importa a cor!
    Podem ser cheirosos , ou chulezentos - nao importa o cheiro!
    Desde que sejam pes, sao todos bem-vindos para os amantes dos mesmos.
    Nao foi a toa que voce nomeou o personagem tao fascinado com pes de“ Amarildo Pereira”- “ Ama Pe.” Nao e’ mesmo?
    O texto deixou claro que as funcoes dos pes podem variar dependendo da imaginacao e da
    criatividade de cada um.

    Um grande abraco!

    ES

    ResponderExcluir
  3. É interessante o seu texto. Esse Podolátra mostra, até com um certo requinte de crueldade, como é comum este desvio de sanidade mental no meio da humanidade. E vou lhe dizer mais: Existe grandes podolátras na alta sociedade, e todos os dias, esbarramos com podolátras pelas esquinas, usando salvo-conduto de gente sadia.rsrsrsr.
    Um abraço meu amigo! você recomeçou bem.

    ResponderExcluir