segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A descoberta (Carlos Eduardo F. M.)


Quando os primeiros flocos de neve começaram a rasgar o céu cor de vinho desbotado, Julian dormia. O vento gelado fazia os galhos nus do bordo do quintal bailarem incessantemente. Em pouco tempo, um cobertor alvo e cintilante cobria a terra. Não tardou para que a temperatura descesse ainda mais.

Julian despertou, repentinamente, com ferroadas de dor por todo o corpo esquelético. O frio havia penetrado no quarto e tomado tudo, tudo que jazia ali dentro, inclusive sua carcaça esquelética. O rapaz ergueu-se com dificuldade e cambaleou até a janela embaçada. Seus dedos delgados limparam o vidro úmido. Em segundos, seus olhos verdes esmeralda foram ofuscados pela resplandecência da neve. Já era manhã. “Mais um dia”, pensou ele.

Nada lá fora era de seu interesse mais, nem mesmo a natureza, que tanto o impressionou por anos. Tudo perdera a graça, perdera o brilho. O pequeno quarto escuro agora era seu mundo, o seu mundo era o quarto, um mundo paralelo, de valor inestimável, fonte inesgotável de reflexão e sabedoria. Acima de tudo, era um quarto sacro.

Agora ele havia tomado ciência da verdade de tudo que o cercava – a vida que sempre tivera era um simulacro de outra realidade, a realidade que ele não vivia e nem sequer havia sonhado que existia. Aquele imbróglio mental... Alguém haveria de tomar alguma providência... E ele fora o escolhido. No instante que tomou tal consciência, a primeira questão arranjada foi não mais participar da vida, não da vida que lhe foi concebida; dessa, não mais. Bastava de ser logrado.

Há cinco dias, trancafiado no quarto, não por obra de força alheia, algo o acompanhava. Sorrateira, a Fome instalou-se nos confins do estômago e, de tempos em tempos, sorvia o restolho de energia que lhe restava. “Estou sempre contigo” – dizia a companheira matreira. E, em certos momentos, principalmente, à noite, ele respondia – “Cale-se, por favor. Seja silenciosa. Ajude-me apenas a clarear as ideias”.

Contudo, também não cuidava de comer por imposição de outrem. Tudo era proposital, fazia parte de uma série de providências que deveriam ser realizadas em seu devido tempo. Tudo fora planejado com cautela e amor. A Fome, era preciso estar com ela. Ela fazia-o pensar melhor, deixando-o mais consciente para o mundo recém descoberto. Além do mais, os alimentos, quaisquer que fossem, eram, sob todos os aspectos, produto do engodo, parte da farsa. Abster-se das enganações, para não mais contaminar-se, era preciso.

“Se os outros soubessem o que eu sei agora, uma revolução aconteceria, com certeza, e eu não estaria só”, Julian ponderou naquela manhã de céu acinzentado e de ares gélidos.

A solidão, certamente, não era simplesmente porque estava sozinho no quarto, estendia-se para muito além disso. A verdade é que sentia solidão por enxergar, pensar e agir diferente dos demais, pelo menos, nestes últimos tempos. Ele era o único a saber. Isso o tornava um ser solitário, ou o que era muito pior – um ser solitário no mundo. “Não há como fugir disso”, consolou-se.

Naquele quinto dia de cárcere, a manhã desdobrou-se lentamente. Uma letargia manemolente desceu sobre o quarto como uma cerração, de modo que não houve mais nada, nem sequer pensamentos...

À tarde, Julian encontrou-se deitado na cama, assustado. Pareceu despertar de um sono profundo, porém, não acreditou que estava dormindo. Lembrava-se apenas de ter acordado da noite anterior e ido até a janela de manhã, depois... depois, ele não sabia. Dessa vez uma ansiedade entranhada aterrissou sobre o quarto abruptamente e fez tudo girar como um liquidificador. Julian agarrou-se à cama com o resto de forças que possuía. O quarto rodopiava vertiginosamente. Seu coração começou a palpitar em um ritmo frenético. Suas entranhas remexeram-se todas e um forte enjoo veio, e ele não pôde mais controlar-se; logo, soltou-se da cama e deixou seu corpo ir de encontro ao chão de tábuas. No momento que sua barriga bateu nas ripas geladas, uma ânsia nauseante percorreu-lhe as vísceras e, como erupção vulcânica, sua boca expeliu um liquido verde de aspecto repugnante...

Anoiteceu, enfim. Julian despertou novamente. Havia um gosto amargo de fel nas profundezas de sua garganta ferida. Agora, ele estava estirado de costas no chão gelado. Seu tórax ardia. Estava muito frio dentro do quarto, apesar disso, seu corpo borbulhava, ardia em febre. Julian tentou erguer-se, mas não pode. Seus movimentos retesados eram mínimos e tremulantes, e eram interrompidos todas as vezes que uma dor aguda percorria-lhe a espinha. Julian também tentou gritar por ajuda, mas sua voz não saia. Afinal, aquele era o quinto dia sem emitir um som sequer.

“Eu não posso acreditar... Agora que eu sei... de tudo... Como dói...”, ainda seguia consciente, pensando, apesar da dor lancinante. “Fado irônico é o meu... sou o messias, trago as boas novas... Mas para quem? Resta saber para quem...”. Houve um grito mudo no quarto.

