quarta-feira, 22 de julho de 2009

Papéis do ofício (Carlos Eduardo F. M.)


Andar pelas calçadas dos centros urbanos da Grande Vitória é uma aventura, uma proeza intimidadora e estressante. É preciso que o cidadão esteja preparado para enfrentar todos os tipos de desafios ou é melhor nem tentar sair de casa.

Vendedores ambulantes, pedintes (com rostos de enfermo), charlatões e ladrões estão à espreita, esperando para ter um pedaço seu, ou melhor, ter o seu dinheiro; transeuntes distraídos, moradores de rua, consumidores, ora apressados ora letárgicos, ébrios, crianças, indo e voltando da escola, enfim, gente de todo tipo ao seu redor, contracenando com você e tornando-lhe personagem coadjuvante em sua própria narrativa; buracos espalhados pelo meio-fio, entulhos, lixo, troncos de árvores expostos na superfície, cachorros, carros, bicicletas, ônibus, motos e todos os tipos de obstáculos atravancando o seu caminho. Tudo isso em perfeita harmonia, conspirando contra cada átomo de seu corpo frágil.

Contudo, não bastassem essas velhas complicações, existe um desafio novo ainda mais perturbador a que um civil está sujeito e este provém de uma profissão informal deste nosso mundo contemporâneo – o propagandista itinerário, aquele que faz a distribuição indiscriminada de panfletos onde você estiver.

Agora os consumistas desenfreados não precisam nem mais ir à procura de seus possíveis anseios, as mercadorias tentadoras vêm até as suas mãos. O que é, até certo ponto, injusto e um tanto pior. E já foi mencionado que não adianta tentar fugir? Não! Então eis – é inútil fugir! Você até consegue se desvencilhar de alguns deles, porém, mais a frente, talvez antes mesmo que você fique aliviado de ter escapado daquele tipo de intimidação, jaz um astuto entregador de propaganda errante, com braços esticados, estrategicamente, em sua direção, mas sem te olhar nos olhos, sem demonstrar que você foi visto há muito tempo. Mas não pense nem por um segundo que ele não sabia que você estaria ali, porque ele sabia de sua localização porvir bem antes de você próprio saber que você estaria ali.

E a sujeira que essa nova ocupação causa? Os garis que o digam. Os papéis, ao fim do dia, forram o asfalto e tentam esconder a sujeira da cidade e suas imperfeições. A maioria das pessoas descarta os panfletos quase que instantaneamente após passarem os olhos dinamicamente, ali mesmo, no meio da calçada. Muitos nem mesmo leem – pegam com uma mão e jogam (no chão!) com a outra, em segundos. E o desmatamento? Papéis são árvores tombadas, nunca é demais lembrar. Essa situação não é ecologicamente correta! Falar assim não está em voga hoje em dia?

Neste ponto, é justo que você pense que isso tudo, na verdade, não é bem um transtorno, porque basta recusar aquela entrega desagradável, recusar uma por uma se for preciso. Isto é democracia, o seu direito de ir e vir, ninguém é obrigado a fazer o que não quer, enfim, a sua liberdade! Adendo: não se iluda! Como citou magistralmente Goethe certa vez – “Nunca somos enganados; somos nós que enganamos a nós mesmos”. Já ouviu falar em reflexo? Pois é, quando você se descuida, já está com uma propaganda nas mãos – é automático! Na verdade chega a ser jogo sujo, covardia, pois te pegam desprevenido. O braço daquele encarregado de alguém estendido rapidamente em direção ao seu peito, no exato momento de sua passagem, é como uma ameaça, um ataque iminente. E sabe qual é a defesa do seu corpo? É também esticar os braços e agarrar uma daquelas propagandas ambulantes.

Outra questão complicada no que tange à sua possível recusa se dá através de um atributo inerente ao ser humano ou pelo menos a maioria de nós – a consciência. Após algumas recusas de recepção do desprezível papel, é inevitável julgar moralmente toda a situação. A sua consciência pesa. Você começa a pensar de outra forma, que, na verdade, aquilo é um trabalho como qualquer outro, apesar de não possuir qualquer vínculo empregatício, e a pessoa (sim! Alguém exatamente como você) está ali em pé, ganhado o pão de cada dia, humilhando-se, de certa forma, e não lhe intimidando. E afinal o que custa estender as mãos e ajudar aquele trabalhador para que aquele ofício flua? Aquilo não é agradável! Ninguém tem como lazer ficar em pé por horas, distribuindo papéis para desconhecidos, o que torna todo o caso uma obrigação – a sobrevivência está em jogo, mais uma vez e sempre!

No final das contas, independentemente da questão, por mais resolvida que seja em sua cabeça, haverá sempre diferentes pontos de vista e um dilema de escolha de lado ou até mesmo uma falta de opinião. Este caso em particular não foge a regra.

O mais importante, quando você avistar um daqueles entregadores de propaganda, seja o seu ato de aceitar ou recusar aquele pedaço de papel naquele momento, é entender que aquela situação, por mais perturbadora e problemática que seja, são papéis do ofício!
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Acrílico sobre tela (40x40cm). Obra: O entregador de papéis. http://www.vidabesta.com/telas/

2 comentários:

  1. Muito bom o blog, você escreve muito bem..
    o meu amigo pedro paulo que disse qpra eu ser sua seguidora e ver seu blog. abraços :)

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  2. Parabéns pela iniciativa meu caro. Você escreve bem e, estou aos poucos conseguindo conviver com as nossas diferenças ideológicas hehehe.
    Sobre o texto, concordo que devemos separar explicitamente as desgraças da chamada "civilização" - buracos, trombadinhas e trombadões, buizinaços, outdoors "engolindo" nossos olhares, sujeira de todos os tipos e cores, peruinhas com aqueles sons insuportáveis, etc, com mendigos, entregadores de panfletos, miseráveis em geral que, fudidos, tentam sobreviver nessa covardia chamada sociedade capitalista.
    Os "produtores" desses cretinos papéizinhos que inundam nossas mãos e mentes, ou seja, os grandes, médios, pequenos e nanicos empresários, prstadores de serviçoes e o escambau, é que me enojam.
    Valeu pelo texto!

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