sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Insônia (Carlos Eduardo F. M.)


Era o passar dos minutos que o torturavam, não a insônia em si. A vereda trilhada, inexoravelmente, pelos ponteiros do relógio, em seu mister de mensurar o tempo, corroia seu ânimo.

Os minutos decorriam rapidamente, mas, então, como o tempo parecia estagnar-se? “Não consigo parar de visualizar Einstein neste momento”, ponderou ele, deitado sobre o colchão abaulado e envolto na escuridão; contudo, não sabia o porquê exatamente de seu pensamento, que pousou sobre os ombros e ficou sendo seu companheiro nos minutos seguintes.

Através da janela, uma porção de luz entrava, formando um retângulo translúcido no chão, era um pedaço da extensa calda da lua esparramada em seu quarto. No parapeito da janela, três açucenas alvas de vaso lutavam, corajosamente, contra o breu que insistia em abraçá-las.

Não havia vento lá fora, dava para ver claramente devido à inércia das sombras dos galhos das árvores, aboletadas no piso, e até pior – dava para sentir. Estava quente, muito quente dentro daquele quarto. Ele sentia pequenas gotas de suor rasgar a pele, principalmente, nas costas e na nuca. O lençol desfalecido começava a sorver sua transpiração. O ventilador de teto girava letargicamente e fazia um barulhinho enfadonho – estava defeituoso há tempos. O ar era sufocante.

Um pernilongo, camuflado nas trevas, vez ou outra, fazia um voo rasante perto da cabeça do pobre homem, soltando um zumbido perturbador, que foi arraigando-se em seus ouvidos. Suas mãos ousavam, inutilmente, esmagá-lo.

Na rua lá embaixo, as descomposturas de um ébrio jorraram pela sua boca entibiada pelo álcool, subiram dois andares, atravessaram uma fresta da janela, roçaram as açucenas e tomaram o quarto daquele que jazia acordado e não em paz. O embriagado tripudiava sob a janela intermitentemente, como o pernilongo, de modo que cada vez que a moléstia parecia cessar, ressurgia mais cavilosa.

Entretanto, não era devido aos ponteiros do relógio, que apenas cumpriam seus destinos, ou ao Einstein de sua imaginação, ou ao colchão curvado, ou à luz penetrante da lua, ou à quentura do quarto, ou ao pernilongo impertinente, ou à libertinagem do bêbado, que não conseguia dormir. Nada disso tiraria o seu sono. Nada disso. Nada.

Fora essas razões momentâneas que o deixariam desperto, havia também outros acontecimentos os diurnos. Mais cedo, uma discussão no trabalho; uma pequena pressão do chefe; uma tentativa de assalto; ligações de credores; um aparelho de celular espatifado no chão; várias xícaras de café; cigarros; enxaqueca; dores nas pernas; susto no elevador; ônibus lotado. Pelejas insuficientes para deixá-lo acordado. Não obstante, foi um dia conturbado, ele admitia. Não foi por nada disso, na realidade, que se encontrava de olhos esbugalhados no negrume. Absolutamente.

Naquele dia, àquela altura, havia, seguramente, algo maior acontecendo, que vinha desdobrando-se de forma inconspícua aos olhos do leitor eminente. Passava-se alguma coisa da qual somente ele desconfiava.

De repente, em meio àquela tribulação desnecessária, um barulho agudo ecoou por todo o cômodo. Lúcio deu um pulo da cama – era o despertador que soava sem parar – e caminhou até as enormes janelas, abriu as persianas e deixou que a luz matinal invadisse todo o ambiente. Depois foi até ao banheiro, olhou-se no espelho, jogou um pouco de água no rosto transpirado e deu um sorriso de alívio, à medida que contemplava seu reflexo.

Lúcio sentia-se exaurido, entretanto, preparou-se para mais um dia que irrompia.

9 comentários:

  1. Tá bem próximo das minhas noites de domingo...sempre eternas e insuficientes...
    Ótimo texto, como sempre...profundos e incógnitos...
    Marco

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  2. Palmas! Magnífico!
    Esta é a palavra que posso expressar sobre o que acabei de ler.
    Seus textos são lindos!!
    Cada dia te admiro mais Edu!!
    Parabéns

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  3. Ola Eduardo,

    Cada qual com a sua insonia, desde que
    "os outros" nao percebam a causa da mesma, esta tudo em paz.

    Tudo no seu tempo e no seu espaco.

    As "razoes momentaneas" sempre aparecem na ausencia do sono, e dormindo ou nao, a realidade la fora continua.

    Ate a proxima!

    ES

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  4. Esta insônia tão bem retratada aqui, não é nada mais que, o reflexo de uma atualidade tecnológica absorvida de maneira tão bruta e inconsciente, por essa humanidade que se esquece de pensar como ser humano, para pensar como máquina. E você, meu amigo, a descreveu com tanto realismo, com tanta riqueza de detalhe, que ao ler, a gente se sente vivendo na própria carne, esta anipnia tão comum nos dias de hoje.

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  5. Sintoma corriqueiro da vida moderna e que por vezes persiste sem lhe atribuirmos soluções.
    Bela descriçao!

    Paula

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  6. Essa é a minha biografia (noturna) não autorizada?
    Exijo direitos autorais!

    Agora falando sério...
    Realmente você conseguiu narrar uma noite mal dormida. Eu que de quando em vez sofro desse mal sei o que é e realmente cada parágrafo está sintonizado com a realidade - dura realidade

    Como sempre, você é um exímio concatenador de palavras, frases e versos - parabéns!

    Kaká!
    -O vizinho do 101, mas tá chegando o dia da mudança!

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  7. olha eu de novo!
    AMEI o seu texto!
    cada dia que se passa você se dedica mais e fica ainda melhor as suas literaturas!
    quero visitar seu blog sempre para ver mais novidades!
    Bjos

    Maria Cecília..........

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  8. Ei ei tudo bom ???

    Estou sentindo falta das suas postagens....

    Bju
    Poly

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