domingo, 6 de dezembro de 2009

Amanhã serás rico (Carlos Eduardo F. M.)


Em meio ao caos no qual se encontrava, sob as faces da penumbra, dentro de um barracão de um cômodo só, um ser apareceu para José e disse com a voz grave:

– Amanhã serás rico. Queres?

José, que estava estendido no chão da saleta, ainda acometido pelo efeito de meia garrafa de pinga, sorriu, erigiu a cabeça um pouco e, entre olhos semicerrados, balbuciou:

– Quem não quer?

A criatura, que era fosca como o ambiente no qual estava e trazia consigo escuridão nas veias, fez resposta:

– Sendo rico amanhã, morrerás, instantaneamente, no dia depois de amanhã, assim como uma piscadela. Esse é o preço – Sua voz, em tom sinistro, era convicta.

– O que tenho eu na vida? – indagou com ar irônico. – Não, não necessita de resposta, pois minha desgraça é visível aos olhos... Que eu tenha um dia de felicidade nesta Terra, antes de partir! – Seus olhos chafurdaram-se em pranto.

– José, José! Eu não brinco!

– Tão pouco eu...

– Eis, então, que foi selado o acordo...

E falando isso, a voz dissipou-se no breu. E nada mais ocorreu, salvo um ronco contínuo e barulhento vindo daquele ébrio miserável, que dormia envolto em um cobertor negro e etílico.

José da Silva possuía seu nome, que nem exclusivo era, também era proprietário da pobreza e herdeiro da miséria. De resto, não tinha mais nada. Nem o precário barraco no qual passava algumas noites era seu; pernoitava ali, certas noites, em troca de favores humilhantes que fazia para o dono do casebre, um sexagenário libertino que passava o dia catando papelões, latinhas de alumínio e garrafas de plástico nas ruas.

A vida para aquele pobre diabo nada mais era do que um imenso balde escatológico, sujo e fétido, que até poderia ter cheiro inebriante de flores lá pelas bordas de cima, mas, do fundo, donde sempre encontrou-se, atolado em uma massa espessa e grudenta, nunca havia sentido outra coisa.

Nas primeiras horas matinais do dia que se sucedeu, o céu era alaranjado, recheado com nuvens prateadas, como se houvessem sido esponjadas com esmero, formando borrões irregulares. Quando José acordou nessa manhã, com um gosto amargo na boca, titubeou até a porta, escancarou-a e pôs-se a encarar o céu. Imaginou imensas hastes fincadas em algodões-doces acinzentados.

Sob a porta do barraco de madeira, José continuava a contemplar as alturas, sem precisar o tempo que passara. De repente, Uma profusão de cores iridescentes derreteu lá em cima e escorreu pelo ar untuoso. Logo, começou a gotejar. Vieram pingos finos e, depois, espessos. Várias gotas alcançaram a sua boca sedenta. O gosto era doce como mel, mas com sabor menos adocicado, frugal. A chuva descia às bateladas e, quando deu por si, José estava no meio dela.

Transtornado pela lembrança remota de seu pesadelo noturno, José prostrou-se na poça de lama recém formada. Ali no chão do terreiro, todo ensopado, cimentou os joelhos na terra úmida e pareceu criar raízes no solo. Sentiu o barro acolher-lhe com carinho. A chuva limpou-lhe a pele, desanuviou a alma. Talvez, pensou ele, a chuva tenha exatamente essa serventia. Nada tão complicado.

Não! – bradou ele, de cabeça erguida. – Eu não quero, definitivamente, ser rico, pois não conheço a riqueza e não me acostumaria com ela assim tarde na vida. Eles pintam-na para mim. E meu destino é apenas contemplá-la e não possuir. Além do mais – agora sua voz era serena e soou tão baixa que mal ele pode ouvir, e sua cabeça arqueou –, a morte é um preço caro demais para se pagar. Talvez só o amor valha a pena. Nem isso eu tive ­– e silenciou-se.

Mas trato é trato, não nos esqueçamos. Em certas ocasiões palavras são sedimentadas em rochas e perduram no infinito. Algumas palavras. O vento não as carrega, o tempo não as consome. Poucos homens sabem disso. José não era uma exceção.