Lá fora, a neve acumulada era significativa, devido às fortes nevascas das últimas horas. Não havia ninguém na rua. Ninguém ousava sair de casa; não àquela altura, não com aquela temperatura tão abaixo de zero. O lugarejo todo era um congelador gigante.
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Obra de Ben Scheele. Giz de cera sobre tela. 24/01/2000. Obra: A casa do vizinho no inverno.

10 comentários:

  1. Bom texto, Carlos. Já sabe minha opinião sobre eles e sobre algumas particularidades da sua escrita. Seu Julian, anjo que deve ser, permanecerá congelado nos cantos mais profundos da mente, de onde só sairá quando as paredes insensíveis da vida forem diluídas..até lá...continuará sozinho....
    Marco Antonio

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  2. Um comentário a altura... seria possível?

    Valho-me do direito de procurar desesperadamente o acautelador de minhas mazelas gramaticais - também conhecido como DICIONÁRIO!

    E eis que surgem as temidas combinações de letras que me aterrorizaram durante a imersão na agradabilíssima narrativa:

    imbróglio
    logrado
    matreira
    manemolente

    Essas são apenas algumas, mas, ilustres palavras que a partir de hoje fomentam meu vocabulário ora enriquecido com a abundância das combinações inenarráveis de verbos, conjuções, palavras simples, palavras complexas que no final das contas resultam em uma experiência lieterária profunda, intensa, imensa.

    O melhor de tudo é que em sua enorme criatividade Eduardo, imagino eu que cada leitor consegue ter uma experiência única, ou seja cada um viaja no mesmo "avião" e chega em destinos extremamente diferentes.

    De tão vibrante a leitura, eu senti frio e faltou pouco para o Julian aparecer aqui em casa. Você conseguiu dar vida ao personagem e depois quase o matou!

    Existe alguma palavra nobremente e suficientemente aperfeiçoada para dizer PARABÉNS ? Caso ela exista, guarde-a para outra ocasião, pois seria necessária outra que pudesse expressar algo mais.

    Um grande abraço!

    Kaká Araújo.

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  3. Isolando-se em uma casa congelada, cercada por neve, e abdicando-se do mundo material em busca do mundo espiritual , ele descobriu que era o “ messias”, e que trazia “ boas novas.”
    Como “o homem e’ imagem e semelhanca de deus,” o personagem reconheceu nele mesmo “o messias,” apos ficar cinco dias em jejum e isolado de todos.
    O texto demonstrou que “o messias” nasce de formas diferentes, e em lugares diferentes, dependendo da fe e da aceitacao de cada um.
    Certamente “as boas novas” serao oferecidas aos “ cristaos” que acreditam e comemoram o nascimento do “messias” todos os anos - em busca da renovacao da fe, e da esperanca de um mundo melhor.

    Feliz Ano Novo!

    ES

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  4. Ótimo relato para o período que atravessamos!
    Bem descritivo e sobretudo muito reflexivo.
    Paula

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  5. oi professor tudo bem?
    estou com saudades!
    bom queria te dar uma notícia muito triste.
    você se lembra do Igor que estudou comigo na 7ªC?
    aconteceu uma tragédia com ele:ele morreu!
    eu sei que é triste mas,Deus sabe de todas as coisas!
    ah! adorei as 2 histórias muito criativa continue escrevendo mais que eu até acostumei ler!
    kiss
    Maria cecília

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  6. Este juliam descrito no seu texto parece-me, que se trata de um indivíduo em estado depressivo. Uma depressão que pode ter sido causada pelo clima do momento, pelo recolhimento, o isolamento que a friagem promove. Mas a forma brilhante com que foi construída a emoção desse homem, ou melhor, desconstruída, faz-me lembrar do comportamento de alguns religiosos, que depois que se apegam na teoria da salvação, desacreditam na humanidade e se isolam do mundo. Começam se sentir diferente dos outros mortais, perde o equilíbrio e cai na crença de que os desequilibrados são justamente os que pensam diferente. Aí meu amigo, eles passam ver a vida como algo desprazível, e como messias da verdade absoluta, dividem o mundo em dois donos. Uma parte fica com Deus e a outra com o diabo.

    Apesar do atraso, aproveito a oportunidade para lhe desejar um 2010 com muita saúde e inspiração.

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  7. Adorei seu texto =)

    Você escreve muito bem!!!

    Bju
    Poly

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  8. oi teacher
    tô com muitas saudades
    eu espero que você esteja bem
    e toda sua família!
    bjão

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  9. Porque você parou de blogar ????


    Seus textos são super interessantes....

    Volta a escrever vai... garanto que tem um monte de gente sentindo sua falta ;)

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  10. A descoberta


    Isolando-se em uma casa congelada, cercada por neve, e abdicando-se do mundo material em busca do mundo espititual , ele descobriu que era o “ messias”, e que trazia “ boas novas.”
    Como “o homem e’ imagem e semelhanca de deus,” o personagem , reconheceu nele mesmo “o messias,” apos ficar cinco dias em jejum e isolado de todos.
    O texto demonstrou que “o messias” nasce de formas diferentes, e em lugares diferentes, dependendo da fe e da aceitacao de cada um.
    Certamente “as boas novas” serao oferecidas aos “ cristaos” que acreditam e comemoram o nascimento do “messias” todos os anos - em busca de renovacao da fe, e da esperanca de um mundo melhor.
    Feliz Ano Novo!
    ES

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