Não devo esconder de vocês que José foi rico, muito rico, por aquele dia chuvoso apenas, apesar de nada possuir. Ele soube, compreendeu, porém, lamentou ter levado uma vida para que isso ocorresse.

Infelizmente, também não posso omitir o fato de seu corpo ter sido encontrado dentro do barraco pelo velho, um dia depois. A perícia constatou que José morrera sufocado pelo próprio vômito, depois de ter ingerido quase uma garrafa de cachaça inteira.

7 comentários:

  1. Ei Cadu, seu texto me fez pensar um pouquinho em Heidegger, quando ele fala da existência medíocre, e que a aparência é a insignificância a lei da vida: “Construímos ao lado uma vida falsa, que acabou por nos dominar”.

    Acho super quando Heidegger ao falar do existencialismo e consequentemente da morte, apresenta-a como“o elemento que comprime e intensifica a vida, dá lhe pressa e iminência além de que obriga a fazer o melhor em cada instante, porque esse instante é insubstituível e irrepetível”.

    Só a insignificância nos permite viver. E viver sempre vale a pena!!!

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  2. Texto delicioso de ler...
    Sempre num tom sombrio, tal qual, Álvaro de Azevedo, porém, particularmente seu!
    Parabéns, mais uma vez.
    Marco Antonio

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  3. O texto e’ gotico e tragico. “Sonha Josefino!” Parece mais um pesadelo do que um sonho em si. Um ghost fazendo proposta para um bebado miseravel.
    “Pobre homem!” Com tanta pobreza psycologica e material, o mesmo nao quis encarar a hipotese de ficar rico, nem que fosse por um dia. Preferiu morrer tomando cachaca, ao inves de whisky.
    He felt so worthless.
    Que da proxima vez, antes de partir para a outra vida, ele possa sonhar e fazer melhores decisoes - que morra tomando champanhe e comendo caviar. E que possa tambem usufruir de todos os tipos de riquezas, ao inves de somente contempla-las.

    Ate a proxima!

    ES

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  4. "Tornei-me um ébrio na bebida e ponho-me a esquecer, daquela ingrata que abandonou..."
    Meu amigo, você voltou mais forte do que nunca. E para alguém como eu, que não acredita na morte, pois se Deus inventou a eternidade, é proque Ele não queria e existencia do fim, mas apenas uma passagem, de um estágio para o outro.
    Eu considero a vida como um dever que trazemos para fazer em casa. E pensando desta forma, José ficou rico sim. Sua riqueza foi o prêmio recebido pela conclusão da sua tarefa, e bastou apenas um dia chuvoso para desfrutar das delícias da premiação. Parabens pelo texto!

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  5. Eduardo...

    Riqueza e Probreza podem estar muito próximas.
    A verdadeira Prosperidade é algo que não pode ser revertido - talvez por isso "prosperidade" não tem antônimo.

    Meu pensamento... trocar um dia de riqueza por nossa vida é um suicídio

    Seu texto relata muito bem a realidade de muitas pessoas que se enveredam por tantas ilusões e decepcionadas, buscam desesperadamente uma solução para tanta frustração. A Bíblia fala que um abismo chama outro abismo - acho que José é uma ótima ilustração...

    RESPEITO Plenamente o amigo "Conexão poética", mas não concorco, quando diz que a morte não existe. Ela existe SIM, mas apenas no Plano Fisico, mas nós não somos apenas um corpo, temos algo a mais, algo eterno: nosso espírito (Além do nosso intelecto - entenda-se: Alma). Nosso espírito nao morrerá jamais...

    O Corpo de José foi encontrado no dia seguinte. e sua alma (a parte imortal) foi pra onde?

    O texto, como sempre é uma literatura de altíssimo nível, que consegue conduzir o leitor em cada quadro da história, nos fazendo percorrer e imaginar cada quadro como em um filme. Eduardo você tem um grande dom de escrever e eu sou seu fã de carteirinha.

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  6. Quanto a dureza da vida tem o poder transformador de recriar realidades!
    Fantasias.... o que seria de nossa preciosa sanidade sem elas?
    Paula

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  7. uau!! muito bom o texto! amei!!

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